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Em cartaz com a peça "A Merda", que traz críticas à sociedade de consumo, Christiane Tricerri acredita que País é moralista

Um dia, Christiane Tricerri recebeu de uma amiga uma sugestão para atuar em uma peça. A colega ítalo-brasileira havia lido no jornal italiano "Corriere della Sera" sobre o texto de Cristian Ceresoli e falou que Christiane era ideal para o papel. A atriz então, entrou em contato com o dramaturgo pelo Facebook. E foi assim que ela estreou "A Merda", monólogo impactante sobre uma mulher que, nua, busca um lugar neste mundo e que está em cartaz no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, em São Paulo.

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Christiane Tricerri em cena da peça
Divulgação
Christiane Tricerri em cena da peça "A Merda"

Na pele de uma mulher que clama a todo tempo escapar de seu desconforto e sair do lodo e sofrimento no qual se encontra, ela fica sentada e completamente nua durante toda a apresentação – consideramdo a nudez um instrumento artístico poderoso, mas nem sempre bem aproveitado. 

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"A nudez sofre uma banalização quando está em uma revista. A partir do momento que a nudez é arte, ela continua sendo muito forte como arma revolucionária, é impressionante. O Brasil é um país muito moralista: tem uma liberação geral da bunda, mas com o peito já não é a mesma coisa. Uma mãe vai amamentar e existe um choque", discorre.

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Tirar a roupa em cena não é novidade para a atriz – ela já ficou nua em outras montagens, como "Sonhos de Uma Noite de Verão", de William Shakespeare . "Eu tenho uma relação muito intrínseca com a nudez, falo através do meu corpo. Nesse texto, eu tento trazer o desconforto da personagem com a realidade independente dela estar vestida ou nua. Não posso deixar que meu corpo fale por mim, e sim pela personagem. A questão é desnudar-se de si mesma", analisa.

História

Christiane Tricerri:
Divulgação
Christiane Tricerri: "Eu tenho uma relação muito intrínseca com a nudez, falo através do meu corpo"

A peça traz críticas à sociedade de consumo, falando de fama, poder e dinheiro, vendo-a como totalitária. "É um risco de morte mesmo, a pessoa joga tudo, vai e se fura inteira tirando partes, colocando outras, pondo botox, silicone. É um risco de se perder completamente, corpo e alma".

Ela aponta outro fator que aproxima o público, mesmo com temas tão impactantes. "O texto é belo, é poético. Ele é cru, mas tem uma humanidade, uma poesia à flor da carne; feroz, porém com uma humanidade, uma poesia que brota", filosofa. "É um espetáculo sobre o feminino, no sentido da essência, do amor, do abraçar, conter. Eu acredito que é por isso que o espectador acaba entrando, porque ele é abraçado" .

"Quando você está em cena, tem de alcançar a plateia como se você tivesse várias agulhas e cada agulha espetasse um lugar do espectador. Eu acho que o espetáculo tem esse poder, é retumbante o que causa na plateia, alcançando todos os níveis de emoção e compreensão. É avassaladora, como o tempo que a gente vive".

Christiane Tricerri e Luís Melo na novela
TV Globo/João Cotta
Christiane Tricerri e Luís Melo na novela "Amor à Vida"

Televisão

Com extensa carreira no teatro, Christiane fez poucos trabalhos na TV – duas minisséries da Globo e a novela "Amor à Vida", na qual interpretou Veja, mulher do personagem de Luís Melo . Ela fala com carinho da trama escrita por Walcyr Carrasco e que, embora se sinta bem em ambos os meios, ainda prefere o teatro.

"Confortável eu me sinto em qualquer lugar, preferência é outra coisa. Sou uma artista antes de ser atriz e me sinto mais realizada quando tenho todos os instrumentos na minha mão, como no teatro, onde eu posso falar exatamente aquilo que eu quero. Eu me sinto mais plena no teatro".