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Mesmo sem Tim Burton no comando, produção preserva essência de obras do cineasta e apresenta Sacha Baron Cohen como o implacável e workaholic Tempo

“Alice no País das Maravilhas” (2010) foi um sucesso estrondoso, superando as melhores expectativas da Disney, com uma bilheteria superior a US$ 1 bilhão. Em Hollywood esse tipo de recepção a um filme impõe uma continuação. Apesar de ser o maior sucesso da carreira de Tim Burton , o cineasta mais peculiar do cinema americano recusou o convite para dirigir a sequência, mas topou produzir “Alice Através do Espelho”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (26).

Cena de
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Cena de "Alice Através do Espelho" que estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas brasileiros

James Bobin , que assumiu a direção do novo longa, preservou a aura ‘burtoniana” em seu “Alice” e se beneficiou de um roteiro melhor. “Alice Através do Espelho” mantém a estranheza do original, as cores e a afetação, mas tem menos ruído e gorduras narrativas. O ritmo é melhor e a trama, com uma bem-vinda pitada feminista, mais inteligente e consequentemente menos infantilizada.

Após retornar de uma longa viagem a bordo do Maravilha, o navio herdado de seu pai, Alice ( Mia Wasikowska ) precisa lidar com as dívidas da família que aumentaram durante o período em que esteve fora. No meio dessas tratativas, novamente como um escape da dura realidade, ela atravessa o espelho e volta para o País das Maravilhas. Lá ela acaba descobrindo que o Chapeleiro Maluco ( Johnny Depp ) está sofrendo de uma grande depressão. Incitada por Mirana ( Anne Hathaway ) ela topa viajar no tempo para tentar alterar o passado e salvar o Chapeleiro. Mas o implacável Tempo não pode ser vencido e o histrionismo de Sacha Baron Cohen é a luva perfeita para o Tempo de “Alice Através do Espelho”. Arrogante, workaholic e perdidamente apaixonado por Iracebeth (a divertida e lunática rainha vermelha vivida por Helena Boham Carter e banida do País das Maravilhas no fim do primeiro filme), o Tempo é um personagem e tanto.

À parte a premissa do retorno ao País das Maravilhas por meio do espelho, o filme de Bobin aproveita pouquíssimo do material original de Lewis Carroll . A ideia é fomentar material para que Johnny Depp, ainda o principal nome no cartaz, possa brilhar e justamente por isso a família e o passado do personagem ganham mais destaque na sequência.

Apesar de ser coadjuvante no filme, Johnny Depp é o primeiro nome a surgir nos créditos e toda a trama gira em torno de seu personagem
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Apesar de ser coadjuvante no filme, Johnny Depp é o primeiro nome a surgir nos créditos e toda a trama gira em torno de seu personagem

Fica mesmo por conta do Tempo, porém, das soluções visuais para representá-lo e pelas viagens temporais realizadas por Alice – sempre com o Tempo em seu encalço – os grandes destaques do novo filme. Não que Depp, Hathaway ou Carter comprometam. Muito pelo contrário. Eles servem à indefectível nostalgia do expectador pelo primeiro filme, mas o plot que dá liga à sequência responde pelo aspecto mais charmoso da produção.

É improvável que o novo “Alice” faça tanto barulho nas bilheterias quanto o original; o que configura uma dessas ironias que de vez em quando aparecem na vida – e no cinema. O novo filme, apesar de não inventar a pólvora, é superior ao original e se só existe pelo sucesso deste, deve ser menos visto pela percepção pouco lisonjeira amealhada pela fita assinada por Tim Burton, que já admitira reservas em relação ao seu filme mais bem sucedido comercialmente. Não à toa Alice viaja no tempo para tentar mudar o passado.