Tamanho do texto

Com Julia Roberts no elenco, filme adota ritmo de thriller para colocar o dedo nas feridas de Wall Street e do jornalismo

Espécie rara no cinema americano atual, o filme adulto comercial ganha um tratamento sofisticado pelas mãos de Jodie Foster em “Jogo do Dinheiro”, sua quarta incursão na direção. O filme, que estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas brasileiros, assume uma posição de oposição à especulação financeira encarnada por Wall Street, bem como se estabelece como uma crítica ao jornalismo que se envereda como modelo de entretenimento. Tudo em ritmo de thriller.

Dirigido por Jodie Foster,
Divulgação
Dirigido por Jodie Foster, "Jogo do Dinheiro" faz crítica feroz ao jornalismo que envereda pelo modelo de entretenimento

Com os astros George Clooney e Julia Roberts no elenco, “Jogo do Dinheiro” não pretende o esmiuçamento do mercado financeiro visto em “A Grande Aposta”, um dos concorrentes ao Oscar deste ano . A ideia é divertir ao propor boa hora e meia de entretenimento que não agrida ao intelecto do espectador.

Clooney vive Lee Gates, um guru do mundo das finanças que apresenta um programa televisivo em que dá dicas de investimento. O programa, que é dirigido por Patty Fenn (Julia Roberts), faz mais entretenimento do que jornalismo, como mostram os primeiros minutos da fita – destinados a situar o espectador na ação.

Um belo dia, um sujeito amargurado por um péssimo investimento que fizera baseado em uma dica de Gates o faz refém, ao vivo, no estúdio. Kyle Budwell ( Jack O´Connell ) não é um sujeito mau e Foster se esforça para desenhá-lo como um sujeito pressionado que fez uma má escolha. Ajuda o fato de O´Connell, que já impressionara em “Invencível”, de Angelina Jolie (outra atriz-diretora), ser o responsável por interpretá-lo.

Budwell está decidido a provar, naquele pequeno circo que rapidamente foge a seu controle, que figuras como Gates também são marionetes nas mãos dos barões de Wall Street e com este plot, cortesia do bom roteiro assinado por Jamie Linden , Alan DiFiore e Jim Kouf , Foster vai construindo o bom paralelo entre a omissão do jornalismo e os abusos do poder econômico estabelecido. É um filme simpático à plataforma de campanha do pré-candidato à presidência dos EUA Bernie Sanders . Ele deve perder a nomeação do Partido Democrata para Hillary Clinton , mas suas ideias ganham viço nas mãos de Foster.

George Clooney como o guru e showman Lee Gates de
Divulgação
George Clooney como o guru e showman Lee Gates de "Jogo do Dinheiro"

É notável a evolução de Foster como cineasta. Desde “Mentes que Brilham” (1991), o domínio da narrativa e da mise-en-scène se avolumaram consideravelmente. “Jogo do Dinheiro” é, também, seu filme mais comercial – e mais politizado.

Apesar de todos esses predicados, paira sobre George Clooney a grande responsabilidade por fazer o filme ser tão eficiente. Clooney já provara em suas colaborações com os irmãos Coen (“E Aí Meu Irmão, Cadê Você?”, “O Amor Custa Caro”, “Queime Depois de Ler” e “Ave, César!”) ser hábil em compor tipos idiotas. Mas não um idiota qualquer. O idiota inteligente, bem composto e intelectualmente nutrido. Seu Lee Gates é um homem vaidoso que domina a arte de apresentar um programa de televisão e se vê tanto como um astro do show business como do mundo das finanças. À medida que o filme evolui, essas convicções vão sendo postas à prova e Clooney vai dando o seu show.

A combinação de entretenimento pensante com a eletricidade de um filme de gênero assevera “Jogo do Dinheiro” como a melhor opção no cinema para quem deseja se esquivar dos super-heróis e das comédias que ditam a temporada de estreias.