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Filme estreia nos cinemas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília nesta quinta-feira (19) com foco nos amores e nas angústias da geração que está na faixa dos 30

Quem não gosta de falar de amor? A complexidade desse sentimento nessa contemporaneidade em constante mutação é a matéria-prima de “Amores Urbanos”, que marca a estreia de Vera Egito , premiada curtametragista, na direção de longas. “Eu tinha essa primeira cena do filme”, confessa a cineasta sobre como tudo começou em bate-papo com a reportagem do iG .

Na primeira cena, a protagonista Júlia (vivida com imensa energia criativa e doação pela também estreante como atriz Maria Laura Nogueira ) acorda ao lado de seu namorado para ser surpreendida pela presença daquela que é, na verdade, a namorada de seu namorado. “Aquela cena é real. Aconteceu com uma amiga minha”.

Os protagonistas de
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Os protagonistas de "Amores Urbanos": as crises e os amores dos 30 e poucos anos

Em meio à morosidade para tirar “Maria Antônia – A Incrível Batalha dos Estudantes” do papel, Egito se flagrou ansiosa para estrear no cinema. Essa ansiedade rimou com o desejo de fazer algo sobre relacionamentos, sobre o que acontecia com “a sua turma”. Em meio a um papo descontraído regado a álcool com a também cineasta Rafaela Carvalho , esse desejo verbalizou-se. Essa crônica sobre amores foi ganhando forma acidentalmente. A partir de anotações diversas e troca de e-mails com gente que compartilhava do entusiasmo de Egito em narrar uma história de amor essencialmente urbana e sobre essa faixa-etária dos 30 anos.

Essa galera a quem Egito se refere, além de Maria Laura Nogueira, é composta por Renata Gaspar e pelos músicos Thiago Pethit , Ana Cañas , que atuam no filme, e Camila Cornelsen , que assina a direção de fotografia. Todo mundo se engajou na “urgência de fazer cinema e abordar a natureza das relações de hoje”, rememora nostálgica a diretora.

Beleza do amor imperfeito

A cineasta Vera Egito no set de
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A cineasta Vera Egito no set de "Amores Urbanos" e Thiago Pethit ao fundo

São três protagonistas. Julia busca um amor para chamar de seu, mas sente-se constantemente enganada. Ela precisa lidar, ainda, com uma gravidez indesejada, a pressão dos pais por rumos mais seguros no âmbito profissional e aquela carência que bate forte de quando em quando. Diego (Pethit) saiu de casa escorraçado pelo pai e assumiu sua homossexualidade com toda a liberdade possível. Ele tem uma relação amorosa com Luan, que cobra mais estabilidade do que Diego está disposto a oferecer. Já Mica (Gaspar) cobra Duda (Ana Cañas) que assuma seu namoro de mais de um ano com ela.

“Amar já é errar porque você coloca a plenitude da tua felicidade nas mãos de outra pessoa”, filosofa Egito. “Justamente por isso eu me esforcei para não julgar nenhum personagem”. A diretora, que também assina o roteiro – ela já havia escrito “À Deriva” e “Serra Pelada”, filmes do marido Heitor Dhalia -, conta que releu o roteiro diversas vezes para “ouvir os personagens e concordar com eles”.

Apesar da cumplicidade dessa “família eleita”, como a cineasta se refere à união dos três protagonistas, são visões e anseios muito diferentes os que os personagens apresentam.

Reside nessa dinâmica uma das muitas belezas desse primeiro filme forte, ativamente autoral e de insuspeita sensibilidade. “O tema também é dessa família que você elege”, observa Egito antes de concordar com a reportagem sobre o olhar afetuoso que dispensa sobre a questão da maturidade nesses tempos tão conflituosos. “A maturidade não é como a gente imagina. É um processo doloroso".

Mas é o amor, em toda a sua imperfeição, que salva o dia – e dá cor ao filme. “No amor, você tem que se render mesmo que não seja como você queira”, observa a cineasta ao comentar a resolução do arco de um dos personagens.

A cantora Ana Cañas dá vida a Duda,que rejeita tornar pública sua relação com Mica (Renata Gaspar)
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A cantora Ana Cañas dá vida a Duda,que rejeita tornar pública sua relação com Mica (Renata Gaspar)

A opção por retratar um amor entre duas mulheres, com posições distintas sobre como apresentar essa relação ao mundo, entre dois homens que buscam um denominador comum para se amar e uma mulher que tenta colocar a vida amorosa e profissional em ordem, autentica a contemporaneidade do filme de Egito. Mas paira sobre o desenvolvimento que a cineasta dá a essas histórias, a perenidade de uma obra que sabe ressoar no público.