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Banda propõe jornada musical do blues ao psicodélico e presta reverência ao próprio passado em disco que aponta futuro promissor para o grupo liderado por Tom Yorke

É natural experimentar algum estranhamento ao se ouvir pela primeira vez, e mesmo pela segunda, “A Moon Shaped Pool”, nono álbum de estúdio do Radiohead. A sonoridade é reconhecível, a intensidade emocional de Tom Yorke comparece, a música eletrônica ainda pode ser sentida, mas piano, violão e percussão voltam a dar as caras com desenvoltura em um disco da banda. O que mais impressiona é que essa aparente miscelânea ganha incrível harmonia conforme as faixas vão sendo descobertas.

O Radiohead lançou o clipe de
Reprodução
O Radiohead lançou o clipe de "Daydreaming", faixa do novo álbum da banda

Há uma pegada blues, um toque de folk e uma viagem psicodélica em “A Moon Shaped Pool”, que navega entre Led Zeppelin, Pink Floyd e, claro, Radiohead. A autorreferência é, por sinal, um dos poucos elementos negativos a se registrar a respeito do novo disco.

“A Moon Shaped Pool” soa como se a banda inglesa perseguisse o seu próprio nirvana, no sentido de ratificar seu status como objeto de culto do rock alternativo. Um exemplo são as duas primeiras faixas do disco. “Burn the Witch” inicialmente parece algo do Coldplay, mas vai ficando mais sombria e as distorções do baixo revelam aquilo que todo fã do Radiohead já sabe: a banda gosta de ousar nos detalhes.

Passa por aí, claro, a ideia de reaproveitar material descartado no passado. O que poderia ser mais subversivo do que incluir no novo disco uma canção que já circula extraoficialmente por aí desde meados da década de 90, como é o caso de “True Love Waits”, que fecha o álbum?

Esse olhar repleto de nostalgia e reflexão em “A Moon Shaped Pool” colocou muita gente na indústria da música em alerta. Estaria a banda ensaiando uma aposentadoria? Não há nada que aponte este caminho. O marketing, no entanto, está dando certo. Depois de esvaziar as redes sociais e os canais oficiais da banda na internet e liberar o disco de supetão no último domingo, o Radiohead viu seu álbum digital alcançar o topo no iTunes em 67 países.

Arte de
Divulgação
Arte de "A Moon Shaped pool"

Tom Yorke , Johnny Greenwood , Ed O´Brien , Colin Greenwood e Phil Selway sabem como penetrar as expectativas dos fãs e transformá-las. Sob muitos aspectos, este é um disco inferior a “Ok Computer” (1997) e “Kid A” (2000), mas a criatividade da concepção e o fluxo entre o épico e o minimalista revitalizam a percepção do disco nesse cenário em que o rock shipa com o pop, o galvanizando em algo muito melhor.

Senhor do timing e do marketing e autocomplacente, o Radiohead ganha pontos por resistir a concessões que tantas outras bandas fazem por aí. O interesse pela música eletrônica é menos pelo hype da coisa e mais pelas possibilidades melódicas do pacote.

Por dar sequência a essa obstinação artística e entregar um trabalho tão incomum, surpreendente e, ao mesmo tempo, reconhecível com “A Moon Shaped Pool”, o Radiohead faz por merecer o confete.