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Neville d ́Almeida fala ao iG sobre seu novo filme, que estreia nesta quinta-feira (28) nos cinemas do País, e critica “miséria sexual” de quem enxerga apenas a polêmica em seus filmes

O cinema anda muito chato para quem gosta de cinema. Essa é a conclusão possível depois de pouco mais de uma hora de conversa com o cineasta Neville d´Almeida que volta a lançar um filme 17 anos depois de “Hoje é dia de Rock”.

O longa
Divulgação
O longa "A Frente Fria Que A Chuva Traz" estreia nesta quinta-feira (28)

“A Frente Fria que a Chuva Traz”, como os melhores filmes da potente filmografia deste mineiro de 74 anos, se incumbe de demolir fachadas e apresentar uma personagem feminina poderosa.

Foi Sonia Braga em “A Dama da Lotação” (1978), Regina Casé em “Os Sete Gatinhos” (1980), Cláudia Raia em “Matou a Família e foi ao Cinema” (1991), Vera Fischer em “Navalha na Carne” (1997) e agora é Bruna Linzmeyer. “São personagens femininos e oprimidos, mas eu nunca julguei esses personagens”, observa Neville ao admitir que personagens femininas, em suas angústias e complexidades, se firmaram como mola propulsora de seu cinema.

Em “A Frente Fria que a Chuva Traz”, Bruna, vista recentemente na novela “A Regra do Jogo”, é Amsterdã, uma jovem que apresenta sinais de cansaço da vida que leva. Pobre, ela se infiltra na vida dos ricos e abastados que fetichizam a favela. Para manter seu vício, prostituí-se. A ideia de prostituição está impregnada no filme que trata, nas palavras de Neville, da “cafetinização” da favela. “A grande tragédia brasileira é essa diferença entre a favela e o asfalto. É uma coisa brutal”, indigna-se o cineasta que adapta a peça homônima de Mário Bertolotto.

A peça que trata da “perversão burguesa” foi escrita doze anos atrás e Neuville acolheu-a para dirigir há sete anos, mas só agora está conseguindo lançar o filme. “Existe uma grande miséria sexual na forma das pessoas olharem meus filmes”, teoriza sobre a dificuldade de capitalizar. O orçamento do filme era de R$ 3,5 milhões, mas a produção só conseguiu levantar R$ 900 mil e filme teve que ser rodado na marra. “A burocratização e a censura oculta, dissimulada contra o cinema de busca, de liberdade estética é muito forte no Brasil”, pondera Neville interessado apenas no cinema de impacto. “Meu filme não é um analgésico”.

“Estou cansado desse cinema de fórmula, em que é possível dirigir uma cena pelo telefone. A função do cinema é surpreender o espectador. Se a pessoa sai no meio da sessão, eu respeito ela. O filme mexeu com ela, talvez não da forma que eu quisesse, mas ela está reagindo ao filme”, pondera o cineasta ao contextualizar que seus filmes sofrem preconceito de festivais e editais justamente por evitar concessões.

Cena de
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Cena de "A Frente Fria Que A Chuva Traz"

Sexo falado
Com “A Frente Fria que a Chuva Traz”, Neville recupera o cinema de transgressão. “99% dos diálogos da peça estão no filme”, adverte ao citar a “metáfora do grande conflito social que temos no Brasil”. O filme se passa quase todo em sessenta, setenta metros na laje de uma favela no Vidigal com uma vista abençoada para o Rio de Janeiro. “ O que acontece naquela laje, acontece no Brasil inteiro. É uma coisa de formação”.

Alisson (Johnny Massaro) e Espeto (Chay Sued) comandam uma festa na laje alugada de Gru (Flávio Bauraqui) e essa festança, regada a drogas, álcool e sexo, é catalisadora de diversas tensões sociais que tomam o Brasil, “em que a única coisa que cresce é a favela”, de assalto.  

É um filme muito sexual, mas quase sem nudez e com nenhuma cena de sexo. “As pessoas esperam por uma suruba no final, mas a transgressão é verbal”. Neville não está interessado no choque pelo choque, ele ambiciona uma epifania de verdade. Por isso há reiteradas descrições de como fazer um boquete e outras coisas mais. Fala-se muito sobre sexo tanto como falamos hoje. Mais do que praticamos. Nesse sentido, o filme se assemelha, na organização narrativa, a “Closer- Perto Demais” (2004), obra-prima de Mike Nichols, em que flagramos os personagens falando muito e sem pudores sobre sexo, mas nunca efetivamente fazendo sexo.

“O filme é uma expressão artística da realidade. Além dos meus hábitos, dos meus pensamentos; do meu ego. Ele vem para pulverizar o ego. O filme é um vômito”, radicaliza na análise o cineasta que confessa sentir “nojo” e “repulsa” por esses personagens jovens, bonitos, endinheirados e sórdidos.

É um filme que estimula essa reflexão de que o desenvolvimento urbanístico é um nivelador social necessário. A promiscuidade, no entanto, defende “A Frente Fria que a Chuva Traz”, se impõe reiteradamente nas relações sociais impedindo qualquer avanço concreto sobre as abstrações desse choque de classes constante no Brasil, como um todo, e no Rio de Janeiro, em particular.

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