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"Quanto Tempo o Tempo Tem", que estreia nesta quinta-feira (31) nos cinemas, propõe um olhar abrangente sobre nossa relação contemporânea com o tempo

Todo mundo já reclamou da falta de tempo, se maravilhou com a velocidade da informação nesses tempos de redes sociais e, naturalmente, se incomodou vez ou outra com aqueles indefectíveis sinais de envelhecimento. “Quanto Tempo o Tempo tem”, documentário que estreia nesta quinta-feira (31) em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Paraná, se propõe a refletir sobre todas essas problemáticas contemporâneas a partir de uma premissa muito simples: um olhar sobre o tempo.

O jornalista e cineasta Arnaldo Jabor é um dos entrevistados do filme
Divulgação
O jornalista e cineasta Arnaldo Jabor é um dos entrevistados do filme

A primeira providência dos diretores Adriana L. Dutra e Walter Carvalho é conceituar o tempo. “O grande estalo foi quando percebemos que era possível agir em benefício do futuro, no presente”, argumenta em uma de suas primeiras incursões o filósofo e escritor francês André Comte-Sponville . Dutra, que com sua voz reorienta a narrativa pelos muitos relativismos do tempo, ouviu jornalistas, físicos, teólogos, médicos, arquitetos, psiquiatras, religiosos, poetas e demais pensadores para construir um painel plural, vivo e extremamente reverberante do tempo e suas reminiscências.

Nossa relação com o tempo é, naturalmente, o que irriga a narrativa do filme. “As redes sociais permitiram que nos tornássemos contemporâneos de nossos contemporâneos”, observa Sponville. A necessidade de informação, de estar plenamente e constantemente conectado alterou não só nossa relação com o tempo, aquele produtivo, capitalista, advoga o especialista em cibercultura Erick Felinto , mas recodificou a própria noção da mais valia , provoca em outro momento o jornalista Arthur Dapieve .

“Quanto Tempo o Tempo tem” não é, de maneira alguma, um filme fácil, ainda que se desenvolva como uma bem-vinda leveza. É preciso estar interessado em participar daquele debate levantado pelo filme; em ponderar sobre as reflexões ensejadas. Neste sentido, apesar de aproximar-se de uma tese acadêmica, o filme se agiganta como cinema ao propiciar a seu espectador uma experiência francamente enriquecedora.

Os diretores Walter Carvalho e Adriana L. Dutra filmam na Central do Brasil, no Rio de Janeiro
Divulgação
Os diretores Walter Carvalho e Adriana L. Dutra filmam na Central do Brasil, no Rio de Janeiro

A tecnologia e a fantasia da imortalidade constituem um híbrido cada vez mais possível segundo uma corrente “utópica” da ciência, pontua o físico Marcelo Gleiser em certo momento. Naturalmente, o filme investiga essa bifurcação com curiosidade e ceticismo, mas permite o entusiasmo daqueles que compactuam com uma percepção de que precipitaremos mudanças ainda mais estruturais na nossa relação com o tempo.

Sem produzir respostas absolutas, mas pleno nas minúcias que oferta à audiência, “Quanto Tempo o Tempo Tem” é muito feliz em observar que a velocidade como as coisas fluem atualmente orienta a prudência de evitar assertividades quanto ao futuro. Afinal, estamos sempre vivendo o presente.


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