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Ao iG, cantora falou sobre suas experiências: "Nunca escrevi uma música sobre garotas com quem já namorei"

Halsey chegou para tocar no Lollapalooza longe dos holofotes. Aos 21 anos, a norte-americana era considerada aquecimento para nomes como Noel Gallagher , Florence + The Machine e Eminem , as verdadeiras estrelas do festival.

Halsey
Divulgação/Billboard/Miller Mobley
Halsey

Com uma base de fãs jovens - em sua maioria adolescentes e pré-adolescentes de cabelos coloridos -, ela subiu no palco na tarde de sábado para passar de coadjuvante para protagonista de um dos maiores festivais do mundo.

Halsey - um anagrama de seu nome verdadeiro Ashley Frangipane - não é uma grande estrela em nenhum lugar do mundo. Com apenas um EP e um álbum lançado, a jovem de Nova Jersey vem crescendo, desde 2014, em um cenário musical mais indie, conquistando fãs que buscam alternativas a Taylor Swift ou Beyoncé.

Engajada em causas sociais, Halsey canta sobre sua adolescência conturbada - aos 16 anos se apaixonou por um usuário de heroína -, sua bissexualidade, bipolaridade e relação com o racismo já que, apesar de ter passabilidade branca, tem pai e irmãos negros.

Ao iG , Halsey conversou sobre esses assuntos, além da relação que tem com seus fãs, que considera muito mais maduros e inteligentes do que a mídia acredita que adolescentes são.

Como foi tocar no Lollapalooza?

Foi insano. Eu chorei no palco e estavam transmitindo online e na TV, então agora os fãs tem fotos horrorosas minhas chorando e fazem piada comigo por causa delas. Eles me enviam coisas como “Quando a Halsey não vem para a Rússia” e minha foto chorando no Brasil, então acho que virei um meme.

Eu mal posso esperar para voltar ao Brasil, estou obcecada com a cultura daqui. Conheci artistas, músicos, pintores e tudo no Brasil é muito ímpar. Eu acabei de voltar da Europa e amo aquele lugar, mas nada na Europa me faz ter vontade de fazer música. Com três dias no Brasil eu fiquei doida para fazer música, estou muito inspirada.

Eu conheci esses dois artistas de grafiti hoje chamados Os Gêmeos e a arte deles é a coisa mais legal que já vi. Fui no estúdio deles e, quando estava indo embora, disse: “vocês não muito mais legais que eu, vocês são irados” e um deles disse que já foi pra cadeia, isso é muito legal. Fico pensando “nossa, o que eu estou fazendo? Não estou fazendo nada legal”. Eles me inspiraram muito, não a fazer grafiti, mas a fazer algo perigoso pela minha arte. Eles ligam tanto para a arte deles e estão dispostos a arriscar qualquer coisa e isso é muito inspirador. Preciso descobrir como fazer isso com a minha arte.


Você achou que teria a recepção que teve no festival?

Nem um pouco. Eu vi o quão tarde eles tinham me programado e fiquei surpresa, achei que seria colocada bem mais cedo. Aí vi que ia tocar na mesma hora que o Tame Impala e tinha certeza que ninguém iria me assistir. Então cheguei e tinha essa plateia imensa e pensei: “Estão esperando o Die Antwoord , estão esperando a Marina [And The Diamonds] , por outra pessoa, não é para mim”. Mas quando eu estava prestes a subir no palco, dava para ouvir umas 10 mil pessoas gritando meu nome e eu fiquei branca, surtei, era inacreditável!

Eu não tinha ideia do tamanho do público que teria. Poderia ser mil ou 10 mil, tanto faz. Então chegar e encontrar todas as pessoas cantando cada palavra de cada música me fez perceber que as pessoas de fato ligam. Elas não conhecem só aquela única música do rádio ou no Spotify. Elas me conhecem. E estar ali diante delas deixa de ser sobre falar português ou inglês. É sobre minhas músicas e sobre nós todos e isso tem um poder muito grande. É um mundo completamente novo para mim e mostra que não importa a cultura, a língua, de onde você é, se você é homem, mulher, branco ou negro.

Você esperava ter um público tão jovem tendo letras tão maduras?

Eu me surpreendi muito com isso quando o álbum saiu. Quando estávamos construindo meu projeto, sempre achamos que seria para um público mais velho. Mas estou feliz com isso porque quando você conquista fãs jovens, eles vão te amar para sempre. Eu ainda amo as bandas que amava aos 15 anos. Então se você tem 15 anos e me ama, eu espero que ainda me ame quando tiver 21 como eu. E essa é a época mais especial para se conquistar um fã, quando eles são adolescentes. Porque eles estão mudando, crescendo e sempre vão te associar com um período muito especial de suas vidas.

Fãs esperam show da Halsey
Reprodução/Facebook
Fãs esperam show da Halsey

Eu tenho tanta sorte, meus fãs são brilhantes. Eles são muito inteligentes e me impressionam todos os dias. Eles sabem tanto sobre política, feminismo, sexualidade e questões sociais. Talvez as pessoas tenham medo por eu ter um conteúdo mais maduro e os jovens talvez não entendessem, mas hoje em dia os jovens são muito inteligentes e eu amo isso.

Isso com certeza me fez pensar muito sobre mim enquanto um modelo. Na minha adolescência passei muito tempo com pessoas ruins. Meu EP “Room 93” é sobre um garoto por quem me apaixonei que usava drogas muito pesadas e esse é o tipo de pessoa com quem eu andava. Mas agora que eu tenho alguma influência, o mínimo que posso fazer é mostrar aos meus fãs que coisas assim podem arruinar suas vidas. Quisera eu ter alguém para me dizer aos 16 anos que namorar um cara viciado em heroína era uma péssima ideia.


Como foi se assumir bissexual?

Muitos países ao redor do mundo tem visões diferentes sobre a sexualidade. Então para mim era uma questão de “como eu posso ser eu mesma e ter orgulho de quem eu sou sem alienar meus fãs de outros lugares?”. E eu sou muito aberta sobre tudo em mim: minha sexualidade, minhas roupas, meu visual. Eu sou muito feliz de ser quem eu sou e não ter vergonha disso.

A primeira vez que percebi mesmo o impacto disso foi quando recebi uma mensagem de uma fã mulçumana que dizia “eu amo muito a sua música, mas tem coisas que você representa que vão contra a minha ideologia e da minha família e amigos”. Foi quando percebi que precisava encontrar um jeito de ser eu mesma, mas sem que os outros sintam que eles não podem gostar da minha música. Eu não quero que essa fã sinta que não pode gostar de mim por causa de sua religião, sua moral ou sua família. Eu preciso encontrar um jeito de incluir todo mundo, mas sem perder quem sou. Eu não quero que as pessoas sejam como eu, quero que elas sejam elas mesmas.


Você acha que artistas devem se assumir e se posicionar quanto a sua sexualidade?

Sem dúvidas. Um dos artistas com quem converso bastante é o Troye Sivan . Nós conversamos recentemente na Austrália e emos uma vivência bem diferente enquanto artistas LGBT. As pessoas sempre perguntam para mim: “mas você é mesmo bissexual? Você não está só querendo chamar atenção?”. E ninguém nunca pergunta para ele se ela é mesmo gay. A música dele está cheia de suas experiências e ele escreve sobre os homens por quem se apaixona. Mas eu nunca escrevi uma música sobre garotas com quem já namorei porque estava com medo. E meus fãs sabem e me perguntam por que e é difícil admitir que eu tinha medo. Mas o próximo álbum vai ser diferente. Eles me inspiram e eu não posso mais ter medo de escrever sobre quem sou porque meus fãs merecem músicas com as quais eles podem se relacionar.

Halsey fala sobre sua relação com suas origens: "Meu cabelo é a única coisa em mim que mostra minha cultura"
Reprodução/Instagram
Halsey fala sobre sua relação com suas origens: "Meu cabelo é a única coisa em mim que mostra minha cultura"

Como teria sido sua vida e sua carreira se você não tivesse passabilidade branca?

Honestamente teria sido praticamente impossível. O racismo é uma questão muito interessante quando se fala em outros países. Eu estava em Paris e a raça enquanto negros e brancos não é realmente um problema lá. Mas o racismo é algo muito real nos EUA. As pessoas estão literalmente morrendo por causa disso e eu tenho tentado fazer meus fãs de outros lugares entenderem isso.

Eu entendo quantas oportunidades tive por ter passabilidade branca. E a melhor coisa que posso fazer é tentar tornar o mundo um lugar melhor para os meus fãs e as pessoas que se espelham em mim e não têm o mesmo privilégio que tive.  

Meu irmão mais novo tem 10 anos e ele tem a pele bem mais escura que eu. Ele ama cantar, dançar e atuar e eu quero que seja tão fácil para ele, caso ele decida que é isso que ele quer fazer, como foi pra mim.

Ter passabilidade branca é tão estranho porque minha experiência com o racismo é muito diferente das pessoas com pele escura. Mas eu venho de uma família negra e o assunto é muito pessoal para mim porque afeta meu pai ou meu irmão. Então eu tenho sorte por ter passabilidade? Sim. Essa é uma coisa muito triste para se dizer? Muito.

Eu postei uma foto com o meu cabelo natural, eu tenho um cabelo bem cheio e cacheado e provavelmente é a única coisa em mim que mostra minha cultura, e alguns fãs responderam “você me faz querer usar meu cabelo natural”. Então eu posso representar uma pessoa de pele escura? Com certeza não. Mas eu posso representar e amar  minha cultura? Espero que sim. Apesar da passabilidade branca, eu ainda posso virar para alguém e dizer “ame seu cabelo, ame sua cultura, ame quem você é” porque isso é o que eu sou, é a minha aparência e não tem nada que eu possa fazer sobre isso.

Eu me fortaleço pelos meus fãs, pela minha carreira. Subir no palco é a minha terapia

Como foi descobrir e lidar com a bipolaridade?

Eu tinha 17 anos, mas obviamente me afetou por muitos anos antes de eu descobrir. Foi muito difícil para mim, acabei em um hospital por semanas no meu último ano do colégio e ninguém sabia onde eu estava. Mas de certa forma tenho sorte por isso ter acontecido naquela fase da minha vida porque eu não acho que teria virado uma artista se não fosse isso. Eu estava no hospital e pensava que não podia mais deixar pequenas coisas me abalarem, precisava descobrir quem eu era. Eu poderia ter nascido com diabetes, cega, surda, poderia ter sido qualquer coisa, mas foi isso que eu recebi. Então tenho que aprender a lidar com isso.

Às vezes é difícil quando se está na estrada. A pior coisa quando você tem algum distúrbio mental é ficar preso em sua própria cabeça. E quando você está em um ônibus de turnê, em aviões, sozinha em quartos de hotel, isso acontece muito. Mas eu me fortaleço pelos meus fãs, pela minha carreira. Subir no palco é a minha terapia. Quando eu acordo mal e estou tipo “Que se f*da, estou muito triste, muito depressiva, não quero fazer nada”, eu penso que tem 5 mil fãs ali me esperando e talvez eles estejam na mesma situação, talvez também estejam deprimidos. E eu preciso fazer isso. E isso é uma chacoalhada para que eu tente colocar os problemas dos outros antes dos meus.