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Episódio que revelou que franquia bilionária sabia de doença que acometia muitos ex-jogadores detonou escândalo sem precedentes no esporte. Filme dramatiza esses eventos

O começo de “Um Homem entre Gigantes” se preocupa em desenhar o doutor Bennet Omalu , personagem defendido com a habitual competência por Will Smith , como um homem incomum. Cuidadosamente excêntrico e saborosamente, para os propósitos cinematográficos, peculiar. Omahu é um homem da ciência, mas é também um homem religioso. Neuropatologista com múltiplas credenciais, trabalha como legista em um pequeno município. Fala com os mortos para desespero e chacota de alguns colegas de ofício e descarta as lâminas que utiliza deixando seu gestor à beira de um ataque de nervos.

Filme rememora episódio delicado da recente história da principal franquia esportiva dos EUA
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Filme rememora episódio delicado da recente história da principal franquia esportiva dos EUA

Omahu é um estrangeiro nos EUA. Um afrodescendente nos EUA e essa particularidade do personagem é algo que o filme, baseado em uma reportagem da revista GQ sobre o médico que desafiou a poderosa NFL (liga do futebol americano), valoriza.

O filme de Peter Landesman é muito claro em assumir o ponto de vista de seu protagonista. A Sony, estúdio por trás do filme, não mantém acordos comerciais com a NFL, tal como Disney e Warner, para citar dois exemplos. O que não evitou que houvesse níveis de atrito entre as duas gigantescas empresas.

O filme dramatiza eventos reais que ocorreram no início da década passada. Omalu descobriu uma grave lesão no cérebro vinculada aos constantes e violentos impactos sofridos pelos jogadores em suas cabeças. A NFL já sabia dessa doença, até então, inominada e esforçou-se nos bastidores para pôr toda a história para dormir. Embora o filme seja firme em assumir a perspectiva de Omalu nessa batalha, adota um tom mais suave no momento de abordar o achaque perpetrado pela NFL. Algo que os e-mails vazados da Sony por cyber terroristas no final de 2014 já indicava.

“Eles têm o domingo. O dia que costumava ser da igreja”, comenta Cyril Wecht , o chefe de Omalu defendido com gosto e garra por Albert Brooks , a seu subordinado que parecia ignorar o tamanho do tsunami em que se enfiara. E é dessa incômoda ambientação, mas também de Omalu se afastando de seu sonho americano, que “Um Homem entre Gigantes” se ocupa majoritariamente.

Will Smith em cena de
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Will Smith em cena de "Um Homem entre Gigantes": outro tipo de herói

Nesse sentido, o filme é um drama eficiente na linha de homens comuns contra grandes corporações, com algumas adições valiosas – como a curiosidade de ser um caso real que colocou uma das grandes franquias americanas sob o microscópio e dar a Will Smith a oportunidade de construir outro tipo de herói no cinema.