
A PACE é uma marca brasileira que estreia na passarela após quase uma década de construção consistente — e escolheu fazer isso com a Shiseido assinando a beleza. Não como patrocinadora decorativa, mas como parceira de linguagem. A marca de beleza japonesa, fundada em 1872, carrega um histórico de conectar precisão técnica com expressão cultural. Nesse desfile, essa proposta se materializou de forma bastante concreta.
O maquiador Jonatan Gaio trabalhou a partir de um eixo conceitual claro: a ideia de intersecções. As referências declaradas transitam por animê, grunge dos anos 90 e a disciplina visual do street style japonês — universos aparentemente distantes, mas que compartilham uma estética de precisão, de detalhe levado a sério. O desafio técnico era exatamente esse: criar uma linguagem de beleza que evocasse essas referências sem ilustrá-las literalmente. Sem olho delineado de mangá, sem sujeira performática de grunge. A síntese, não o pastiche.
O resultado foi uma pele trabalhada com precisão e técnica. Os produtos utilizados — RevitalEssence Skin Glow Foundation SPF 30, Synchro Skin Invisible Silk Loose Powder, Synchro Skin Self-Refreshing Concealer, Crystal Gel Gloss e WASO Calmellia Multi Relief SOS Balm — formam uma lista coerente. Cada produto é intencional para trazer o melhor da pele de cada modelo, potencializando a individualidade de cada um. Nenhum produto ali é decorativo. Cada escolha responde a uma pergunta técnica específica: como manter a pele presente sem disputar protagonismo com peças de alfaiataria e couro de alto impacto visual?

“Existe uma conexão muito natural entre o universo da PACE e a Shiseido. A gente fala sobre passado e futuro ao mesmo tempo, sobre precisão, identidade e construção de linguagem. Ter a Shiseido com a gente nesse momento reforça muito essa visão”, diz Felipe Matayoshi, Fundador e Diretor Criativo PACE.
Isso tem nome: beleza de suporte conceitual. A função não é embelezar no sentido convencional — é completar a silhueta, estender o argumento visual da coleção até o rosto de quem desfila. É uma abordagem que exige tanto domínio técnico quanto leitura editorial. Um trabalho que a equipe de maquiagem de Shiseido executa com maestria.
“Desde 1872, a Shiseido conecta beleza, arte e inovação. Encontramos na PACE uma afinidade genuína com essa visão, transformando referências culturais em expressão contemporânea e reforçando nosso compromisso com a criatividade e a cultura”diz João Valentim, Diretor do Grupo Shiseido.

No contexto da moda masculina brasileira, esse tipo de articulação ainda é raro. A beleza masculina em passarela local tende a operar em dois extremos: ou é tratada como etapa de higienização — pele uniformizada, olheiras cobertas, nada mais — ou aparece como provocação. O que a PACE e a Shiseido demonstraram é que existe um caminho consistente no centro: técnica refinada orientada por referência cultural precisa, a serviço de uma narrativa maior.
Quando a cultura e a história estão embebidas na reverência, observamos resultados primorosos como o desse desfile, que criam desejo não apenas pelas peças apresentadas, mas pelo caminho cosmetológico para alcançar a beleza apresentada nos modelos.
Luiz Cantú é doutor em Bioquímica, maquiador, especialista em maquiagem drag e consultor de marcas de beleza. Colunista de beleza do Portal IG. Traduz ciência em beleza para todos — e ninguém deve ficar de fora dessa conversa.
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