
A televisão brasileira sempre teve orgulho de sua história, e faz bem em preservá-la. O problema começa quando a memória deixa de ser um capítulo e passa a ocupar o livro inteiro. A reaparição de Faustão, os especiais comemorativos, os resgates de programas clássicos e as homenagens sucessivas aos grandes nomes da TV emocionam o público, mas também revelam uma inquietação: a televisão parece cada vez mais confortável em revisitar o próprio passado do que em apostar no futuro.
Não faltam talentos nem recursos. O que parece faltar é coragem. Criar um novo formato exige risco. Descobrir um novo comunicador exige paciência. Lançar um programa inédito exige aceitar que ele pode fracassar antes de encontrar seu público.
Em tempos de competição feroz com as plataformas digitais, muitas emissoras preferem recorrer à lembrança afetiva, porque a memória já vem aprovada pelo telespectador. É uma estratégia segura, mas também perigosamente acomodada.
O paradoxo é que a própria televisão brasileira construiu sua grandeza justamente quando ousou. Chacrinha não imitava ninguém. Silvio Santos inventou um jeito próprio de fazer auditório. Hebe transformou entrevistas em conversa de sala de estar. Faustão criou um domingo que só existia porque ele existia. Nenhum deles nasceu de uma homenagem. Todos nasceram da disposição de romper padrões e criar linguagens novas.
Talvez esteja na hora de a televisão lembrar da lição mais importante que o seu passado ensina: ele só se tornou memorável porque alguém, um dia, decidiu parar de olhar para trás. O público continuará se emocionando ao rever seus ídolos, mas também espera conhecer novos.
Uma emissora que vive apenas de celebrar sua história corre o risco de descobrir, tarde demais, que começou a trocar audiência por saudade. E saudade, por mais bonita que seja, nunca produziu o próximo grande capítulo da televisão.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG