Alessandro Lo-Bianco

Querem o artista no palco, desde que ele não fale de política

O caso de Luísa Sonza é uma contradição: a sociedade transforma artistas em formadores de opinião, mas, dependendo, pode ser intolerável à opinião

Luísa Sonza
Foto: Reprodução/Instagram/luisasonza
Luísa Sonza

É assim que sociedade enxerga os artistas: podem emocionar multidões, vender produtos, influenciar comportamentos e ditar tendências, desde que não ultrapassem o que os outros não querem. Quando cantam, são celebridades. Quando manifestam uma posição política, passam a ser tratados como se tivessem cometido uma transgressão.

E assim surge a controvérsia envolvendo Luísa Sonza, após uma manifestação de apoio a Lula durante um show. Acredite: o episódio resultou numa ação que foi extinta pelo Tribunal Superior Eleitoral.

O incômodo com a manifestação de uma celebridade vai além da preferência partidária. Existe a expectativa de que figuras públicas permaneçam dentro do papel que lhes foi atribuído. O público deseja a emoção, a diversão e o prestígio que elas oferecem, mas nem sempre aceita que tenham convicções próprias.

É uma forma de consumo que pretende adquirir não apenas a obra, mas também o silêncio de quem a produz. Quando esse silêncio é rompido, a indignação aparece como se expressar uma opinião política anulasse o talento ou representasse uma ofensa pessoal. O artista deixa de ser percebido como cidadão e passa a ser cobrado como propriedade de sua audiência.

Numa democracia, a liberdade de expressão não pode depender da aprovação do público, da conveniência de patrocinadores ou da simpatia de quem ocupa o poder. Quando uma manifestação de apoio a um candidato se transforma em motivo para buscar consequências judiciais, é preciso perguntar se existe uma infração efetiva ou se a intolerância está sendo deslocada para os tribunais.

O episódio desmonta uma ilusão: a de que a cultura pode existir separada da sociedade que a produz. Um palco não suspende a cidadania de quem está sobre ele, assim como um microfone não transforma uma opinião em verdade absoluta. O público pode discordar de Luísa Sonza, criticar sua posição ou deixar de acompanhar seu trabalho. O que não pode exigir é que ela renuncie à própria cidadania para continuar merecendo aplausos.

Se queremos artistas livres para cantar sobre amor, injustiça e sofrimento, precisamos aceitar que também falem de poder. Caso contrário, estaremos exigindo que a arte entretenha a sociedade sem jamais incomodá-la.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG