
Mais de três décadas depois de transformar seus próprios diários em um fenômeno nacional, Maria Mariana, 53 anos, se reencontra com a adolescente que escreveu "Confissões de Adolescente".
O livro, que chega a uma nova edição pela Maquinaria Editorial, ganha prefácio inédito da autora e textos de Patrícia Perrone, Carol Machado e Ingrid Guimarães, integrantes da montagem original. O lançamento está previsto para 31 de agosto.
Escritos por Maria Mariana desde os nove anos, por incentivo do pai, o cineasta Domingos Oliveira , os diários deram origem primeiro à peça, que estreou em 8 de março de 1992, no porão do Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro. Posteriormente, a obra chegou à televisão e ultrapassou a marca de 250 mil exemplares vendidos na década de 90.
Agora, na nova edição, a autora, formada em Psicologia e mãe de quatro filhos, revisita a jovem que estava na primeira edição . No entanto, para ela, o reencontro não representa apenas uma volta ao passado.
“Ver a reedição do livro chegar, depois de 34 anos, abrindo caminhos para o projeto ‘Confissões de Adolescente’, trazendo uma nova mensagem mais aprofundada sobre o diálogo entre gerações, tem sido mais do que olhar para aquela Mari aos 18 anos”, destaca.
“ Tenho percorrido com ela todo o meu desenvolvimento como artista, pessoa e mulher . É um presente que estou recebendo da vida. Uma oportunidade de integração que tem feito muito sentido para o meu momento atual”, afirma.
A percepção de que suas experiências pessoais também dialogavam com uma geração inteira surgiu ainda na estreia da peça.
Impactante para diversas gerações, a obra abordava temas como primeiro beijo, primeira relação sexual, drogas, conflitos familiares e o contato com a morte . Ao rever todos esses acontecimentos, a autora acredita que algumas das questões consideradas tabus naquela época já deixaram de ocupar o mesmo lugar.
“Sim, na época tocamos em muitos assuntos que eram tabus na sociedade e que hoje em dia não são mais . Olhando com mais distanciamento agora, vejo que o grande escândalo foi a relação de confiança que tive com meu pai ao confessar minha intimidade, e isso é algo que ainda é tabu”, destaca. “É escandaloso hoje construir um vínculo profundo com alguém a quem se possa confessar o inconfessável, mais ainda se essa pessoa for o pai ou a mãe”, acrescenta.
Assim como outros momentos marcantes, a maternidade transformou a maneira como Maria Mariana olha para a adolescência hoje. Mãe de quatro filhos, ela conta que cada nova fase vivida pelos filhos também a faz revisitar momentos de sua própria trajetória, mesmo depois de tantos anos.
“Quando a primeira filha nasceu, nasceu também um lugar dentro de mim que mudou minha compreensão a respeito de tudo. Filho é como joguinho de computador: quando a gente aprende a ganhar naquela fase, passa para outra e você volta a não saber nada outra vez... É uma oportunidade de evolução imperdível”, compara.

Hoje, ela entende que acompanhar o crescimento dos filhos também foi uma forma de acolher a própria história . “A cada fase deles, eu revivi a minha, me melhorando e acolhendo a minha criança e adolescente também. Sou fã da maternidade, é uma grande chance de autoconhecimento”, pontua.
Mesmo com as dificuldades da maternidade e da vida em geral, a atriz não acredita que exista uma fórmula única para educar os filhos. “Uma frase que todos os pais repetem é que não tem receita de bolo, e não tem mesmo. Por isso, não é possível definir o que é certo ou errado. Cada mãe e pai só educa com o que recebeu”, reflete.
Em sua visão, a maternidade é uma construção contínua, que está sempre em mutação. “Ser mãe é algo em movimento, é uma construção para sempre a dois, entre mãe e filho”, acrescenta.
Adolescentes dos anos 90 X adolescente de hoje
Maria Mariana viveu sua adolescência antes de a internet, as redes sociais e os smartphones tomarem conta do dia a dia das pessoas. Hoje, portanto, ela acompanha de perto a experiência de um adolescente inserido nesse universo.
Mesmo assim, para a autora, a comparação entre as gerações não deve buscar definir qual delas é melhor. “Digo que eu fui a primeira influencer que viralizou, mesmo sem existir ainda a internet. A geração da atualidade tem muito a aprender com a geração dos anos 90 e vice-versa”, acrescenta.
“Trabalhamos nessa reedição do livro para trazer a primeira edição em sua essência, justamente para que ele seja como uma máquina do tempo e os adolescentes de hoje possam, por si mesmos, refletir sobre as maiores diferenças, perdas e ganhos”, diz.
Apesar das transformações, para Maria, algumas questões permanecem. “Com certeza, os adolescentes mudaram muito e precisam se lembrar do que nunca mudará, do que é eterno na adolescência. Aí entra o olhar da psicóloga e mãe de quatro, sempre na investigação para entender o que eles realmente estão precisando”, afirma.
Sucesso
Ainda que seja o sonho de muitas pessoas, a atriz admite que o sucesso também trouxe uma marca que a acompanha . Ela confessa que ocupar o lugar de referência para tantos adolescentes foi pesado no começo, mas também contribuiu para seu amadurecimento.
“Com certeza foi um lugar pesado para a adolescente que fui, mas também me fortaleceu e amadureceu. A minha biografia e a biografia do projeto ‘Confissões de Adolescente’ se atravessaram e continuam se atravessando”, conta.
No entanto, atualmente, Maria Mariana encara isso com orgulho . “Por mais que eu faça outras coisas tão grandes quanto no futuro, serei sempre Maria Mariana de ‘Confissões de Adolescente’, com muita honra", confirma.
O reencontro com o livro, portanto, não significa uma tentativa de corrigir a adolescente que ela foi, mas sim acolher aquela versão de si mesma. “Estou acolhendo minha menina do jeito que ela é, com todas as fragilidades e forças. Ela está bem perto de mim, me dando coragem e alegria para reviver isso tudo", revela.
A nova edição recupera a apresentação original de Domingos Oliveira e reúne textos de Patrícia Perrone, Carol Machado e Ingrid Guimarães, que participaram da montagem teatral original. As atrizes revisitam suas próprias adolescências e o início de suas trajetórias artísticas.
“Acho que todas nós estamos muito emocionadas com tudo o que está acontecendo com essa reedição do livro. Estamos nos reencontrando, lembrando das nossas essências e refletindo sobre o tempo que passou”, diz Maria.
A autora acredita que o retorno de “Confissões de Adolescente” responde a uma necessidade que permanece atual para essa geração: aproximar jovens e adultos por meio do diálogo.
“Percebo que o projeto está respondendo a um chamado, como foi nos anos 90. Tudo aconteceu de forma espontânea, como está acontecendo agora. A missão de ‘Confissões’ sempre foi dar lugar de fala aos adolescentes, aproximar pais e filhos, e agora sinto que a mensagem do livro cresceu com o tempo e vem aprofundando a mesma missão, com a reflexão sobre o tempo e o diálogo entre gerações”, conclui.