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A brasileiríssima da Netflix é muito boa, mas por que a crítica torceu o nariz? Aviso de spoiler: Não foi falta de mérito, não foi figurino e nem atuação ruim.

A primeira série brasileira produzida e exibida pela Netflix, "3%", teve sua primeira temporada liberada no serviço de streaming na última semana. Os oito episódios da série são inteiramente em português, com dublagem e legendas em inglês e em espanhol.

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A realização em si de " 3%" já é um largo passo dado pela produção audiovisual nacional. Também, a escolha de investir em uma produção inteira em língua portuguesa, com atores brasileiros, no Brasil, diretor e elenco brasileiros , por mais que pareça óbvia ou corriqueira, é essencial para avivar o apreço pela cultura nacional. E a opção da Netflix por apostar no conteúdo brasileiro reafirma o País como ponto estratégico para a plataforma de streaming.

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A série brasileira 3% mais acerta que erra
Divulgação/Netflix
A série brasileira 3% mais acerta que erra

É de fundamental importância investir em produções nacionais. Quanto mais se tem, mais se faz. Séries, filmes e desenhos animados brasileiros cada vez mais desbravam maneiras diferentes de fazer audiovisual, esbanjando criatividade e brasilidade em suas formas de comunicar o que se quer comunicar.

Entretanto, estamos tão contaminados por um tipo específico de narrativa e de linguagem cinematográfica que, o que diverge de tal forma de fazer cinema, é considerado fraco, ruim, pobre. Se as revelações da série não forem feitas em meio a explosões e caminhões capotando, à la Michael Bay, são consideradas anticlímax e entediantes. Tal concepção reforça a ideia de que só há uma única forma de contar histórias; discurso essencialmente prejudicial à arte como um todo.

Quanto as atuações, tão duramente criticadas, apontadas como tenebrosas, imperdoáveis, não são além de humanas. Esperam níveis de emoção e expressão sobrenaturais em séries e filmes e, a partir do momento que essa expectativa não é suprida, condenam os atores: "sofrível". Mas uma representação natural, simples e, sobretudo, que foge do dramalhão hollywoodiano é perfeitamente aceitável, por mais que seja difícil de digerir devido aos anos e anos de cinema norte-americano na Sessão da Tarde.

Cena da série brasileira 3%
Divulgação
Cena da série brasileira 3%

Um fator especialmente interessante em "3%" é a humanização das personagens. Estereótipos saem de cena, dando lugar a uma profunda construção das personalidades: não existe vilão ou mocinho. A narrativa compreende a complexidade de nosso mundo de maneira sublime. Nesse quesito, a série dá de 10 a 0 em distopias juvenis como "Jogos Vorazes" e "Divergente", com os quais foi muito comparada devido ao tema comum.

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A produção não é perfeita, mas tudo bem. Apresenta mais acertos do que erros. Com um roteiro instigante, daqueles de se devorar em uma tarde, fica ao final o gancho para a próxima temporada, já ansiada pelos fãs da série.

Apesar de todos os pontos fortes e a evidente importancia de "3%" para a produção audiovisual brasileira, a crítica foi, no geral, dura e desproporcional. Talvez, deva-se refletir sobre a maneira como se assiste televisão no país e colocar em xeque algumas concepções pré-estabelecidas antes de nos voltarmos para a análise da produção nacional.

O mote

Em uma mistura de "Jogos Vorazes" e "Black Mirror", a narrativa se desenrola em um futuro distópico, onde a cisão da sociedade em classes é bastante clara: o Lado de Cá e o Lado de Lá. O Lado de Lá é o Maralto, uma ilha de abundância e progresso, onde não existe dinheiro ou criminalidade. O Lado de Cá, no continente, é devastado pela miséria. A única maneira de ir para o Maralto é passando pelo Processo.

O ator João Miguel em cena da série 3%
Divulgação
O ator João Miguel em cena da série 3%

Todo jovem de 20 anos pode se inscrever para participar no Processo, mas apenas 3% dos inscritos passam. Os candidatos passam por uma série de provas, físicas e psicológicas, das quais nem sempre saem com vida. Sob um discurso meritocrático, alimenta-se nesta sociedade uma intensa fé no Processo. Mas nem todos compram essa ideia.

A Causa é um grupo revolucionário que vê no Processo um sistema injusto e busca destruir a divisão social entre Lado de Lá e Lado de Cá, lutando pela igualdade entre as classes. A facção é brutalmente reprimida pelo Maralto e este conflito é pano de fundo para 3%.

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