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Em entrevista exclusiva ao iG, Manuela Dias fala sobre inspirações e influências para a minissérie de sucesso da Globo, comenta sua carreira de escritora e aborda a possibilidade de escrever uma novela no futuro

A série “Justiça” está em sua reta final. Em alta na Globo, o programa já é um dos maiores sucessos da televisão no ano. A série teve ótima repercussão e prendeu o telespectador com histórias fortes e interligadas. O próprio formato narrativo da minissérie já chamou a atenção e cativou os espectadores. Manuela Dias , a autora da minissérie, voou alto em seu segundo trabalho solo na TV.

Bons personagens, ousadia narrativa e dilemas garantem atratividade de “Justiça”

A autora Manuela Dias:
Globo/João Miguel Júnior
A autora Manuela Dias: "O coração segue um ritmo involuntário, não existem mecanismos teóricos ou acadêmicos para fazer com que o fluxo cardíaco de uma história seja intenso"

 No entanto, Manuela Dias já possui uma extensa carreira como dramaturga e escritora, que se estende para bem antes de “Justiça”. Ela escreveu sua primeira minissérie própria no primeiro semestre deste ano. “Ligações Perigosas”, baseada no romance de Choderlos de Laclos, trabalho elogiado pela crítica e pelo público. No cinema, adaptou “Macbeth”, de William Shakespeare, para o roteiro de “ A Floresta que se Move” , de Vinícius Coimbra, protagonizado por Gabriel Braga Nunes e Ana Paula Arósio. Além disso, também escreveu os roteiros de “Deserto Feliz” de Paulo Caldas, “Matraga” de Vinícius Coimbra, “Transeunte” de Eryk Rocha, “O Céu Sobre Os Ombros” de Sérgio Borges e “Love Film Festival”, da própria autora. Além disso, escreveu três peças de teatro e trabalhou como colaboradora em novelas como “Cordel Encantado” (2011) e “Joia Rara” (2013).

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Jesuíta Barbosa, Adriana Esteves, Jéssica Ellen e Cauã Reymond. Protagonistas da minissérie 'Justiça'
Divulgação
Jesuíta Barbosa, Adriana Esteves, Jéssica Ellen e Cauã Reymond. Protagonistas da minissérie 'Justiça'

Apesar de “Justiça” ser considerada muito inovadora e ousada para os padrões da TV, Manuela acredita que o meio é um espaço natural para a inovação e experimentação. “Estou inserida dentro de um contexto de produção de dramaturgia que historicamente inovou e testou os limites para contar histórias na TV. A primeira versão do ‘O Rebu’ é de 1974, imagina isso: uma novela que se passa toda em uma noite há mais de 40 anos”, afirma a autora em entrevista exclusiva ao iG .  

Manuela conta que estava mais preocupada com a verosimilhança das tramas do que com aspectos jurídicos de fato. A escritora, que foi aluna de Gabriel Garcia Marques (“Amor nos Tempo do Cólera”, “Cem Anos de Solidão”), fala que aprendeu que a emoção é o elemento mais poderoso de uma história: “Aprendi com ele [Gabriel Garcia Marques] a não ter paciência com histórias que não fazem meu coração bater”.

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Ainda na entrevista, ela conta outros detalhes de “Justiça”, fala sobre a possibilidade de escrever uma novela e sobre seu estilo como autora.

Confira a íntegra da entrevista com Manuela Dias:  

De onde surgiu a inspiração para “Justiça”?

O embrião da ideia, a ânima do projeto, foi um caso real. A moça que trabalhava na minha casa me pediu ajuda para tirar o marido dela da cadeia. Ele estava preso por ter matado o cachorro do vizinho que invadia o terreno dele e matava suas galinhas e patos. Na hora me deu um estalo sobre a questão da Justiça, essa dimensão pessoal das leis. As leis atuam na nossa intimidade. O marido preso deixou a cama dela vazia. É aí que está a força da questão, na cama vazia. Daí nasceu a minissérie.

Como foi o processo de pesquisa para escrever a minissérie? Houve preocupação com os aspectos jurídicos?

Houve uma preocupação maior com a verossimilhança do que com a verdade jurídica. A cena, por exemplo, em que os quatro personagens presos ficam numa mesma sala não aconteceria segundo os procedimentos legais, mas era uma imagem muito importante para abrirmos mão, já que não fere a verossimilhança.

Patricia Pillar e Selton Mello na série
Globo/Caiuá Franco
Patricia Pillar e Selton Mello na série "Ligações Perigosas", de Manuela Dias

Como veio a ideia de fazer a trama com histórias intercaladas e paralelas?

A ideia do formato nasceu junto com a ideia das histórias. Queria potencializar as pessoas comuns com as quais cruzamos diariamente. Todos vivem dramas profundos apesar de, do nosso ponto de vista, estarem apenas atendendo no caixa do supermercado ou trabalhando como garçons de um bar. ‘Justiça’ tem uma forma narrativa que restitui o relevo da paisagem humana da urbes. As histórias são contadas com uma narrativa linear e elas se cruzam por comungarem de uma mesma cidade.

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Qual personagem surgiu primeiro? Já tinha os conflitos em mente?

A história da Fátima foi a primeira, mas era o marido quem matava o cachorro. Na troca com o Zé Luiz Villamarim (diretor artístico da minissérie), alterei o protagonista do marido pelo da mãe.

Quais foram suas inspirações para compor a estrutura narrativa da minissérie?

Histórias interligadas espacialmente ou uma história explorada de vários pontos de vista é uma estrutura narrativa que existe há muito tempo, inclusive na literatura. O escritor japonês Akutagawa, por exemplo, autor de “Dentro de um bosque” explora diferentes versões para o assassinato de um samurai. Isso na década de 1930. Kurosawa se inspirou nesse conto para fazer 'Rashomon'.

Cena do filme
Divulgação
Cena do filme "A Floresta Que Se Move", que marca o retorno de Ana Paula Arósio às telas. O roteiro é de Manuela Dias

No cinema temos muitos exemplos como “Babel” e “Amores Brutos”. Isso porque os elementos tempo e espaço são fundamentais para qualquer narrativa. Não à toa os contos clássicos começam com “Era uma vez num reino muito distante, muito tempo atrás...” O espaço é um elemento tão estrutural da narrativa que se torna um personagem que pode inclusive servir como antagonista como, por exemplo, um personagem tem que atravessar um deserto – o deserto se torna um espaço-personagem. O tempo então é talvez o elemento mais fundamental de qualquer narrativa.

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Por exemplo, todos sabemos que vamos morrer mas não sabemos quando. Por isso o diagnóstico de uma doença é tão dramático, porque insere uma contagem regressiva no tempo daquela vida.  

A minissérie tem feito muito sucesso e se destacado como um dos principais produtos da dramaturgia da Globo. Em um momento em que se confronta ousadia e tradição no modo de se produzir TV, você esperava essa repercussão tão positiva?

A experiência que eu tive não colocou tradição e ousadia em confronto, pelo contrário, contei com toda experiência da tradição, por exemplo, na troca de ideias com o Silvio de Abreu, para arriscar essa inovação.  Estou inserida dentro de um contexto de produção de dramaturgia que historicamente inovou e testou os limites para contar histórias na TV.

A primeira versão do ‘O Rebu’ é de 1974, imagina isso: uma novela que se passa toda em uma noite há mais de 40 anos. ‘Você Decide’, ‘Linha Direta’, ‘Por Toda Minha Vida’, novelas como ‘Que Rei Sou Eu’, ‘Cordel Encantado’, enfim… A TV é um espaço aberto e ávido por inovação.

Você fez sua estreia solo como autora no início deste ano com “Ligações Perigosas”. Quais foram as lições que você aprendeu fazendo este trabalho? O que você aplicou deste aprendizado em “Justiça”?

Trabalho escrevendo histórias há 20 anos e vivo em busca de qualquer lição que possa construir meu olhar e servir de aprendizado. Até o ‘Ligações Perigosas’, eu tinha trabalhado como colaboradora na Globo, mas sempre tive um trabalho autoral fora da emissora, com teatro e cinema.

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Escrevi três peças encenadas, fiz o roteiro de seis longas – ‘Deserto Feliz’ de Paulo Caldas, ‘Matraga’ de Vinícius Coimbra, ‘A Floresta Que Se Move’ de Vinícius Coimbra, ‘Transeunte’ de Eryk Rocha, ‘O Céu Sobre Os Ombros’ de Sérgio Borges e ‘Love Film Festival’, um filme que eu escrevi, dirigi, produzi e montei; além de ter feito a montagem de ‘Sólo Dios Sabe’, uma produção México-Estados Unidos. Ou seja, eu já tinha a experiência do enunciado autoral e era uma questão de tempo, dedicação e oportunidade para que esse espaço da autoralidade invadisse meu trabalho na Globo.

Cauã Reymond e Marjorie Estiano em
Globo/Estevam Avellar
Cauã Reymond e Marjorie Estiano em "Justiça". Cada dia da minissérie conta uma história diferente

Quais as principais diferenças entre “Ligações” e “Justiça”, do ponto de vista da criação?

 Eu diria que esses dois programas têm todas as diferenças. A única coisa que esses projetos têm em comum sou eu. O ‘Ligações’ é a adaptação de um clássico que exige toda aquela reverência que nos leva a ler diversas traduções, pesquisar a vida do autor, o momento histórico de produção da obra, as críticas e estudos escritos sobre a obra… Tudo isso para no final dar aquela pitada de “desrespeito” que nos dá a liberdade para meter a mão na massa e fazer nosso próprio bolo.

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Adaptar é quase um processo digestivo. Pegar aquele grande pedaço de texto e identificar e decompor em partículas pequenas o suficiente para compor uma nova estrutura. Criar uma obra original é diferente, a cabeça está condenada a total liberdade, as ideias podem vir de qualquer lugar. Cada processo tem seus gatilhos e seus entraves, os dois me instigam.

Você estreou com duas minisséries. Qual você acredita ser o espaço deste tipo de produto na dramaturgia nacional atualmente? Acha que elas abrem mais espaço para experimentação do que as novelas?

Pela duração menor das minisséries a questão da formalização se torna menos cansativa do que num formato de longa duração. Acho que o formato curto suporta um exercício maior de roteiro, no sentido formalista da coisa. O folhetim é uma forma muito apurada de se narrar. Minissérie é um namoro, novela é casamento. Assim como no relacionamento a dois, manter o interesse alerta é muito mais difícil ao longo de 180 capítulos do que de 20. Cada um desses formatos oferece seus benefícios e desafios.

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Duquesa Úrsula (Débora Bloch). A a grande vilã de
TV Globo
Duquesa Úrsula (Débora Bloch). A a grande vilã de "Cordel Encantado", novela na qual Manuela foi colaboradora. Débora Bloch também integra o elenco de "Justiça", como Elisa

Tem vontade ou algum projeto em vista para escrever uma novela? O que você acha da faixa das 23h?

Cada horário tem seu desafio, escrever uma novela das seis, das sete, das nove ou das onze são tarefas completamente distintas. O público, o que as pessoas estão fazendo em casa naquele momento (jantando, chegando do trabalho, indo dormir), com quem costuma-se ver televisão em cada horário – tudo influencia na apreciação da teledramaturgia. Acho interessante imaginar essa interação da vida real com a história sendo contada.

Você foi aluna de Gabriel Garcia Marques. Quais as principais lições que você tirou dele?

Gabo era uma pessoa realizada na vida e na arte. Quando fui sua aluna ele tinha 80 anos e a noção clara de que não existe tempo para ser desperdiçado na vida. Aprendi com ele a não ter paciência com histórias que não fazem meu coração bater.

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Você chegou a dizer que mais importante do que o fato de as pessoas entenderem uma história, é elas sentirem uma história. Quais mecanismos como autora você utiliza para provocar este efeito os espectadores?

O coração segue um ritmo involuntário, não existem mecanismos teóricos ou acadêmicos para fazer com que o fluxo cardíaco de uma história seja intenso. Nos filmes de ação o que se faz é criar uma narrativa frenética, mas emocionar não tem a ver com isso. Então, não sei te dizer o que eu “faço” exatamente, mas sou intransigente com meu próprio texto, quando não me emociono não serve.