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Autor fala da inspiração para "Êta Mundo Bom", o boom de "Verdades Secretas" e a repercussão de "Amor à Vida" na América Latina

Walcyr Carrasco se tornou uma espécie de "Midas" da Globo. O autor conseguiu fazer sucesso em todos os horários de novelas da emissora - 18h, 19h, 21h e 23h. Ao participar do seminário XI Seminário Internacional Obitel para falar da (Re)Invenção de Gêneros e Formatos da Ficção Televisiva, na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, ele comentou o êxito de tramas como "Êta Mundo Bom", "Verdades Secretas" e "Amor à Vida", seus três últimos trabalhos na emissora.

Felix Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) deram o tão esperado beijo no final de 'Amor à Vida'
Reprodução
Felix Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) deram o tão esperado beijo no final de 'Amor à Vida'



"Tenho livros infantis, adultos, peças para os dois públicos e novelas. As ideias que eu tenho já surgem para o formato e horário, se for o caso da TV.  Eu sinto, não é planejado.  'Amor à Vida' foi a única (exceção), eu queria muito escrever para as 21h e fazer algo contra o politicamente correto. Se você coloca uma bicha na novela ela tem que ser boa, a mesma coisa o negro, se ele for mal o autor é acusado de racista.  As pessoas são boas ou más independente da cor ou orientação sexual,  o mundo é assim", defende Walcyr Carrasco .

"Amor à Vida", que entrou para a história da teledramaturgia por exibir o primeiro beijo gay de uma novela brasileira, tem feito sucesso em países da América Latina como Uruguai e Chile - onde se chama "Rastros da Mentira". "A novela tratou da homofobia do pai pelo filho, que é muito pouco falada no Brasil, e da homofobia a si próprio, da pessoa que não se aceita e é ruim com o mundo. Isso é muito comum na sociedade brasileira e talvez latina.  Pela lei qualquer casal gay pode se beijar na rua, mas ninguém tem coragem porque pode ser agredido".

Walcyr Carrasco
Paulo Belote / TV Globo
Walcyr Carrasco

O retorno foi positivo, orgulha-se. "Recebi inúmeras mensagens de gays que tiveram coragem de conversar com os pais por causa da novela. Percebi que a novela estava acontecendo por conta desse retorno. Isso me deixa muito feliz".

"Verdades Secretas"

Já na trama das 23h que escreveu ano passado, Walcyr percebeu algo curioso ao abordar o "book rosa" - catálogo de modelos de agência que fazem programa.  Os donos de agência foram à imprensa me atacar, mas este ano mais mães levaram as filhas para ser modelo.  Não sei se a novela foi educativa ou se fez mais mães quererem ficar ricas", diverte-se. 

O triângulo amoroso entre Angel ( Camila Queiroz ), Alex ( Rodrigo Lombardi ) e Carolina ( Drica Moraes ) caiu no gosto do telespectador. "A reação popular foi ótima, mesmo sendo exibida à meia-noite em alguns dias, era a maior audiência do dia na Globo. O público ficou hipnotizado", vibra.

"Êta Mundo Bom"

Seu sucesso mais recente foi "Êta Mundo Bom" - a maior audiência das 18h dos últimos 9 anos. "Eu resgatei minha memória afetiva e o humor daquela época, feliz de saber que ele ainda está presente. Quando criança no interior de São Paulo meus pais me levavam ao cinema praticamente todos os dias. Lembro das chanchadas da Atlântida, de Mazzaropi , e li 'Cândido' muito cedo", enumera.

Êta Mundo Bom fez grande sucesso às 18h
João Cotta/Globo
Êta Mundo Bom fez grande sucesso às 18h


"Êta Mundo Bom não trouxe nada de novo, mas elevou o melodrama ao máximo, tinha um tom mais teatral. O novo não é necessariamente bom. Resgatamos o melodrama clássico, o novo pode ser uma releitura", afirma, ao ser questionado sobre a falta de inovações na trama.

Ele acredita que não haja uma fórmula para prender o telespectador em frente à TV. "Não acredito em teorias de sucesso, a mesma história contada por outra pessoa pode não dar certo. Mas eu tenho predileção pelo excluído da sociedade que vive uma história de superação. Meu primeiro sucesso, por exemplo, foi "Xica da Silva", escrava que ao tomar o poder se vinga da sociedade branca", recorda.