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Em "Decadência", Erom Cordeiro e Aline Fanju expõem diferenças sociais. "Em vários pontos somos muito reacionários", analisa Erom Cordeiro

Erom Cordeiro e Aline Fanju se desdobram em dois personagens cada na peça "Decadência", em cartaz no Teatro de Arena do Espaço Sesc em Copacabana, no Rio de Janeiro de quarta (24) até domingo (28). O ator, de 39 anos, conversou com o iG sobre a atualidade do tema da montagem, mostrando através de dois casais de amantes o ódio e o ressentimento entre classes, e como o texto, escrito pelo inglês Steven Berkoff em 1981, se encaixa com o momento político e social que o Brasil vive.

Erom Cordeiro fala sobre a peça e momento político atual
Reginaldo Teixeira/CS Eventos Divulgação
Erom Cordeiro fala sobre a peça e momento político atual




A história

Aline Fanju e Erom Cordeiro em 'Decadência'
Reprodução/Instagram
Aline Fanju e Erom Cordeiro em 'Decadência'

Em " Decadência ", George ( Erom Cordeiro ) e Martha ( Aline Fanju ) formam um casal de amantes da classe alta, que se dedica a gastar todo seu tempo e dinheiro em noitadas regadas a sexo, bebidas caras, jantares e óperas, alienados de tudo ao redor. Traída, a mulher de George tenta, na cama, convencer o detetive (interpretados pelos mesmos atores) a matar seu marido. Eles ficam em cena o tempo inteiro, sem trocas de roupa – ele veste smoking e ela um vestido de festa, com a luz determinando as mudanças de ambiente.

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"É um texto bastante atual que, embora se passe na Inglaterra em uma época de bastante ascensão de classes na qual a aristocracia não queria perder seu espaço, tem uma crítica, uma acidez no comportamento e na política com a qual podemos traçar um paralelo com o que acontece no mundo e no Brasil", diz o ator.

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Luta de classes

Cordeiro comenta as mudanças no Brasil nas últimas décadas. "Houve uma inserção de classes que não eram nem vistas socialmente, essa parcela da sociedade ganhou visibilidade e outra que estava muito solidificada não viu esse movimento com bons olhos. A partir disso surge a intolerância e um bando de aspectos que a gente não via na sociedade está às claras. A impressão de que o Brasil é amistoso, cordial acaba maculada, a gente é bélico sim, em vários pontos muito reacionários sim, isso de uma certa forma assusta", analisa.

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Para ele, a velocidade dos meios de comunicação ajudou a propagar esse clima. "A internet deu voz a pessoas que não teriam oportunidade de dar sua opinião, e isso é bom para o bem e para o mal, pois essa voz ganha coro e dissemina ódio, intolerância.  Com o anonimato que a internet proporciona, a gente está vendo às claras opiniões bastante obsoletas, que a gente não achava que existiam".




 Temas espinhosos fazem o público refletir, garante Erom Cordeiro. "Alguns textos da peça tocam bem na ferida. Em um país com mais de 50% de população negra, a gente vê coisas absurdas acontecendo como o racismo. A plateia fica em um silencio sepulcral porque veste a carapuça, as pessoas se veem espelhadas, você vê o raciocínio se formar. A verborragia do autor é bem cruel, traça uma geografia precisa dos vícios da classe alta e da em ascensão. Ele diz que quem está embaixo se estivesse em cima agiria da mesma forma".

Serviço:

"Decadência"

Teatro de Arena do Espaço SESC  - Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro 

Horário:  de quarta a sábado às 20h30 e domingo às 19h. Última semana

Ingressos : R$20,00, R$10,00 (meia), R$5,00 (associados SESC). Informações: (21) 2547-0156 


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