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Em cartaz com Otelo, atriz abre seu camarim ao iG para uma conversa franca sobre seus erros e acertos na carreira artística

Sempre que se fala em Shakespeare, um frio na barriga. Não é para menos, afinal, encenar um clássico como Otelo gera certa apreensão. Mas não para Mel Lisboa . Ao lado de seus companheiros de elenco, a atriz encara o texto de maneira mais leve e enxerga essa oportunidade como um desafio.

Mel Lisboa sobre Otelo: 'Foi tudo criado no amor, na paixão e na vontade de fazer. Estou muito grata artisticamente falando, muito feliz'
Aretha Martins/iG
Mel Lisboa sobre Otelo: 'Foi tudo criado no amor, na paixão e na vontade de fazer. Estou muito grata artisticamente falando, muito feliz'


“Não tem esse peso todo, esse medo. Essa peça já foi apresentada inúmeras vezes em 400 anos e será encenada ainda por muito tempo. Se a gente encarar menos como algo pesado e sim como um aprendizado, uma escola, a gente se diverte mais, aprende mais e sofre menos”, avalia Mel, enquanto se prepara para subir ao palco do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

Com adaptação de Débora Dubois , a peça conta com tradução de Maria Silvia Betti , o que a torna mais fluida e menos rebuscada. “Isso facilita a compreensão do público sem tirar a poesia de Shakespeare. A gente usa uma linguagem bem comtemporânea para que a comprensão do texto seja mais imediata.”

 Com orçamento de apenas R$ 23 mil, o espetáculo tem estrutura simples e é completamente baseado no ator e no texto. A música de Caetano Veloso é executada pelo elenco, que faz a trilha, a sonoplsatia e cria o clima ao vivo. “É muito legal para gente e também para plateia, que sente a vibração do que acontece em cena”, explica ela, em bate-papo com o iG Gente em seu camarim. “Foi tudo criado no amor, na paixão e na vontade de fazer. Estou muito grata artisticamente falando, muito feliz.”



Como em toda tragédia, as questões humanas foram esmiuçadas e trabalhadas a fundo. Sua personagem, Desdêmoda,  passa por um sofrimento muito grande em um espaço curto de tempo e entra em uma curva descendente até a resolução da trama. “Em Otelo, tudo é levado às últimas consequências. Ciúme, inveja e cobiça são sentimentos humanos e isso é normal. O que impressiona é até onde isso vai.”

O contrato é uma zona muito confortável, tem aquela renda garantida e é fácil se acostumar com isso. Optei pela minha liberdade

Lidar com extremos é desafiador, mas Mel assume o risco. E paga para ver. Em nome de sua arte, ela abriu mão da estabilidade com um contrato na TV para fazer o que bem entender. “Você é funcionário de uma empresa, mas acima de tudo é artista. O contrato é uma zona muito confortável, tem aquela renda garantida e é fácil se acostumar com isso. Optei pela minha liberdade. É dificil, tenho dois filhos, preciso me sustentar. Foi uma decisão ousada, mas eu me preparei para isso. Não fiz a maluca”, enfatiza. 

O futuro da TV, ela diz, será de contratos por obra (assista ao vídeo abaixo). “Você pode fazer um trabalho em uma emissora, depois em outra. Você se torna mais freelancer nesse sentido”, pondera. Ao não renovar com a Record, em março deste ano, surgiu um burburinho de que Mel teria sido sondada por Manuel Carlos para fazer um remake de “Presença de Anita”. “Não sei qual seria a ideia dele, afinal Anita morre no final. Mas nada foi fechado”.

Mel Lisboa sobre não renovar contrato com a Record: 'Foi uma decisão ousada, mas eu me preparei para isso. Não fiz a maluca'
Aretha Martins/iG
Mel Lisboa sobre não renovar contrato com a Record: 'Foi uma decisão ousada, mas eu me preparei para isso. Não fiz a maluca'


 A lolita que projetou Mel Lisboa para o grande público serviu como base de estudos para Camila Queiroz , que vive Angel em “Verdades Secretas”. Ao iG Gente, Camila contou que Mel serviu como uma inspiração de coragem . “Fico lisonjeada, depois de tantos anos, alguém me estudando para construir uma personagem”, reflete.

As pessoas esperam que você se torne uma grande estrela. Por isso, é muito esquisito pensar em um caminho torto como o meu

Sobre os erros e acertos na carreria artística, Mel é categórica: "As pessoas esperam que você se torne uma grande estrela. Por isso, é muito esquisito pensar em um caminho torto como o meu. Pode parecer um erro, mas na verdade é um caminho.”  

 Nas palavras da atriz, as pessoas esperam ver um determinado resultado e, ao mesmo tempo, gostam de ver o fracasso alheio. “Dá um prazer mórbido em ver a pessoa errar, cair.” Lidar com os julgamentos foi essencial para fortalecê-la e enfrentar as dificuldades da profissão. “Já aprendi a sublimar a crítica, tanto para quando ela é boa como para quando é ruim. Tem que fazer, errar e aprender. Querer acertar sempre é uma pretensão grande demais.”

O elenco de Otelo faz a sonoplastia ao vivo: 'É muito legal para gente e também para plateia, que sente a vibração do que acontece em cena'
Aretha Martins/iG
O elenco de Otelo faz a sonoplastia ao vivo: 'É muito legal para gente e também para plateia, que sente a vibração do que acontece em cena'


Em sua intimidade, Mel afirma que o tempo passado longe da família é sofrido e dói. Mas este é um revés de sua profissão que ela procurar driblar.  “Viajar é inevitável quando se é artista. Assim que entrarmos em turnê com o teatro, é pé na estrada. As mulheres levam essa culpa, estou tentando não carregá-la.” Parece que para os homens lidam melhor com essa questão. O marido de Mel, o músico Felipe Rosseno , tem sua equação para encarar a distância numa boa. “Ele não tem esse problema que eu tenho. Ele morre de saudade, mas diz que está fazendo seu trabalho, é honesto, é digno e é o jeito que tem para fazer seu dinheiro.”

Talvez eu não seja muito fácil e o Felipe é muito tranquilo, não fica me perturbando

 Para ela, é mais fácil ser casada com uma pessoa do mesmo métier. Já que tem personalidade forte e reconhece: precisa de alguém que a acalme. “Talvez eu não seja muito fácil e o Felipe é muito tranquilo, não fica me perturbando. A gente mantém muito essa coisa do espaço e da liberdade do outro. Isso é fundamental para a manutenção do relacionamento. No meu caso, acho muito bom que ele seja artista. Até porque a gente troca muita coisa.”

 Essa parceria ajuda no dia a dia da do casal. Mãe de Bernardo , de 6 anos, e Clarice , de 3, Mel afirma que precisa do apoio do pai quando está trabalhando. E no tempo livre, o casal  gosta das coisas simples e cotidianas. “Em casa, a minha maior felicidade é fazer um jantarzinho, adoro cozinhar. A gente coloca as crianças para dormir, abre um vinho e fica conversando.”

Com dieta ela não precisa esquentar. “Eu tinha paranoia de engordar antes de ter filho. Depois percebi que não precisava me preocupar. Eu como tudo o que quero, mas não tenho mais compulsão. Como um chocolatinho e tudo bem, não preciso comer uma caixa de bombom inteira, como já fiz um dia.” Sua malhação é feita no teatro e no dia a dia. Ela carrega cenário, sobe e desce escada e corre atrás dos filhos. E, claro, sua genética também a ajuda manter a boa forma. Sonhos? Os bens materiais não a interessam tanto, ela faz questão de deixar claro, mas ser bem remunerada pelo seu trabalho permite fazer o que mais gosta: viajar mundo afora.