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Casado há mais de 30 anos, ele é o exato oposto de seu personagem inescrupuloso e adúltero em “Joia Rara”. Fiel às raízes, não deixa para trás o teatro e o circo, onde tudo começou

“Você é palhaço mesmo ou está apenas se pintando de palhaço?” A pergunta vem de especialista – Kamila Stankowich , mágica, bailarina e descendente da família de origem romena que chegou ao Brasil em 1856 e fundou o Circo Stankowich. Palhaço ele não é, mas a maquiagem ficou perfeita. Leopoldo Pacheco é maquiador, figurinista, cenógrafo, diretor de arte, iluminador. Ah, claro: e ator.

O que surpreende na carreira dele é que mesmo depois de fazer sucesso na TV, nunca deixou para trás sua raiz no teatro. “Adoro fazer TV, acho uma delícia”, diz o intérprete do inescrupuloso e adúltero banqueiro Valter na novela “ Joia Rara ”. “Mas é no palco que eu treino o meu trabalho. Quando você chega à TV, parece que nasceu lá, e não é nada disso. Eu tenho formação, uma carreira longa de teatro, estou sempre envolvido em trabalhos paralelos.”

Adoro fazer TV, acho uma delícia. Mas é no palco que eu treino o meu trabalho"

Os trabalhos paralelos são quase sempre fazendo maquiagem, direção de arte, figurino, luz ou cenário para um espetáculo – de teatro ou circo. Estava ainda cursando a EAD (Escola de Artes Dramáticas), da USP, quando foi tomar aulas no extinto Circo Escola Picadeiro para adquirir equilíbrio e desenvoltura física para se movimentar pela estrutura de ferro do cenário de uma peça que ensaiava, “Máscaras”. Foi sua estreia no teatro profissional, em 1985, e sua atuação lhe rendeu os prêmios APCA de ator revelação e o Governador do Estado de melhor ator. Mais para frente se envolveu com o grupo de circo-teatro Nau de Ícaros, de que dirigiu alguns espetáculos, entre eles “O Palácio Não Acorda”, premiadíssimo em sua temporada (1997). E desde 2003 trabalha com o grupo paulistano “Os Fofos Encenam” no resgate da tradição do circo-teatro. Por isso mesmo escolhemos um circo como cenário para as fotos desta matéria, em que toda a maquiagem e o figurino são assinados por Leopoldo (com exceção da participação especial do palhaço Panqueca, que estava com figurino e maquiagem próprios). “A maquiagem do palhaço é sua marca registrada, é como o seu DNA”, explica Leopoldo.

Leo, como em dois minutos você já se sente à vontade para chamá-lo, confirma que está cada vez mais difícil fazer novela e teatro ao mesmo tempo – “As novelas estão cada vez mais elaboradas” -, mas insiste em dizer que é no teatro que o ator se forma. “Estar no palco é muito importante para o ator que faz televisão. Pelo fato de você repetir sempre o mesmo texto, você verticaliza, se aprofunda, se apossa das palavras. O teatro traz preparo e repertório. É como um instrumentista que toca muito a mesma partitura. A música vai virando íntima, vai ganhando alma.”

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Leopoldo é um cara sereno e de bem com a vida. Está casado com a mesma mulher, Bel Gomes , há mais de 30 anos, desde a época da faculdade. Ele estudava Artes Plásticas na Faap, Bel estudava Cinema. Quando Leo descobriu sua vocação teatral, ao substituir um ator que fazia um papel na peça de que ele cuidava da ambientação, foi estudar teatro ao mesmo tempo. “Em cena, encontrei um lugar em que estava absolutamente confortável”, lembra. Passou a ser a primeira opção de Bel para os papeis masculinos de seus filmes. Os dois são pais de Frederico , 19, que estuda música eletrônica e tem uma banda de rap, Outra Visão.

Eu não sou uma celebridade. Sou um ator bem-sucedido"

Sua relação com a fama também é surpreendente. Ele acha simpático o assédio do público – “Todo mundo que se aproxima vem te elogiar, dizer que gosta de seu trabalho, pedir para tirar foto. Como vou me aborrecer com isso?” -, não é dado a chiliques ou mudanças de humor, e tem um amor genuíno por seu trabalho, movido muito pouco pelo ego e pela vaidade. “Eu não sou uma celebridade. Sou um ator bem-sucedido.”

Leopoldo Pacheco e Bel Gomes, sua mulher há mais de 30 anos
AgNews
Leopoldo Pacheco e Bel Gomes, sua mulher há mais de 30 anos

E como é que faz para não criar clima em casa depois de sair para um dia de trabalho em que a obrigação profissional é beijar a Camila Pitanga ? “Nossa relação é muito particular. Eu adoro minhas colegas de trabalho, às vezes no fim de uma novela a sensação é de um casamento bom que chegou ao fim, mas não misturo as coisas. A Bel é muito segura e eu quero manter essa confiança. Ela sempre me jogou para cima, eu não seria o ator que sou, a pessoa que sou, sem ela. Não tem porque não estar com ela. Sou feliz assim, sou tranquilo.”

Nenhuma crise, nunca? “Às vezes fica sem graça, cai numa maré que não é bacana, mas como você resolve a sexualidade nesse sentido? A gente passa pela crise, não se entrega. Nós sempre resolvemos segurar a onda e vimos que é cíclico, depois volta a ser bom de novo.”

Eu adoro minhas colegas de trabalho. Às vezes, no fim de uma novela, a sensação é de um casamento bom que acabou"

Um ator, por exigência profissional, tem de se entender com os ciclos. Depois de uma longa experiência no teatro, a carreira de Leo na TV começou em 2001, com uma participação nos dez últimos capítulos da novela “Rede da Vida”, na Record. Então foi chamado pela Globo para fazer um papel escrito especialmente para ele na minissérie “Um Só Coração”, de Alcides Nogueira e Maria Adelaide Amaral . Depois voltou para a Record como protagonista de “A Escrava Isaura”, no papel do temível Leôncio. “O Rubens de Falco , que tinha feito o papel de Leôncio na versão original da novela, fazia o papel de meu pai”, conta. E então veio “Belíssima” (2005), em que fazia Cemil – e namorava Camila Pitanga.

Atualmente o ator interpreta o escultor Auguste Rodin no espetáculo 'Camille e Rodin' ao lado de Melissa Vettore
Divulgação
Atualmente o ator interpreta o escultor Auguste Rodin no espetáculo 'Camille e Rodin' ao lado de Melissa Vettore

No teatro, ele já fez papel de gay, de mulher, de homem. Em 2001, ganhou o Prêmio Shell de melhor ator pela interpretação do poeta francês Paul Verlaine no espetáculo “Pólvora e Poesia”, que narrava o romance de Verlaine com o jovem Arthur Rimbaud . E sim, tinha beijo gay. Em “Javaneza”, monólogo dividido em três atos, em um ele era o homem, no outro a mulher, e no terceiro se desdobrava para fazer o encontro dos dois. Atualmente interpreta o escultor francês Auguste Rodin no espetáculo “Camille e Rodin”, que conta a história de amor entre o artista e sua discípula Camille Claudel . Depois de um ano de temporada no MASP, em São Paulo, e de algumas viagens pelo Brasil, 90 mil pessoas já assistiram à peça. As próximas paradas são Recife, Belém e Manaus, onde tem sessões marcadas em novembro. Ano que vem tem temporada no Rio. “Agora que o Frederico cresceu, a Bel pode vir comigo. Quando fico sozinho no Rio sinto muita falta dela, morro de saudade.” Qualquer semelhança com o Wagner de “Joia Rara”, que é casado com Laura ( Claudia Ohana ) e pretende transformar a amante, Volpina ( Paula Burlamaqui ), em rainha do seu cabaré, terá sido mera coincidência física.



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