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Ator recebe homenagem no Cine PE Fest e conversa com o iG sobre os quase 50 anos de carreira

Ney Latorraca
Divulgação
Ney Latorraca
Em tempos de stand up metralhando contra o politicamente correto no cenário do humor nacional, Ney Latorraca se sente um soldado sempre à alerta. Em 1988 fez o inesquecível velhinho Barbosa, no programa “TV Pirata”, inaugurando uma nova classe de comédia – mais crítica e cotidiana. Colecionador de vários tipos da TV (de vampiro a médico), Ney também tem vasta coleção de personagens no cinema. Incluindo aí o beijo que deu na boca de Tarcísio Meira , na versão cinematográfica de “O Beijo no Asfalto” (1981). 

Ser ator é sentar num toco e esperar. Se possível, com formigueiro por perto!”

Um dos homenageados da edição 2012 do Cine PE Fest , o ator conversou com a reportagem do iG , relembrando casos de sua vida, que mais parecem saídos de um texto de stand up comedy. Ney assume que é seu melhor personagem. “Ney é poderoso. Sou exuberante, com humor, pessoa que brinca sem parar... As pessoas podem confundir isso com o ator”, explica.

É dele a missão de substituir Angélica , em sua licença-maternidade do “Estrelas”. Fará também “Bandidos e Mocinhas”, longa de Bruno Barreto , baseado no livro homônimo de Nelson Motta . No próximo mês vai a Londres ensaiar uma peça com Gerald Thomas . Mas, sempre com bom humor, quer mesmo é que o repórter do iG cite que está hospedado na mesma suíte do Golden Tulip Palace, que, há duas semanas, recebeu Paul McCartney , para o show em Recife.

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Aos 68 anos, 48 de carreira e sem fumar há 9, diz que o segredo do bem-estar é o pique para as duas voltas que dá diariamente na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. “Caminho sem parar. Faço sucesso na Lagoa. Com todas as faixas de idade! Sou paquerado por senhorinhas, gatas e gatões”, diz.

Ney Latorraca
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Ney Latorraca
iG: Qual foi o melhor e o pior filme que você já fez?
NEY LATORRACA:
O melhor foi “Festa” (1989), adoro aquele filme. Mas também fiz o pior filme da Terra, “O Grande Desbum” (1978). Marília Pêra, também no elenco, esconde isso até hoje. Tem uma cena nossa, numa banheira, vestidos de Carmem Miranda. Numa outra, na qual eu apareço de turbante, saio de uma tumba, num cemitério desses do interior, todo azul. Uma cena horrível. De vez em quando, só pra irritar Marília, faço umas sessões lá em casa com o “Desbum”. Ela fica para morrer.

iG: Você já declarou que seu maior personagem é o Ney Latorraca.
NEY LATORRACA:
Ney é poderoso. Sou exuberante, com humor, pessoa que brinca sem parar... As pessoas podem confundir isso com o ator. Ney é um ator moderno, que não é travado, é feliz.

iG: Ferreira Gullar tem uma frase que diz “A arte só existe porque a vida não basta”. É por aí?
NEY LATORRACA:
Isso mesmo. Você representa o tempo todo. E como me imitam, já percebeu? Adoro. Chico Buarque dia desses me falou que sou imitado no grupo que tem Romário , Silvio Santos , Lula , Caetano Veloso ... É sinal de que atingi um nível de popularidade interessante.

iG: Gosta dessa popularidade?
NEY LATORRACA:
O público não sabe quem eu sou. O que mais ouço é: “Você não é aquele que trabalhou com o Fulvio Nanini e a Maria Pêra ? Ah, você é o seu Neyla”. Eu não sou o Neyla! Sou o Ney. Conte um, dois, três, e diga Latorraca.

iG: Há pouco tempo foi reprisado o programa “TV Pirata” no canal Viva. Por que ainda é um tipo de humor tão atual?
NEY LATORRACA:
O humor da “TV Pirata” era feito por Miguel Falabella , Miguel Paiva , Patrycia Travassos , Mauro Rasi ... Era uma turma ótima. A gente vive de ciclos, sempre preparando o estágio para a próxima geração. O que não pode é se viver de saudosismos. O nosso humor era delicado, sutil, de altíssimo nível. Tanto que ainda é bem atual. Não tinha ‘mulher arroto’, ‘mulher catarro’... Aí já é mundo cão.

iG: Você cita personagens do Pânico na TV. O humor atual é marcado por este “mundo cão”?
NEY LATORRACA:
Se tem público para isso, tudo bem. Mas meu alvo é outro. Na verdade, não se pode fazer as coisas para segmentos. Se você quiser nivelar, tem vida curta na TV. Não se pode nivelar tudo para a classe C, porque vai é atingir a classe CC. Usando a inteligência, se pode fazer qualquer coisa. Não pode é partir para a grosseria. Esta história de fazer piada de ‘eu comeria o filho de fulana de tal’ ( sobre o episódio do Rafinha Bastos e o filho da Wanessa Camargo , no programa CQC ) é coisa muito perigosa. Se for para chocar, não é humor.

Caminho sem parar. Faço sucesso na Lagoa. Com todas as faixas de idade”

iG: Este ano se comemora o centenário de Nelson Rodrigues. Você fez no cinema um dos mais emblemáticos textos dele, “Beijo no Asfalto” (1981). Como foi o beijo na boca no Tarcísio Meira?
NEY LATORRACA:
O beijo foi ótimo. Até porque quem dá o beijo é ele, não eu ( risos ). Mas sobre a repercussão... Estamos ficando mais caretas, por incrível que pareça. Não sei se foram estas doenças todas que deixaram tudo mais tenso. Os artistas vieram para romper com tudo, para isso estamos aqui. Somos buchas de canhão. A repercussão da época era o amigo beijando outro, sem conotação sexual.

iG: O que é ser “bucha de canhão”?
NEY LATORRACA:
Ser da linha de frente do ataque, pôr a cara à tapa. Mas olha só... Muita gente não sabe, mas o ofício do ator passa pela paciência. Ser ator é saber a arte de esperar. Não sei por qual motivo, ator é o primeiro a chegar num set, antes mesmo do cara acabar de montar a luz. É chegar e sentar num toco de madeira. Ser ator é sentar num toco e esperar. Se possível, com formigueiro por perto!

iG: Aos 48 anos de carreira, vive uma vida confortável?
NEY LATORRACA:
Não estou rico, nem sequestrável. Mas cada dente meu é quase o preço de um imóvel, refiz tudo com o dentista da Marilia Pêra . Temos a mesma boca ( risos ). Na minha casa tem oito banheiros. E só uso toalhas bancas, adoro toalhas de linho egípcio. Posso contar uma? Tenho câmeras por todos os lados da casa e fico vendo todas ao mesmo tempo. Quando peço pizza, demoro a atender a porta para ver como o entregador vai reagir. Fico imitando vozes de criança no outro lado ( risos ). Ele deve achar que a casa é cheia.

Não estou rico, mas cada dente meu é quase o preço de um imóvel”

iG: Ou que tem fantasma...
NEY LATORRACA:
Ih, nem me fale nisso. Dia desses, fui dormir e ouvi um barulho vindo do corredor. Pronto, era fantasma! Gritei: “não tenho medo de vocês, estou preparado para o ataque”. Passei a mão no meu kit de santos que tenho lá no quarto, cheio de imagens de várias Nossas Senhoras e fui ver o que era. Tinha esquecido a TV ligada. Quase enfartei.

iG: Por que tanta câmera dentro de casa?
NEY LATORRACA:
Porque minha casa é incrível, linda, moro bem, de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas (zona sul do Rio). Escreve aí, por favor: “Ney mora bem”... Recebi certa vez uma repórter lá no meu apartamento para uma entrevista e ela escreveu: “Ney mora em uma humilde casa”. Me revoltei, mandei tirar todas as colunas da sala para fazer um só cômodo, imenso. Quase derrubei o prédio ( risos ). Comprei um piano de cauda e coloquei num canto, mesmo sem saber tocar. Quero ver falar agora que a casa é humilde.

iG: Não sente falta de ter alguém?
NEY LATORRACA:
Não estou namorando há quatro anos. Mas a solidão não me assusta, preciso do meu silêncio. É bom este momento. Faço sucesso na Lagoa. Com todas as faixas de idade! Sou paquerado por senhorinhas, gatas e gatões. Estou sempre vestido de menino. Óculos escuros, bermuda, boné.

iG: E o programa “Estrelas”? Como será substituir Angélica, em licença-maternidade?
NEY LATORRACA:
Ganho bem, né. A Globo precisa justificar meu alto salário ( risos ). Estou sem fazer nada e, para não me deixarem à toa, me chamaram.