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“Vivi momentos de pânico”, diz mulher de Marcos Paulo

Atriz e produtora de elenco, Antônia Fontenelle conta como tem lidado com o câncer do marido, fala de suas origens no sertão do Piauí e lança “Assalto ao Banco Central”

Priscila Bessa, iG Rio de Janeiro |

Isabela Kassow
Antônia Fontenelle sobre Marcos Paulo: "Nunca deixei a peteca cair perto dele"
“Imagina, meu amor, pensei que fosse uma coisa mais séria.” A frase, de Antônia Fontenelle, para o diretor da TV Globo, Marcos Paulo, logo após saber que o marido estava com câncer de esôfago, resume bem a maneira de ser da atriz. O que para alguns poderia parecer otimismo exagerado, mostra na verdade a incrível capacidade que a brasiliense criada no sertão do Piauí desenvolveu para lidar com adversidades.

Naquele momento, Antônia se lembrara de que o marido tinha feito detalhado exame recentemente e que nada fora diagnosticado. Portanto, se havia um câncer, ele só poderia estar em estágio inicial. “Isso não tem mais que seis meses, Marcos!”, disparou em seguida. “Você é forte. Não tem metástase, apareceu agora. A Dilma acabou de vencer um câncer, brigou e é presidente da República. A Hebe com 80 anos venceu. Os problemas estão aí para a gente resolver”, enfatizou.

Apesar da força da esposa, Marcos chorava. Mas não por muito tempo. Antônia não dava tréguas na argumentação, achando até justificativas inusitadas na tentativa de animá-lo. “Vai fazer a quimio, vai emagrecer. Sabe aquele monte de terno de grife que não cabe mais em você? Vai poder usar de novo!”. A essa altura, Marcos Paulo já gargalhava. A atriz, produtora artística e empresária (ela é dona da grife Madame Simões que lança nova coleção dia 30 de julho em Brasília) contou esta e muitas outras histórias com exclusividade ao iG em entrevista concedida no Forte de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro.

Antônia Fontenelle, 38 anos, casada há cinco com o diretor de núcleo da TV Globo, esbanja energia. Agora, além de estar vivendo este momento delicado ao lado de Marcos Paulo, está prestes a lançar “Assalto ao Banco Central”, longa dirigido pelo marido e idealizado pela atriz, que encerrará o Festival de Paulínia dia 14 de julho com estreia nacional no dia 22. Mãe de Samuel, 15 anos, do primeiro casamento com o ator Fernando Almeida (1974-2004) morto a tiros em um ponto de ônibus em Realengo, zona norte do Rio, Antônia mostra, na bate-papo a seguir, que tem a fibra característica do nordestino.


iG: Como foi quando o Marcos lhe contou sobre o câncer?
Antônia Fontenelle:
Foi horrível. Ele ficou sabendo antes de mim e não quis me contar. Estava sofrendo muito até que resolveu falar. Ficou duas semanas mal humorado, insuportável, lidando com aquilo sozinho. Eu sabia que tinha alguma coisa errada. Um dia foi para Brasília e do aeroporto me ligou com a voz embargada: “Vai para casa que quero falar com você”. Quando ele contou não dei a menor importância. Fiz uma brincadeira: “Imagina, meu amor , pensei que fosse uma coisa mais séria. Tem seis meses isso. Você vai fazer a quimio e emagrecer. Sabe aquele monte de terno de grife que você não está mais usando?”. No final ele estava rindo, mas me contou chorando.

iG: E você?
Antônia Fontenelle:
Eu estava machucada, é claro. Depois continuei: “Marcos, você é forte. Não tem metástase, descobriu recentemente. A Dilma acabou de vencer um câncer, brigou e é presidente da República. A Hebe com 80 anos venceu. Os problemas estão aí para a gente resolver. Se seu cabelo cair, faz parte. E você tem que brigar contra isso e falar: ‘Gente, olha aqui, não é porque sou ator e diretor da TV globo que sou imune a um câncer. Tenho, vou brigar e vou vencer’. Com isso você vai dar força para os seus fãs porque tem muita gente que está com isso”. Depois que o Marcos descobriu o câncer dele eu descobri que o mundo está com câncer. Virou gripe. É o mal do século.

Isabela Kassow
Além de atuar no longa ela também é produtora de elenco de "Assalto ao Banco Central"

iG: Mas em nenhum momento isso tudo te derrubou?
Antônia Fontenelle:
Em vários momentos. Quando o Marcos passou mal, recentemente, tive que levá-lo correndo para o hospital e estava sozinha em casa. São momentos de pânico. Mas sou uma pessoa que quando se sente acuada cria uma força que não sei de onde vem. Vê-lo sofrendo por não poder se alimentar, sabendo que ele está com fome e não pode comer. Aí vou lá para o meu cantinho, choro e volto rindo. Nunca deixei a peteca cair perto dele.

iG: Como vocês se conheceram?
Antônia Fontenelle:
Eu estava no elenco de apoio da novela Paraíso Tropical e um dia fui almoçar na praça de alimentação do Projac . Ele ficou me olhando. Achei que não era comigo. Até que um dos amigos disse: “Ele parou tudo e não para de te olhar”. Olhei para trás e falei: “É comigo?”. Ele riu de canto de boca, a coisa mais sexy (risos). Fiquei envergonhadíssima, o garfo caiu no chão, não consegui mais comer e levantei. Voltei para casa e consegui o e-mail dele. Mandei uma foto minha belíssima e escrevi: “Quer olhar, olha direito. Porque você me deixou com fome”. (risos)

iG: E o que aconteceu?
Antônia Fontenelle:
Imediatamente ele respondeu: “Essa não pode ser a mocinha que estava na praça de alimentação. Isso é propaganda enganosa. Posso te ligar?”. Quando ele me ligou ficamos mais de uma hora no telefone rindo horrores. Me achou muito engraçada e disse que não se lembrava há quanto tempo não ria tanto. Marcamos para jantar e depois de seis meses flagraram a gente em Búzios.

iG: Ser mulher dele deve ser uma posição que gera inveja ou cobiça.
Antônia Fontenelle:
Tem gente que te ama pelo que você é e tem quem te odeie pelo mesmo motivo. No meu Twitter teve uma pessoa que postou três vezes que me acha um nojo. Tenho que respeitar. É a opinião dela. O que posso fazer? Só lamento porque não me conhece. O fato de ser bem-sucedida é uma afronta. “Como assim você saiu do sertão, do Piauí, e está sentada na janela?”. Moro aqui há 20 anos e comi miojo por meses a fio para chegar onde cheguei.

iG: Você fala tudo que vem a cabeça...
Antônia Fontenelle:
Tenho amigos que dizem que devo ser mais política. O que é ser mais política? Engolir sapo e ir pra casa passando mal? Minha mãe, nordestina, sempre disse: “Prego que não se destaca não toma martelada”. Cresci com essas ideias simples.

Isabela Kassow
Nascida em Brasília, Antônia foi criada no Piauí após ser adotada aos dois meses

iG: Mas você não nasceu em Brasília?
Antônia Fontenelle:
Sim, mas fui adotada. Eu nasci brigando, com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Sou uma sobrevivente. Aos dois meses de idade minha mãe, que morava em Brasília, e era uma pessoa muito simples, ignorante, cheia de filhos, me deu para um casal porque, quando chegou a minha vez, não pôde me criar. Então fui parar no sertão, em Santa Rosa. Morava no meio do mato mesmo. Ia para a escola a cavalo, minhas bonecas eram espigas de milho. Ouvia rádio de pilha porque lá era luz de lampião, TV nem pensar. Quando cheguei à quarta série convenci minha família toda a ir para Parnaíba porque queria continuar a estudar. Quando tinhas uns 11 anos lá tinha televisão. Aí lembro de uma cena belíssima da Maria Zilda em “Vereda Tropical” e falei: “Quero fazer o que essa mulher está fazendo”.

iG: E como você veio parar no Rio de Janeiro?
Antônia Fontenelle:
Aos 15 fui numa rádio e comecei a participar de um programa, as pessoas me mandavam cartas, bode, capote, bolo de milho (risos). O programa era um sucesso. Comecei a me corresponder com revistinhas teen e um dia fiz um amigo à distância que falou sobre a possibilidade de alugar camas em quartos. Aos 18 vim para cá e fui parar numa vaga em Copacabana. No quarto tinham seis camas. Custava 200 reais por mês. Fui trabalhar numa pronta-entrega. Soube que alí perto tinha uma escola. Aí entrei na Martins Pena (escola de teatro). Depois fiz Tablado, comecei a trabalhar em uma loja de sapatos em um shopping. E paguei minha faculdade de teatro na Faculdade da Cidade. Mas durante muito tempo comia cachorro-quente e miojo. Lembro de andar pelo calçadão de Copacabana e pensar: “Nunca mais quero sair daqui”. Tinha tudo para me prostituir, me drogar, porque tinha liberdade para fazer o que quisesse. Mas graças a Deus tive a base da minha família.

iG: E agora, sente preconceito por ser mulher de diretor?
Antônia Fontenelle:
Sinto. Acharam que ele me deu uma peça quando fiz “Vidas Divididas”, mas na verdade o espetáculo era meu e eu o contratei como diretor tanto que pagava e o obrigava a assinar o recibo. Ele morria de rir. Quando fiz “Malhação” (2009) a chefe da maquiagem vinha correndo quando eu chegava. Falei: “Pode parar. Alguém me atende quando estiver disponível”. Acho que aos poucos estou vencendo um pouco isso. Quando comecei a namorar com ele todo mundo falava: “Ah, mais uma para a coleção do Marcos Paulo”. Cheguei num terreno minadíssimo. Ele vinha de vários namoros com mulheres poderosas e seis meses era o prazo de validade.

Isabela Kassow
Tenho amigos que dizem que devo ser mais política. O que é ser mais política? Engolir sapo e ir pra casa passando mal?

iG: “Assalto” é a estreia do Marcos como diretor de cinema. E foi você que o convenceu a entrar nessa produção. Ele não teve medo dessa transição da TV para a telona?
Antônia Fontenelle:
Teve porque no meio disso tudo eu era a única pessoa que não tinha nada a perder. Acreditava no brilho nos olhos das pessoas quando eu falava no assunto. Dizia: “Isso é público, isso é bilhete”. Hoje todos estão completamente acreditados que vai virar um marco. Mas ele não tinha por que arriscar. É pertinente de quem tem um nome a zelar. E além disso a ideia veio da “namorada”.

iG: Mas como um diretor da Globo não imaginava que poderia rodar um filme?
Antônia Fontenelle:
Ele não tinha noção do tamanho dele. Essa é a grande questão. E é aí que entra uma mulher para fazer um homem. Teve uma coisa que foi muito importante. Eu ter levado o Marcos para o sertão para ele ver o lugar de onde eu saí, para ele ver que ainda existem pessoas de bem. A única preocupação dos meus pais era se a gente estava se alimentando. Meu pai assava uma costela de porco para o Marcos, que ele adora, meia hora depois minha mãe vinha: ”Marcos você quer uma bananada?”. São de uma inocência, uma simplicidade. Acho que ele nunca nem viveu isso. Desde cedo está na televisão e é um outro meio. Os valores são trocados. E isso não é culpa dele.

iG: Para ele foi um choque?
Antônia Fontenelle:
Minha mãe tinha preparado com todo carinho uma coma com lençol daqueles escrito “Jesus te ama” com um coraçãozinho. Ela nem é protestante, mas achou bonitinho. Ele estava olhando para o teto e falou: “Você é foda. Eu não imagino como é que você conseguiu sair daqui”.

iG: Em 2009 surgiram fortes boatos de que vocês iriam se casar em Saint-Tropez. Pensa em oficializar a união?
Antônia Fontenelle:
Não casei em Saint Tropez e não vou casar com o Marcos Paulo porque já me considero casada com ele. Casar é somar, dividir problemas, ter essa vida em comum que nós temos, somar soluções, não é assinar papel, para depois ter que pedir divórcio. Se eu me separar do Marcos amanhã vou querer no máximo a amizade dele porque sou feliz como sou. Não preciso de casas, iates, milhões. Preciso do básico para ser feliz.

Isabela Kassow
Moro aqui há 20 anos e comi miojo por meses a fio para chegar onde cheguei

iG: Fernando, o pai de seu filho Samuel, está na reprise de “Vale Tudo” no canal Viva. Ele assiste?
Antônia Fontenelle:
Viu uma vez, mas percebi que ficou triste. Estuda de manhã e não vai ficar vendo o pai que já morreu de madrugada, então evito. Ele tinha sete anos quando o Fernando morreu. Meu filho tem uma cabeça ótima. Converso muito com ele e mostro a realidade. Ano retrasado o mandei para Londres para estudar na escola que queria. Disse quanto estava gastando e quanto ele tinha para gastar. Se usasse o dinheiro para fazer compras como os amigos, não teria mais.

iG: Mas mesmo sendo casada com o Marcos se preocupa com as despesas...
Antônia Fontenelle:
Dou o básico, o que ele precisa. Ele pede e eu falo: “Você não é filho do Marcos Paulo, você é meu filho”. Faço questão que seja assim e o Marcos acha que é certo porque ele teve que se fazer na vida sozinho. É um mega pai, dá toda assistência para as filhas, mas quando comecei com ele o Samuel tinha de 10 para 11 anos. O Marcos não tem responsabilidade nenhuma sobre ele. Mesmo sendo muito bacana, não se mete a ser pai.

iG: Por que acha que a relação deles é diferente?
Antônia Fontenelle:
O Marcos é muito fechado, nunca teve filho homem e fica sem saber o que fazer. O Samuel também é assim. Parece que um tem medo de se envolver com o outro... Na verdade, agora não sinto tanto isso. Foi mais no começo. O Marcos se preocupa bastante com ele. Vejo que existe uma barreira, mas deixo que seja assim porque não sei o que vai acontecer. Nem um nem outro estão mais a fim de perder nada nem ninguém...

Isabela Kassow
“Assalto ao Banco Central” tem estreia nacional no dia 22 de julho

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