Trama volta ao ar em julho; confira sua importância, novelas que inspirou e influência na TV

O Canal Viva anunciou recentemente a próxima reprise que ocupará o "horário nobre" da emissora - 00h45 --, vaga atualmente preenchida pelo sucesso "Vale Tudo" (1988/89). E a escolhida foi "Roque Santeiro" (1985/86).

Lima Duarte e Regina Duarte em
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Lima Duarte e Regina Duarte em "Roque Santeiro"


Novela unânime

Considerada por boa parte da crítica - e até mesmo do público - como "a melhor novela de todos os tempos", "Roque Santeiro" já foi reprisada duas vezes na TV Globo: em 1991, na "Sessão Aventura", e em 2000, no "Vale a Pena Ver de Novo". E ainda foi lançada em DVD, condensada em um box com 16 discos, em 2010. Apesar de tanta onipresença, a novela voltará ao ar a partir de julho - 26 anos depois de estrear pela primeira vez.

E a estreia em 1985 foi cercada de expectativas, já que tratava-se de uma obra resgatada dos porões da censura. O projeto original era uma adaptação disfarçada da peça teatral "O Berço do Herói", de Dias Gomes , escrita em 1963 e censurada pela ditadura militar em 1965.

Lucinha Lins (Mocinha), Eloísa Mafalda (Pombinha) e Ary Fontoura (Florindo Abelha) em
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Lucinha Lins (Mocinha), Eloísa Mafalda (Pombinha) e Ary Fontoura (Florindo Abelha) em "Roque Santeiro"


O próprio Dias, que havia escrito na Globo sucessos como "O Bem-Amado" (1973) e "O Espigão" (1974), decidiu adaptar sua peça, modificando o título e alguns detalhes, tentando driblar a censura. A princípio conseguiu, e a novela já estava com 30 capítulos gravados. Mas no dia da estreia, em 27 de agosto de 1975, a obra foi proibida de ir ao ar - os militares descobriram a estratégia de Dias Gomes, graças ao grampeamento de uma conversa telefônica.

A Globo colocou no ar então uma reprise compacta de "Selva de Pedra" (1972/73), enquanto Janete Clair - esposa de Dias Gomes - escreveu às pressas "Pecado Capital" (1975/76), com o mesmo elenco da censurada "Roque". E o resto foi história.

Retrato do Brasil

José Wilker no papel-título de
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José Wilker no papel-título de "Roque Santeiro"


Dez anos depois, já sob os ares da Nova República, a Globo resolveu produzir uma nova versão da novela. E o sucesso acabou surpreendendo todo mundo. Pela primeira vez, uma novela das 20h da emissora deixava de focalizar o universo urbano do Rio de Janeiro e centrava sua trama em uma região do sertão nordestino, para contar a história de Roque Santeiro ( José Wilker ), que supostamente havia morrido 17 anos antes, em combate para defender a cidadezinha de Asa Branca.

Só que Roque não estava morto e volta à cidade, descobrindo que a região vive em função de seu mito. Roque tornou-se o santo padroeiro da cidade, explorado pelos comerciantes locais, pelos políticos corruptos e pelo coronelismo - simbolizado pelo fazendeiro Sinhozinho Malta ( Lima Duarte ), o "Rei da Carne Verde", e coroado pela presença da Viúva Porcina ( Regina Duarte ), que afirma ter sido noiva de Roque, mas que jamais o conheceu, e vive sustentada com luxo e riqueza por Sinhozinho, seu amante.

O sucesso foi espantoso, e o Brasil inteiro passou a repetir expressões da novela, como "Tô certo ou tô errado?", de Sinhozinho Malta, ou "Mina!!!!", de Porcina, além de "Mais fortes são os poderes de Deus", frase do Beato Salu ( Nelson Dantas ).

Novelas herdeiras

Yoná Magalhães, Claudia Raia - estreando em novelas - e Ísis de Oliveira em
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Yoná Magalhães, Claudia Raia - estreando em novelas - e Ísis de Oliveira em "Roque Santeiro"


"Roque Santeiro" inaugurou uma verdadeira onda de novelas que seguiam a mesma cartilha, com a estrutura cidadezinha nordestina-personagens folclóricos-situações cômicas e surrealistas. Uma linha que o próprio Dias Gomes havia desenvolvido em suas novelas "O Bem-Amado" e "Saramandaia" (1976), inspirando-se no chamado realismo fantástico da literatura latino-americana, principalmente "Cem Anos de Solidão" (1967), do colombiano Gabriel García Márquez .

Essas características básicas voltaram ao ar várias vezes. Depois de "Roque Santeiro", vieram as novelas-filhotes: "Tieta" (1989/90, baseada no livro de Jorge Amado), "Pedra Sobre Pedra" (1992), "Fera Ferida" (1993/94), "A Indomada" (1997) e "Porto dos Milagres" (2001, também baseada em obras literárias de Jorge Amado). Todas foram exibidas às 20h, e tiveram como autor titular Aguinaldo Silva . Não por acaso, foi Aguinaldo quem escreveu "Roque Santeiro" - a partir do argumento original de Dias Gomes.

Fábio Jr. era Roberto Mathias, galã de cinema que interpretava
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Fábio Jr. era Roberto Mathias, galã de cinema que interpretava "Roque Santeiro" no filme inspirado na vida e morte do mesmo


E o realismo fantástico dava o tom em todas essas obras. Se "Roque Santeiro" tinha o Professor Astromar ( Rui Resende ) virando lobisomem, "Fera Ferida" tinha Raimundo Flamel ( Edson Celulari ) transformando pessoas em ouro. Se em "Pedra Sobre Pedra" as mulheres da cidade comiam uma flor para atrair o amante-fantasma Jorge Tadeu ( Fábio Jr. ), "A Indomada" trazia a vilã Altiva ( Eva Wilma ) evaporando no final, partindo em forma de fumaça e prometendo vingança.

O sotaque nordestino dos personagens também virou uma espécie de "grife" dessas novelas. Muitas vezes criticado por puristas - que alegavam que os atores, em sua maioria cariocas, não reproduziam fielmente o linguajar real das regiões nordestinas -, o sotaque exagerado conquistou o público, que passou a repetir os bordões no dia-a-dia, transformando o cotidiano brasileiro.

Regina Duarte e a moda exagerada de Porcina
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Regina Duarte e a moda exagerada de Porcina
Lançando moda

Outra mania que "Roque Santeiro" instaurou foi a famigerada moda da Viúva Porcina. A espalhafatosa personagem, por incrível que pareça, lançou adereços como laçarotes enormes no cabelo, colares e brincos imensos, maquiagem exagerada e muitos brilhos. O look Porcina virou mania no Brasil em plena metade dos anos 1980 - libertando Regina Duarte, definitivamente, do rótulo de "Namoradinha do Brasil".

Com o sucesso estrondoso da novela, que teria atingido 100% de audiência no último capítulo, exibido em 22 de fevereiro de 1986, o autor original voltou à ativa a cerca de 40 dias do final. Dias Gomes reassumiu a novela, que até então vinha sendo conduzida por Aguinaldo, e criou o grande impasse do desfecho: Porcina foge com Roque ou fica com Sinhozinho Malta?

"Casablanca"

A cena final abandonou o realismo fantástico e inspirou-se diretamente em Hollywood, no clássico "Casablanca" (1942). Assim como no filme, o triângulo amoroso se encontra no aeroporto. No cinema, Ilse ( Ingrid Bergman ) foge de Casablanca ao lado de Victor ( Paul Henreid ), deixando para trás Rick ( Humphrey Bogart ), seu grande amor. Na novela, Porcina desiste de fugir de Asa Branca com Roque, seu amor idealizado, e fica na cidade ao lado de Sinhozinho Malta, sua relação cômoda e onde ela dá as cartas - "Dona", música interpretada pelo grupo Roupa Nova, era o tema da personagem. Um final alternativo, com Porcina e Roque partindo, também foi gravado, e resgatado nos extras do box da novela em DVD.

A exibição do último capítulo praticamente parou o país, que ali se despediu de personagens que durante tantos meses fizeram parte da vida dos brasileiros com uma intimidade impressionante. Por tudo isso, "Roque Santeiro" marcou o fim de uma fase: a era das grandes novelas que mobilizavam o país, literalmente de ponta a ponta, como uma válvula de escape coletiva. Hoje, uma novela como "Roque" talvez não causasse o mesmo impacto - a televisão mudou, o Brasil mudou. Um pouco desse Brasil de 1985 pode enfim ser revisto a partir de 18 de julho, no Canal Viva.

Yoná Magalhães, Cláudio Cavalcanti, José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte em
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Yoná Magalhães, Cláudio Cavalcanti, José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte em "Roque Santeiro"

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