“O Astro”, “Fina Estampa” e até “A Vida da Gente” levantaram discussões sobre temas fortes e cenas picantes na TV em 2011

Rodrigo Lombardi e Carolina Ferraz em cenas sensuais de
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Rodrigo Lombardi e Carolina Ferraz em cenas sensuais de "O Astro": a novela das 23h foi a mais ousada produção de 2011


Sexo, nudez, violência, temas considerados “fortes” e ousados. O ano de 2011 foi marcado por muitos atrevimentos na teledramaturgia brasileira, especialmente na emissora que comanda o setor: a Rede Globo, inigualável no quesito de novelas e minisséries.

O auge dessa tendência foi “O Astro”, exibida às 23h, horário inédito para novelas da casa. Aproveitando a faixa adiantada, o remake colocou no ar cenas, situações e personagens bem mais ousados do que o padrão exibido nas novelas das 18h, 19h e 21h.

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O resultado: um público mais selecionado, habituado com seriados de TV norte-americanos, virou fã e passou a acompanhar a produção. Por outro lado, críticas na imprensa comentavam as liberalidades da novela – e uma reação conservadora teria vindo da própria Globo, que passou a brecar algumas ousadias, minimizando as cenas de nudez e sexo de “O Astro”.

Mesmo com tanta controvérsia, em seus quatro meses de duração a novela estabeleceu um novo padrão de tratamento de temas mais fortes. Porém, por ser considerados inapropriados para o horário, "conteúdos angustiantes" como acidentes de carro e cenas de hospital, onde a personagem de Fernanda Vasconcellos permaneceu em coma por quatro anos, levaram a uma reclassificação da novela das 18h , “A Vida da Gente” . Antes indicada como livre para qualquer público, no final de novembro a novela recebeu nova classificação indicativa: recomendada para acima de 10 anos de idade.

No final de novembro, o Ministério da Justiça concluiu que a novela é “perturbadora”, e afirmou em nota oficial que a produção apresenta “angústia e cenas de discussões ríspidas entre personagens, inclusive intrafamiliares, que podem ser perturbadoras para crianças, em especial as menores de 10 anos”.

Polêmicas em “Fina Estampa”

Os banhos sensuais de Dagmar (Cris Vianna) roubaram a cena no início de
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Os banhos sensuais de Dagmar (Cris Vianna) roubaram a cena no início de "Fina Estampa"


A próxima produção na mira das famigeradas “classificações” é “Fina Estampa” , no ar às 21h. Recomendada para maiores de 12 anos, ela tem sido rondada pelo Ministério Público, e existe a possibilidade de ter sua classificação alterada para maiores de 14 anos. Os motivos: a trama apresenta “assassinatos, estigma e discriminação a homossexuais”, segundo o Ministério.

No início da trama, a personagem Dagmar ( Cris Vianna ) chamou a atenção porque vivia tomando sensuais banhos de mangueira . De uma hora para outra, os banhos sumiram.

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Em compensação, a polêmica aumentou em torno do personagem gay Crô ( Marcelo Serrado ), constantemente humilhado e ridicularizado por outros personagens – o que teria provocado um aumento de agressões verbais contra homossexuais nas ruas do país.

Mas a discussão em torno do caso não seria tão grave, segundo especialistas no assunto novelas. Para Nilson Xavier , autor do “Almanaque da Telenovela Brasileira” e criador do site Teledramaturgia, a presença de Crô não produz tantos efeitos na vida real.

Crô (Marcelo Serrado) em ação nas gravações de
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Crô (Marcelo Serrado) em ação nas gravações de "Fina Estampa"

“Qualquer pessoa com o mínimo de discernimento entende que aquele personagem é uma caricatura, está muitos tons acima, é farsesco”, comenta Nilson. “Aliás, ‘Fina Estampa’ é a mais farsesca de todas as novelas de Aguinaldo Silva . Não é uma novela realista. Logo, não é para ser levada tão a sério. Muito menos o personagem Crô, que é farsesco até no nome!”

Ainda assim, alguns setores da militância gay brasileira acreditam que a novela deveria ter uma função mais educativa, como aconteceu com a produção anterior do horário, “Insensato Coração” – onde os gays eram agredidos verbal e fisicamente, e um deles chegou a ser assassinado por homofobia, mas a trama deixava clara qual seria a postura politicamente correta em relação a tais personagens.

Crô (Marcelo Serrado) pode ser amante de Ferdinand (Carlos Machado) em
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Crô (Marcelo Serrado) pode ser amante de Ferdinand (Carlos Machado) em "Fina Estampa"

Já o novelista Vitor de Oliveira , que atuou como colaborador dos autores de “O Astro”, questiona o conceito das mensagens que uma novela pode transmitir.

“O que é ser educativo? Colocar o gay dentro do armário ou se comportando como se fosse hétero? Nenhuma novela ou personagem pode ser culpado pela intolerância e falta de respeito de uma parcela da sociedade”, diz Vitor. “Crô é apenas uma vítima desse desrespeito, assim como foi Geisy Arruda no episódio da universidade. Se Crô vivesse dentro do armário estaria tudo bem, mas expressa livremente sua personalidade e, assim como na vida real, acaba sofrendo com a hipocrisia. Nesse sentido, acho que a novela é educativa sim”.

Patrulha às 18h

Marjorie Estiano e Fernanda Vasconcellos em cena de
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Marjorie Estiano e Fernanda Vasconcellos em cena de "A Vida da Gente"

Para o novelista Vitor de Oliveira, a patrulha em cima da novela das 18 horas é injustificada. “‘A Vida da Gente’ é uma novela lindíssima, sensível e bem realizada. Nunca vi nada picante ou apelativo na novela que justificasse a reclassificação”, diz ele.

Mas, se o horário das 18h anda sofrendo patrulhamento, a faixa das 23h não é tão visada – o que levou às famosas “ousadias” de “O Astro” – incluindo a nudez masculina, ainda hoje um tabu muito maior do que a feminina. “Sem dúvida, o horário permitia essas cenas, que nunca foram apelativas”, diz Vitor de Oliveira. "Foram realizadas com muito bom gosto e sempre estiveram no contexto da trama. Sinceramente, o horário até permitia que fossem mais fortes, tanto que a novela foi reclassificada de 16 para 14 anos”.

Ellen Roche e Marco Ricca em cena de
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Ellen Roche e Marco Ricca em cena de "O Astro"

Para Nilson Xavier, a novela “foi mais ousada justamente para mostrar no horário das 23 horas o que não se permitia nos demais horários. E isso sempre chama a atenção, atrai audiência”.

“Os autores Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro sempre nos deram bastante liberdade criativa”, afirma Vitor. “Mas nunca com algum tipo de indicação ‘ouse mais’ ou ‘ouse menos’. A ousadia era sempre na proporção do que o contexto da cena pedia”.

Thiago Fragoso na famosa cena de nudez masculina de
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Thiago Fragoso na famosa cena de nudez masculina de "O Astro"

Público conservador

Em entrevista à revista “Playboy” de julho de 1980, o novelista Gilberto Braga – que estava terminando de escrever “Água Viva”, um imenso sucesso da época – já afirmava: “Mais reacionário do que a censura é o próprio público”.

Vitor desabafa: “Acho que o público encaretou. Novelas de 20 anos atrás eram bem mais avançadas. Basta acompanhar a reprise de ‘Barriga de Aluguel’ no Canal Viva , que tinha cenas de nu masculino em pleno horário das seis, para constatar o retrocesso pelo qual estamos passando”.

Ele ainda cita a minissérie “Labirinto”, de Gilberto Braga, que também teve recente reprise no Canal Viva . “No final dos anos 80 e na década de 90, as produções eram mais livres. Tanto que ‘Labirinto’, de 1998, tinha muito mais cenas de sexo, violência e palavrões que ‘O Astro’ e não sofreu tanto na época com essa patrulha do politicamente correto. Me choca muito mais cenas reais de assaltos, espancamentos e violência em geral exibidas nos telejornais a qualquer hora do dia e da noite. Só a ficção sofre essa patrulha idiota”.

Ellen Roche e Marco Ricca protagonizaram diversas sequências regadas a sexo e sensualidade em
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Ellen Roche e Marco Ricca protagonizaram diversas sequências regadas a sexo e sensualidade em "O Astro"

Na opinião de Nilson Xavier, não houve avanços tão grandes nas “liberdades” da dramaturgia. “Não acho que as novelas estejam mais apelativas do que sempre estiveram, mesmo porque, se fica mais apelativa, o Ministério Público trata de reclassificar. Já existe uma espécie de ‘censura interna’ na emissora, que evita esse tipo de situação. Então, mais ou menos, já se produz a novela sabendo o que pode e o que não pode ir ao ar”.

“Antigamente as novelas sofriam com a censura oficial. Hoje elas sofrem com a censura velada disfarçada de classificação indicativa, que na verdade é impositiva”, opina Vitor.

Enquanto o debate continua, “Fina Estampa” tenta abordar mais um assunto que incomodou alguns: o personagem Leandro ( Rodrigo Simas ) passa a se prostituir com clientes homens. A própria direção da Globo cortou algumas cenas ligadas ao tema, e outras sequências nem sequer foram gravadas.

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"Gabriela" ganha remake da Globo em 2012

Resta aguardar 2012, que pode trazer novos ares liberais – e a grande promessa é a próxima produção das 23h: o remake de “Gabriela”. Se a nova novela decidir ser fiel ao clima picante e erótico do livro de Jorge Amado – e do filme e da novela original, produzidos em 1983 e 1975, respectivamente –, o público pode esperar por mais “ousadias”.

_CSEMBEDTYPE_=inclusion&_PAGENAME_=gente%2FMiGCompLinks_C%2FMiG_Detalhe&_cid_=1597407792610&_c_=MiGCompLinks_C A novela global exibida às 22h em 1975 foi bastante explícita nesse sentido, com direito a cenas de nudez feminina e masculina, insinuações sexuais e um clima libidinoso no ar – que mostra-se latente em uma das cenas mais famosas: a sequência do telhado, quando Gabriela ( Sônia Braga ) sobe no alto de uma casa para resgatar uma singela pipa, enlouquecendo os homens que assistem tudo do chão. Que venha 2012.

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