Reportagem do iG acompanha um dia de ensaio do quadro do Domingão do Faustão

Odilon Wagner treina lambada com Roberta Appratti: eliminatória no domingo
Isabela Kassow
Odilon Wagner treina lambada com Roberta Appratti: eliminatória no domingo

Dançar bem poderia ser o décimo terceiro trabalho de Hércules. Se Hércules fosse Odilon Wagner .

Uma dor que parece cortar a coluna, de ponta a ponta, na altura da lombar. Fisgadas incessantes que não dão trégua por dias. À base de antiinflamatórios, Odilon Wagner persiste nos treinos do quadro “Dança dos Famosos”, do Domingão do Faustão . Ele sabe que não é nada fácil estar ali.

Vários fatores colaboram para que seja árdua e periclitante sua atuação como dançarino no palco do programa. A começar, pela idade: 57 anos. Do elenco absolutamente jovem, além de Odilon, é Roberta Miranda , de 54 anos, quem também destoa do grupo. Nelson Freitas , outro que já não é mais um garotão, ainda segura o ritmo sem forçar o sorriso.

Odilon não é o mais velho participante a tentar entrar no ritmo. Nívea Maria, Rosamaria Murtinho, Francisco Cuoco, Reginaldo Rossi, Ana Maria Braga , Stênio Garcia também já se aventuraram na pista da dança de salão.

Leia entrevista exclusiva com o ator

Com Odilon ainda há a questão da altura: 1,90m. “Você já viu dançarino com mais de um metro e meio? Prazer, sou o primeiro então”, brinca ele. Há noves meses, como se não bastasse, teve uma lesão grave no quadril. Precisou fazer fisioterapia para suportar a fase da recuperação. “É graças a estas sessões de fisioterapia que hoje consigo dançar. Se não fosse assim, não estaria me sacrificando dessa maneira, não teria a menor condição física”, diz ele, acostumado a interpretar vilões e personagens sisudos na TV.

Estudos mostram que aproximadamente 50 por cento da população apresentam mudanças degenerativas na coluna cervical a partir dos 50 anos. Mas, curiosamente, os participantes que abandonaram a competição em edições passadas alegando problemas de saúde são todos bem mais jovens que Odilon. Thiago Fragoso , na segunda temporada; Preta Gil , na terceira; Joana Balaguer , na quinta.

E por que então, mesmo com tantos percalços e um mundaréu de motivos para um retumbante fracasso, ele topou o desafio de rebolar ao vivo no programa, exibindo coreografias que ousam burlar as leis da gravidade? “A primeira reação foi ‘ih, cacilda! Não vou dar conta’. Mas não podia deixar passar esta chance por nada neste mundo, sabia que seria uma experiência e tanto”, diz.

O ator faz uma surpresa para a professora: entrega uma flor que acende com um sopro
Isabela Kassow
O ator faz uma surpresa para a professora: entrega uma flor que acende com um sopro

A dolorida primeira semana

Roberta Appratti , a professora e coreógrafa incumbida de fazer o grandalhão curitibano dançar como quem desliza há anos, saiu da primeira aula aos prantos. “Chorei muito de ver a situação dele, percebi que não iríamos muito longe na competição. Ele não suportaria a carga de treinos, devido às dores que sentia. Fiquei muito desapontada”, conta.

Daquele primeiro treino até agora, Odilon já viu serem eliminados da competição MV Bill , Ellen Roche , Renata Kuerten e Roberta Miranda. Ele, quase que como um Hércules detonando seus adversários, domingo após domingo, persiste bravamente. A auto-estima, que não fazia parte da dupla, agora dita as aulas. “Tenho certeza de que vamos longe. É incrível como ele se supera a cada apresentação. Estou impressionada com a demonstração de garra e vontade. Odilon não quer só aprender a coreografia, quer dançar de verdade. É isso que faz a diferença”, afirma Roberta Appratti, num misto de alívio e satisfação.

No domingo (26), quando acontece a terceira e última eliminação com chance de repescagem, o ritmo será a temida lambada. Temida porque é um dos ritmos que mais exige vigor e força dos participantes homens. Vigor nas pernas, rebolado nos quadris, voltas e giros com os braços, passos rápidos e firmeza dos pés... Isso sem esquecer o sorriso, para que as pessoas que estiverem julgando – e assistindo à apresentação – tenham certeza de que tudo é à base da alegria. Mesmo que essa alegria venha acompanhada de doses generosas de antiinflamatórios.

“Olha para cima. Segura minhas costas um pouco mais em cima, homem. Cadê o sorriso? Sorria!”. Roberta é implacável com o aluno, conforme a reportagem do iG pôde acompanhar durante um dos ensaios . Em certo momento, as mãos dele caem para o bumbum dela. “Que isso? Tira a mão da minha bunda. Esta coreografia não tem beijo na boca, não tem mão na bunda”, zanga a professora, de 23 anos.

“E depois ainda quer que eu dance motivado? Ah, essa não”, replica ele, arrancando risos da equipe da produção que acompanha os ensaios atrás dos espelhos da sala, localizada em dos estúdios do Projac.

Isabela Kassow
"Esta coreografia não tem beijo na boca, não tem mão na bunda", diz Roberta

Os primeiros quinze minutos são sofríveis. Difícil imaginar que dali vai sair algo que se pareça, de longe, com a sensualidade tropical da lambada. Mas logo o desengonçado sujeito de aparência nórdica, começa a se entender com pés. A professora se anima e bate palmas efusivas. “Muito bem, muito bem”. Odilon mantém a concentração, esboçando apenas um rápido sorriso.

Saiba a opinião da professora de Odilon

O ritmo, surgido nos anos setenta no Pará e que se tornou febre na década seguinte por todo o País, é defendido pela dupla com a música “Você não vale nada mas eu gosto de você, um forró estranhamente adaptado ao programa. A produção já cometeu outros deslizes do tipo, ao adaptar letras de pagode para o forró, na semana anterior. O público ficaria bem mais animado se ali estivessem sucessos de Beto Barbosa e Sidney Magal por exemplo, dois dos que defenderam o gênero lambada como ninguém.

Como é a disputa

O quadro está em sua oitava edição e, desde 2005, vem ajudando a alavancar a audiência do dominical da TV Globo. “Strictly Come Dancing” é o nome original do programa exibido pela BBC de Londres, que inspirou a versão brasileira. Doze casais formados por celebridades e seus respectivos pares de professores competem a cada domingo, sendo avaliados por cinco jurados. A platéia também avalia.

A assessoria do programa informa que não há prêmio na disputa, além de um troféu simbólico dado ao primeiro colocado.

Nos três primeiros domingos, o casal que acumula menos pontos tem uma segunda chance, indo a uma repescagem com os demais eliminados. A partir daí, homens e mulheres dançam na mesma noite, até chegar a um só vencedor. Na edição passada, a vencedora foi Fernanda Souza . A única que até hoje conseguiu desbancar os bem dispostos participantes juvenis foi a veterana Christiane Torloni , na quinta edição do quadro, em 2008, quando tinha 51 anos. Odilon, por que não, pode acreditar que é possível ir longe na hercúlea disputa.

No ritmo da lambada

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