"Morde & Assopra" é o mais novo exemplar do gênero, misturando dinossauros e robôs

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Ricardo Yamamoto/TV Globo
Em "Morde & Assopra", Ícaro (Mateus Solano) decide criar uma mulher-robô, trazendo a tecnologia de volta ao horário das 19h



A novela " Morde & Assopra " acaba de estrear no horário das 19h, trazendo uma curiosa mistura em sua trama central: o passado e o futuro - enquanto um núcleo da história procura por fósseis de dinossauros, o protagonista Ícaro ( Mateus Solano ) cria um robô humano, para reviver sua namorada morta. O título provisório da novela, por sinal, era "Dinossauros & Robôs".

Mas esta não é a primeira vez em que a faixa das 19h é invadida por temas ligados a tecnologia, futurismo e vida moderna. Caracterizado por comédias leves, românticas ou na linha pastelão, o horário acaba recebendo, de tempos em tempos, propostas arrojadas que abordam essa temática.

Lídia Brondi contracena com o robô Alcides em
Reprodução/Youtube
Lídia Brondi contracena com o robô Alcides em "Transas & Caretas", de 1984
Foi assim em 1984, com "Transas & Caretas". Escrita por Lauro César Muniz , a trama contava o embate de dois irmãos pelo amor da mesma mulher. Um deles, Jordão ( Reginaldo Faria ), representava o passado: estava sempre de roupa social, era aristocrático, tinha aulas de harpa e residia em uma mansão colonial, com direito a uma mucama ( Zezé Motta ) que o abanava - um detalhe politicamente incorreto. O outro, Thiago ( José Wilker ), era o futuro: vivia num apartamento cibernético, quase o cenário do desenho animado "Os Jetsons", com detalhes futuristas e até um robô, Alcides, como mordomo.

Já na abertura, a novela explorava o "moderno". Enquanto o Trio Los Angeles cantava "Ponha o pé na Lua e descubra que o futuro está perto", um jogo de videogame - da marca Atari, o auge dos brinquedos modernos da época - com dois humanos se desenrolava.

A novela não foi bem de audiência, mostrando que o tema talvez fosse ousado demais para o público dos folhetins, acostumado com tramas mais tradicionais, pelo menos naquele momento. Muitos anos depois, porém, uma nova trama das 19h trazia a tecnologia embutida: "Tempos Modernos", de 2010.

O computador Frank de
TV Globo/Márcio de Souza
O computador Frank de "Tempos Modernos"
Escrita por Bosco Brasil , a novela prometia um clima moderno, já no título, e na ambientação geral - o tecnológico Edifício Titã, construído pelo protagonista Leal ( Antônio Fagundes ), era um dos principais cenários da história.

Havia também o robô Frank, na linha do computador vilão Hal-9000, do filme "2001, Uma Odisseia no Espaço" (1968), e o time de vilões inspirados nos filmes "Matrix": Deodora ( Grazi Massafera ) e Albano ( Guilherme Weber ) lideravam este núcleo.

Novamente a audiência não foi satisfatória, e a novela sofreu diversos ajustes, alterando o clima cibernético inicial, e apelando para atitudes radicais, como desligar o robô Frank, que conversava com Leal.

Agora, com "Morde & Assopra", o horário volta a ter robôs contracenando com atores. O robô Zaringuim é um dos destaques da trama, e ajuda Ícaro a construir Naomi ( Flávia Alessandra ), a tal robô feminina inspirada na namorada que o rapaz perdeu em um acidente de barco.

A criação de Naomi pela direção de arte da novela buscou um visual natural, inspirado na atriz francesa Brigitte Bardot , fugindo do look "andróide" de outros personagens robóticos da ficção, como os robôs do filme "Blade Runner" (1982). A Naomi robô usará até mesmo vestidos comuns e femininos, peças que pertenceram à Naomi original, criando um visual mais cotidiano.

A vilã Deodora (Grazi Massafera) em
Bob Paulino/TV Globo
A vilã Deodora (Grazi Massafera) em "Tempos Modernos", seguindo a linha "Matrix"


Talvez agora o público já esteja preparado para tantas inovações. Em enquete realizada pelo iG , perguntando o que os espectadores acharam da primeira semana de "Morde & Assopra" - que estreou em 21 de março -, 64% responderam que acharam o capítulo ótimo, e que pretendem acompanhar a novela.

Em segundo lugar, com apenas 15%, ficou a resposta "Detestei, achei confuso e chato". Outras duas respostas empataram, com 9%: "Achei meio devagar, mas vou ver as primeiras semanas, para ver se engrena" e "Prefiro as novelas de época do Walcyr Carrasco , do que as modernas". E por fim, 3% escolheram a opção "Parece novela do Carlos Lombardi ".

Mas quando o assunto é tecnologia e avanços científicos, principalmente da medicina, a autora Glória Perez continua imbatível. Em 1990, com "Barriga de Aluguel", ela já abordava esse universo, focalizando as "mães de aluguel", então uma novidade.

No livro "Autores", publicado pela Editora Globo em parceria com a fundação Memória Globo, ela relembra a resistência da emissora com a novela, cuja sinopse original escreveu ainda em 1984. "Aconteceu o costumeiro em relação às minhas tramas: causou polêmica. 'Que história louca, isso não existe', diziam", conta Glória. "Tiveram medo. 'Barriga de Aluguel' ficou seis anos engavetada, sob a acusação de ser ficção científica".

Albieri (Juca de Oliveira), o cientista que realiza a clonagem humana em
João Miguel Júnior/Divulgação Globo
Albieri (Juca de Oliveira), o cientista que realiza a clonagem humana em "O Clone"


A autora também falou de transplante de órgãos - em "De Corpo e Alma" (92/93) -, namoro por internet - em "Explode Coração" (95/96) -, clonagem humana - em "O Clone" (01/02). Mas sempre tomando a precaução de cozinhar tais temas, modernos, com o clima folhetinesco tradicional que vem desde as novelas de rádio: o dramalhão do amor impossível, a luta de classes sociais, conflitos familiares...

"Tenho uma grande fascinação pelo novo. Gosto de ficar imaginando para onde o mundo vai, que novos tipos de drama serão vividos pelas gerações futuras em função dos avanços tecnológicos", diz Glória no livro. "Como vai ser quando alguém puder construir uma casa na Lua ou se conhecer no espaço? Tudo o que eu vejo, o que eu vivo, o que eu sonho, meu mundo, meu tempo, fazem parte do meu universo ficcional".

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