Confira a lista criada por Boni e entenda a o porquê de cada obra ter sido tão marcante na dramaturgia brasileira

As dez melhores novelas já produzidas pela TV brasileira. Definir quais são essas obras foi a intenção de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho , o Boni , lendário produtor da TV Globo durante três décadas. Atualmente lançando sua autobiografia, "O Livro do Boni", na qual conta sua impressões e registros do tempo na emissora, Boni concedeu uma entrevista para o canal Globo News - onde comentou porque escolheu cada uma das dez novelas da lista.

Entre as eleitas, quatro foram escritas por Janete Clair; Gilberto Braga foi o autor de duas - uma delas, trabalhando ao lado de Aguinaldo Silva . Aguinaldo, por sua vez, foi citado ainda em uma novela escrita com Dias Gomes , e outra sozinho. Sílvio de Abreu e Benedito Ruy Barbosa completam a lista com uma novela cada.

Cinco obras foram produzidas na década de 70, três nos anos 80, e duas na década de 90. E todas foram exibidas no horário das 20h. Cinco delas já ganharam remakes. Descubra a seguir quais são as dez preferidas de Boni, e a importância histórica, política e cultural de cada uma.

1 - Roque Santeiro, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva (1985/86)

Yoná Magalhães, Cláudio Cavalcanti, Regina Duarte, José Wilker e Lima Duarte em
Divulgação/Canal Viva
Yoná Magalhães, Cláudio Cavalcanti, Regina Duarte, José Wilker e Lima Duarte em "Roque Santeiro"

Sinopse: Roque Santeiro ( José Wilker ) retorna à cidadezinha de Asa Branca, 17 anos após ser dado como morto. Roque é considerado santo milagroso na região, e sua volta ameaça os poderosos da cidade.

Contexto histórico: A novela havia sido proibida em 1975, após ter 30 capítulos gravados. O motivo: Dias Gomes tentou adaptar para a TV sua peça teatral "O Berço do Herói", proibida pela censura em 1965. A censura descobriu o plano e vetou a novela. Em 1985, dez anos depois de ter sido engavetada, a obra foi finalmente realizada. "Roque Santeiro" estreou em junho e simbolizou a fase da Nova República, com o fim da ditadura militar no Brasil - em março, José Sarney tomara posse como presidente, encerrando o ciclo de 21 anos de militares no poder.

Repercussão: "Roque Santeiro" foi um sucesso avassalador no país inteiro. Praticamente todos os personagens lançaram modas e bordões, e a novela fez parte do cotidiano do Brasil de forma impressionante. Personagens como a Viúva Porcina ( Regina Duarte ) e Sinhozinho Malta ( Lima Duarte ) nunca foram esquecidos. "Roque Santeiro" foi lançada em DVD e está sendo reprisada no Canal Viva .

2 – Irmãos Coragem, de Janete Clair (1970/71)

Glória Menezes e Tarcísio Meira em
Reprodução
Glória Menezes e Tarcísio Meira em "Irmãos Coragem"

Sinopse: A luta dos irmãos João, Jerônimo e Duda ( Tarcísio Meira, Cláudio Cavalcanti e Cláudio Marzo ) para vencer a dominação do Coronel Pedro Barros ( Gilberto Martinho ) na zona mineradora de Coroado, interior de Goiás. João encontra um enorme diamante, fato que vai desencadear a trama.

Contexto histórico: O Brasil entrava na fase mais pesada da ditadura militar, com as torturas e as mortes no seu auge, período em que o país foi governado pelo General Médici . Ao mesmo tempo, em julho de 70 - quando a novela estreou -, o Brasil tornou-se tricampeão na Copa do Mundo no México. Diante disso, a Globo vinha com uma novela envolvente, que misturava faroeste, romance e futebol - receita para alienar o povo, segundo alguns. Mas, por incrível que pareça, através da luta dos Coragem contra Pedro Barros, a autora Janete Clair conseguia, disfarçadamente, retratar simbolicamente a guerra dos militantes esquerdistas contra o governo militar. Pedro Barros era arbitrário, cruel, quase desumano - como os governantes militares da vida real.

Repercussão: Foi a primeira novela da Globo a atingir, de fato, todo o Brasil. O país ficou viciado pela obra, que durou um ano no ar. É considerada o primeiro marco da liderança nacional que a emissora teria a partir dali. Um episódio lembrado por Boni - e também por Daniel Filho , diretor da novela, em seu livro "Antes que me Esqueçam" - é emblemático: durante uma procissão de barcos na Bahia, a multidão reconheceu Tarcísio Meira com Boni e Daniel Filho assistindo ao evento. E começou a cantar o tema de abertura da novela: "Irmão, é preciso coragem...", levando o trio às lágrimas. Em 1995, a Globo produziu um remake da novela.

3 - Selva de Pedra, de Janete Clair (1972/73)

Regina Duarte, Francisco Cuoco e Dina Sfat em
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Regina Duarte, Francisco Cuoco e Dina Sfat em "Selva de Pedra"

Sinopse: O romance entre Simone (Regina Duarte) e Cristiano ( Francisco Cuoco ), tumultuado pelos perigos da cidade grande: ambição, dinheiro, poder, convenções sociais. Os vilões Miro ( Carlos Vereza ) e Fernanda ( Dina Sfat ) são os principais responsáveis pelos infortúnios do jovem casal.

Contexto histórico: "Selva de Pedra" atingiu um clímax inédito: 100% de audiência no capítulo em que Rosana Reis (Regina Duarte) é desmascarada, revelando que ela era, na verdade, Simone. A obra foi ao ar no período conhecido como "milagre brasileiro" - quando surgiu a ilusão de que o Brasil saía da crise econômica, e o consumo era incentivado pelo governo militar; mais uma estratégia para jogar fumaça no clima violento da ditadura de então.

Repercussão: A novela foi outra febre nacional. Há registros apontando que um excesso de bebês masculinos nascidos em 1972 e 1973 foram batizados com o nome de Cristiano, efeito do sucesso da trama. Regina Duarte e Francisco Cuoco tornaram-se os grandes astros da TV brasileira, ao lado do casal Tarcísio Meira e Glória Menezes . Em 1986, a Globo produziu um remake da novela.

4 – Pecado Capital, de Janete Clair (1975/76

Betty Faria e Francisco Cuoco em
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Betty Faria e Francisco Cuoco em "Pecado Capital"
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Sinopse: O motorista de táxi Carlão (Francisco Cuoco) encontra em seu carro uma mala repleta de milhões, fruto de um assalto a banco. Em dúvida sobre entregar a mala à polícia ou se apossar do dinheiro, Carlão decide ficar com a fortuna. O motivo: ele quer reconquistar a ex-noiva, Lucinha ( Betty Faria ), agora envolvida com o empresário Salviano Lisboa (Lima Duarte). A ascensão de Lucinha acompanha a decadência de Carlão, que termina morto, vítima da própria ambição.

Contexto histórico: "Pecado Capital" foi escrita às pressas por Janete, para substituir "Roque Santeiro", que fora proibida pela censura. Enquanto a autora escrevia, a Globo colocou no ar uma reprise compacta de "Selva de Pedra". "Pecado Capital" marca a metade da década de 70, e se atrevia a criar um protagonista anti herói: Carlão era humano, e cheio de defeitos, fugindo do padrão de bom moço que vigorava.

Repercussão: Mais um sucesso avassalador. A novela conquistou o Brasil, que torceu pelo amor entre Lucinha e Salviano, sem deixar de querer um final feliz para Carlão. A morte do protagonista surpreendeu e chocou os telespectadores. Em 1998, a Globo produziu um remake da novela.

5 – Dancin' Days", de Gilberto Braga (1978/79)

Sônia Braga em cena de
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Sônia Braga em cena de "Dancin' Days"

Sinopse: Júlia Matos ( Sônia Braga ) sai da prisão após 11 anos, e tenta conquistar o amor da filha adolescente, Marisa ( Glória Pires ). Mas a irmã de Júlia, a socialite Yolanda Pratini ( Joana Fomm ), que criou a sobrinha, faz de tudo para impedir a aproximação de mãe e filha.

Contexto histórico: Final da década de 70. No Brasil e no mundo, a febre das discotecas contagiava a todos, injetando euforia em todas as classes sociais. Era o clímax de uma fase hedonista e de libertação, com as drogas e a liberdade sexual no seu auge. Não por acaso, em 1979 o Brasil ganharia a anistia política, recebendo de volta os exilados expulsos ou fugidos durante a fase mais terrível da ditadura. "Dancin' Days" simbolizou todo esse clima e marcou para sempre uma época.

Leia também: Os personagens que ditaram moda com seus looks

Repercussão: A novela lançou inúmeras modas. Meias de lúrex com sandálias de salto, roupas coloridas e brilhantes, penteados, músicas, perfumes, brinquedos... A penetração de "Dancin' Days" no cotidiano nacional foi intensa, como retratou o filme "Novela das Oito" (2011). Até hoje, é uma das tramas mais cultuadas da história da TV. A novela acaba de ser lançada em DVD .

6 - Tieta, de Aguinaldo Silva (1989/90)

Joana Fomm, Cássio Gabus Mendes e Betty Faria em
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Joana Fomm, Cássio Gabus Mendes e Betty Faria em "Tieta"

Sinopse: Tieta (Betty Faria) volta à sua cidade natal, anos após ter sido expulsa pelo pai. Agora Tieta é rica, mas o que ninguém sabe é a origem de seu dinheiro: ela enriqueceu comandando um prostíbulo. A volta de Tieta tumultua a região, interferindo na vida de todos, principalmente de sua interesseira irmã, Perpétua (Joana Fomm).

Contexto histórico: Após o sucesso de "Roque Santeiro", Aguinaldo Silva baseou-se no livro "Tieta do Agreste", de Jorge Amado , para criar uma novela picante e cômica, repleta de personagens insólitos, bordões e gags humorísticas. No final dos anos 80 e início dos 90, começava o clima erótico e brejeiro que teria força nos anos 90, em novelas como "Pantanal" (1990).

Repercussão: Segundo Boni, "Tieta" é a novela de maior audiência da história da TV Globo. Bordões como "Mistério!", "U-U!" e "Nos trinques!" caíram na boca do povo brasileiro. Na linha inaugurada por "Roque Santeiro", "Tieta" daria origem ainda a inúmeras novelas semelhantes do autor, como "Pedra Sobre Pedra" (1992), "Fera Ferida" (1993) e "A Indomada" (1997).

7 – Vale Tudo, de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères (1988/89)

Glória Pires e Regina Duarte em
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Glória Pires e Regina Duarte em "Vale Tudo"

Sinopse: A honesta Raquel (Regina Duarte) vive um duelo com a filha, a ambiciosa e desonesta Fátima (Glória Pires). Fátima vende a casa da família e foge para o Rio de Janeiro. Raquel vai atrás dela, passa a vender sanduíches na praia e torna-se dona de uma rede de restaurantes, enquanto Fátima dá o golpe do baú.

Contexto histórico: Vale a pena ser honesto no Brasil? Essa era a premissa da novela, apresentando personagens que optavam pela honestidade, enquanto outros preferiam levar vantagem em tudo. Raquel e Fátima simbolizavam esses dois extremos. Era o fim dos anos 80, com o cenário brasileiro mais uma vez desgastado por crises econômicas, corrupção, miséria e desigualdade social. A música tema, "Brasil", de Cazuza , abria a novela na voz de Gal Costa , denunciando o limite da situação.

Repercussão: O país se envolveu nas discussões propostas pela novela. Praticamente todos os personagens tornaram-se inesquecíveis, como a alcoólatra Heleninha ( Renata Sorrah ) e a produtora de modas Solange Duprat ( Lídia Brondi ). O desfecho marcou época: Fátima se casa com um príncipe italiano ( Marcos Manzano ), levando na bagagem seu amante, César Ribeiro ( Carlos Alberto Riccelli ), que também era amante do príncipe. O corrupto Marco Aurélio ( Reginaldo Faria ) foge do país, dando uma banana para o Brasil, e levando na bagagem a esposa, Leila ( Cássia Kiss ) - a autora do crime mais famoso das novelas: matou a monstruosa vilã Odete Roitman ( Beatriz Segall ). "Vale Tudo" ganhou remake para o mercado latino dos EUA em 2002. Entre 2010 e 2011, foi reprisada no Canal Viva, tornando-se a maior audiência da TV paga no período.

Leia também: Mulheres que matam - as assassinas das novelas

8 – O Astro, de Janete Clair (1977/78)

Francisco Cuoco com o famoso look, e com Dina Sfat, em
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Francisco Cuoco com o famoso look, e com Dina Sfat, em "O Astro"

Sinopse: A escalada social de Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco), golpista que se disfarça de vidente em uma churrascaria do subúrbio carioca. Ele se aproxima da milionária família Hayalla, e penetra no poderoso grupo empresarial do clã. A morte do patriarca Salomão ( Dionísio Azevedo ) desencadeia a trama.

Contexto histórico: A ideia de Janete era retratar a trajetória de Luiz Lope Rega , conhecido como "El Brujo", ex-ministro do bem estar social da Argentina. Mas a censura vetou o tema. O desfecho, porém, teve ligação com o caso: Herculano reaparece como figura poderosa no governo de um misterioso país da América Latina.

Repercussão: Um grande sucesso, que fez o Brasil parar com a pergunta "Quem Matou Salomão Hayalla?", inaugurando a interminável moda de crimes nas novelas. O visual de Herculano como vidente, com o turbante azul turquesa e a maquiagem oriental, marcou tanto que foi resgatado no recente remake da obra , em 2011. "O Astro" foi mais uma febre que dominou o país, a ponto do poeta Carlos Drummond de Andrade escrever, em sua coluna no jornal: "Agora que 'O Astro' acabou, vamos tratar da vida, que o Brasil está lá fora esperando". A proposta do mineiro não vingou, pois a novela que substituiu "O Astro" foi ainda mais dominadora: "Dancin' Days".

Veja também: Quem é quem nos remakes

9 – Renascer, de Benedito Ruy Barbosa (1993) _CSEMBEDTYPE_=inclusion&_PAGENAME_=gente%2FMiGComponente_C%2FConteudoRelacionadoFoto&_cid_=1597390828994 &_c_=MiGComponente_C

Sinopse: A saga de José Inocêncio ( Antônio Fagundes ), que ergue um império do cacau em Ilhéus, Bahia. Apaixonado pela esposa Maria Santa ( Patrícia França ), tem quatro filhos com ela. Mas a mulher morre no parto do último, fazendo com que o pai rejeite o caçula, João Pedro ( Marcos Palmeira ). No futuro, pai e filho disputarão a mesma mulher.

Contexto histórico: Nos anos 90, ganharam força as extensas sagas sertanejas ou interioranas na TV, com ritmo cinematográfico e fotografia deslumbrante. "Renascer" foi o auge do estilo, inaugurado pelo próprio Benedito com "Pantanal" (1990), na TV Manchete.

Repercussão: Foi a primeira vez em que Benedito ganhou o horário das 20h na Globo. A novela lançou Leonardo Vieira - que encarnou José Inocêncio na primeira fase - e Patrícia França, imediatamente alçados ao posto de astros da TV. O misticismo da trama - como a lenda de que o protagonista cria um diabo dentro de uma garrafa - fez sucesso.

10 – A Próxima Vítima, de Silvio de Abreu (1995) _CSEMBEDTYPE_=inclusion&_PAGENAME_=gente%2FMiGComponente_C%2FConteudoRelacionadoFoto&_cid_=1597390830129 &_c_=MiGComponente_C

Sinopse: Um serial killer vai eliminando diversas pessoas. Antes de morrer, cada vítima recebe uma lista com o horóscopo chinês. Em meio aos crimes, acontece a decadência da família Ferreto, e o triângulo amoroso entre Juca ( Tony Ramos ), Ana ( Susana Vieira ) e Marcelo (José Wilker).

Contexto histórico: Em plena metade dos anos 90, Sílvio de Abreu criou uma novela onde, pela primeira vez, o suspense policial era a espinha dorsal, e todas as tramas estavam subordinadas aos crimes. O público tinha de adivinhar quem matava, e também quem seria o próximo a morrer. A novela foi mais uma experiência de se tentar inovar o gênero da teledramaturgia, como outras produções dos anos 90.

Leia também: Os novelistas serial killers

Repercussão: Na reta final, a novela conseguiu virar assunto nacional, com o público aguardando a revelação do assassino: Adalberto ( Cecil Thiré ), pai de outro grande monstro da história - a vilã Isabela ( Cláudia Ohana ), em marcante interpretação. Outros finais gravados - e exibidos em Portugal e na reprise brasileira - mostraram assassinos diferentes: Bruno ( Alexandre Borges ) e Ulisses ( Otávio Augusto ). "A Próxima Vítima" pode ser considerada a última grande novela da era de ouro da TV brasileira, que vigorou nas décadas de 70, 80 e parte dos 90.

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