Seriado que marcou época na TV está no ar no Canal Viva

No mês de maio, o Canal Viva comemora um ano de vida com uma programação salpicada de atrações especiais. Todas elas, reprises de clássicos da teledramaturgia da TV Globo, como a minissérie “Anos Dourados” (86) . Outro grande trunfo que volta ao ar é o inesquecível seriado “Armação Ilimitada” (85/88), que está sendo exibido aos domingos, às 19h15, desde 1º de maio, com reprise às quintas-feiras, às 22h – para alegria de nostálgicos que acompanharam, nos anos 1980, o programa que até hoje permanece como um dos mais modernos que a Globo já produziu.

Juba, Lula, Zelda e Bacana em
Bazílio Calazans / Viva
Juba, Lula, Zelda e Bacana em "Armação Ilimitada"
A pré-história da série

Tudo começou nos anos 1970, no Rio de Janeiro. Havia um cineasta amazonense, Antonio Calmon , oriundo do já antiquado Cinema Novo da década de 1960. Havia um jovem surfista e ator de longos cabelos louros chamado André DeBiase – sim, ele tinha cabelo. Calmon vinha se interessando em produzir um cinema jovem, pop, que representasse a juventude brasileira. Biase tinha um argumento sobre a história de um surfista romântico. Do encontro entre os dois, que já haviam trabalhado juntos em outros filmes de Calmon, como “Nos Embalos de Ipanema” (1978) e “Terror e Êxtase” (1980), nasceu o longa “Menino do Rio” (1981).

O filme foi um estouro de bilheteria nos cinemas. Contava o romance entre Valente (Biase), o tal surfista, e Patrícia (interpretada pela falecida atriz Cláudia Magno ), uma riquinha esnobe que deve ter inspirado a gíria “patricinha”. No elenco, figuras como Evandro Mesquita (antes de estourar como vocalista da Blitz ), Sérgio Mallandro (antes de virar calouro de Sílvio Santos ), Cissa Guimarães (antes de ingressar na Globo), Ricardo Graça Mello (filho de Marília Pêra ) e Cláudia Ohana , entre outros. A trilha sonora trazia pérolas de Lulu Santos , Rádio Táxi e Gang 90 . Todo o clima da juventude brasileira do início dos anos 80 foi perfeitamente imortalizado pelo filme. E com tamanho sucesso que gerou uma continuação, dois anos depois.

“Garota Dourada” (1983), porém, fracassou nas bilheterias. O elenco tinha novos astros jovens como Andréa Beltrão, Roberto Bataglin e Bianca Byngton , e na trilha sonora Ritchie , Léo Jayme e Guilherme Arantes . Mas apesar de repetir todos os ingredientes que no outro filme deram certo, desta vez a empreitada não foi bem-sucedida.

Migrando para a TV

Kadu Moliterno e André DeBiase na primeira fase do seriado
Bazílio Calazans / Viva
Kadu Moliterno e André DeBiase na primeira fase do seriado


Mas André DeBiase não desanimou. Nos corredores da TV Globo, o ator encontrou um colega amante do surf, Kadu Moliterno . Os dois atuavam juntos na novela “Partido Alto” (1984, de Aguinaldo Silva e Glória Perez ) e resolveram transportar para a telinha o universo de surfe, asa-delta, esportes radicais, rock nacional e romance praieiro que os dois filmes tinham mostrado na telona. Calmon foi chamado para elaborar o projeto, e Daniel Filho entregou a direção nas mãos de um jovem diretor que acabara de assinar algumas novelas das 19h no estilo pastelão. Seu nome: Guel Arraes .

A ideia era contar a relação insólita entre uma jornalista meio intelectual e dois amigos, sócios na firma Armação Ilimitada. Kadu e DeBiase seriam os dois rapazes, mas... quem poderia interpretar a garota?

André DeBiase, Andréa Beltrão e Kadu Moliterno
Bazílio Calazans / Viva
André DeBiase, Andréa Beltrão e Kadu Moliterno
Diversas modelos foram testadas para o papel, entre elas a principal pin-up da época, Márcia Porto . As modelos eram esculturais, mas na hora de abrir a boca... faltava alguma coisa. Até que alguém se lembrou da atriz Andréa Beltrão , que tinha atuado em “Garota Dourada”, e estava no elenco da novela “Corpo a Corpo” (1984/85). Ela fez o teste e ganhou o papel de Zelda Maria Scott.

Assim, em abril de 1985, ia ao ar no programa Sexta Super o episódio piloto da série, batizado de “Um Triângulo de Bermudas”. No primeiro episódio, Juba (Kadu) e Lula (DeBiase) conhecem a intrépida jornalista Zelda Scott (Andréa) e passam a disputar o amor da moça. Nesse piloto já aparecem também os outros personagens fixos da série: o menino Bacana ( Jonas Torres , que tinha acabado de interpretar o filho de Lucélia Santos na novela “Vereda Tropical” – 1984/85), a melhor amiga de Zel, Ronalda Cristina ( Catarina Abdalla ), o histérico Chefe de Zel no jornal Correio do Crepúsculo ( Francisco Milani ), e a radialista Black Boy ( Nara Gil ), uma mistura de rapper com DJ, que comentava os fatos da história dentro do estúdio da rádio.

Os amigos travam um verdadeiro duelo para ver quem fica com Zelda, mas após uma corrida de motocross onde Lula é dado como morto, o clima pesa. Juba se arrepende de ter disputado com o amigo. Todos ficam consternados até que Lula reaparece milagrosamente. O desfecho é intrigante: afinal, com quem Zel terminou?

Nos episódios seguintes confirmou-se o que ficou no ar ao fim do primeiro: Zelda Scott passou a manter um romance com os dois ao mesmo tempo. Juba e Lula dividiam o trabalho na firma, os lucros e... a namorada.

Algo de novo no ar

O trio Juba, Lula e o pequeno Bacana
Bazílio Calazans / Viva
O trio Juba, Lula e o pequeno Bacana
Logo no primeiro episódio já apareciam características que se tornariam marcantes na série. A influência dos videoclipes, através da edição nervosa e acelerada, que deixou os menos treinados atônitos com a velocidade da informação exibida. A inspiração no universo dos quadrinhos, tanto no comportamento dos personagens, que muitas vezes mostravam-se ensandecidos (o exemplo mais forte é o Chefe), como no visual – uso de balões para exibir o pensamento do personagem, ou a divisão da tela em quadros. Outro elemento vital era a celebração dos esportes radicais: muito surfe, asa-delta, motocross, canoagem – Juba e Lula eram exemplos típicos da geração saúde. Tudo isso serviu para classificar a série como um programa para a juventude – afinal, os “coroas” não acompanhavam direito o ritmo, e acabavam “boiando”.

A ousadia da história era de certa forma espantosa. Afinal, em plena metade dos anos 1980, com o fantasma da Aids começando a apavorar todo mundo, a TV se atrevia a mostrar um ménage-a-tróis acompanhado de perto por uma criança precoce. Mas ninguém reclamou, pelo contrário. Todo mundo adorou o dia-a-dia de Juba e Lula, sempre correndo atrás de “grana”, ajudados pelo pivete Bacana, e as agruras de Zel, sempre atormentada pelas exigências absurdas do neurótico Chefe.

O sucesso foi imediato e a “Armação” caiu nas graças da Globo. Se no primeiro ano a série era mensal, no segundo já virava quinzenal. O programa lançou modas, músicas, costumes, e influenciou o jeito de fazer TV – principalmente na edição. O ritmo vertiginoso da série passou a ser referência quando se queria fazer algo “moderno”. De tão copiado, o estilo tornou-se gasto. Hoje, qualquer novela que se preze tem um ritmo bem mais picotado do que as novelas do passado. “Armação” fez escola, gerando inúmeros “herdeiros”, como os humorísticos “TV Pirata” (1988/90), “Casseta & Planeta Urgente” (1992/2010) e a “Comédia da Vida Privada” (1995/97).

Um time imbatível

Mas qual era o segredo da série? Um deles, o fato de reunir grandes talentos. No roteiro dos episódios, craques como Vicente Pereira, Patrícia Travassos, Mauro Rasi e o próprio Calmon, além da direção inovadora de Guel Arraes, muitas vezes inspirada também em grandes momentos do cinema.

E o elenco, claro. Andréa Beltrão se consagrou como Zelda Scott, que até hoje é um de seus papéis mais marcantes. Um grande destaque foi o trabalho do ator mirim Jonas Torres, que aos poucos foi refinando seu estilo até transformar o menor abandonado Bacana num primor de ironia, deboche e intimidade com o público. Quem não se lembra de bordões eternizados pelo guri, como “Oh, céus!” e o clássico “Ai, meu saquinho!”

André DeBiase, Andréa Beltrão, Kadu Moliterno e Jonas Torres na fase final do seriado
Bazílio Calazans / Viva
André DeBiase, Andréa Beltrão, Kadu Moliterno e Jonas Torres na fase final do seriado


Outro trunfo era a presença do Chefe, um personagem surrealista que levava situações ao pé da letra: se Zel dizia que o Chefe estava no fundo do poço, automaticamente surgia um poço no meio do escritório, e lá estava o Chefe berrando; ou quando ele dizia que estava “despachando”, Zel entrava no escritório e encontrava o local transformado num terreiro de umbanda.

Mais bizarrices: no terceiro ano da série, surgia um novo personagem, Zeldinha Cristina, a filha de Ronalda com um E.T., que vivia no carrinho de bebê e depois acabou aparecendo – era um boneco meio assustador, no estilo do Mestre Yoda de “Star Wars”.

O elenco convidado para cada episódio dava um show à parte. Débora Bloch satirizou o enlatado americano “Dama de Ouro”, que a Globo exibia na época, ao encarnar a durona Kate Machoney, no episódio “A Dama de Couro”. Em “Vida de Tiete”, Miguel Falabella foi o afeminado e histérico roqueiro Telvis, assessorado pela secretária Vera Cobra ( Scarlet Moon ). Falabella voltou no episódio “O Fantasma do Rock”, uma sátira à clássica história do Fantasma da Ópera, onde interpretou um empresário da música, dono de uma boate gótica que era palco de misteriosos assassinatos.

Outros atores convidados marcaram presença na história da série, como Regina Casé , Diogo Vilela , Evandro Mesquita , Paulo César Pereio e Carla Camurati , entre outros.

Enfim, cores da new wave, pop rock nacional, aventuras radicais em plena Nova República, em meio ao Plano Cruzado do governo Sarney, uma inflação galopante que apavorava o país, e a eterna crise financeira do Brasil.

A transformação

Juba (Moliterno) e Lula (DeBiase): programa próprio após o fim da série
Bazílio Calazans / Viva
Juba (Moliterno) e Lula (DeBiase): programa próprio após o fim da série


Com o passar do tempo, a série foi mergulhando mais fundo na proposta de buscar um novo estilo de se fazer humor na TV. Se no primeiro ano os episódios tinham um caráter romântico, ainda com alguma influência do cinema francês da nouvelle vague, no segundo as coisas enlouqueceram de vez. O ritmo tornou-se ainda mais ágil e direto, e o humor mais corrosivo e escrachado. Zelda Scott foi aos poucos ficando mais histérica e mais parecida com personagens de desenho animado. As histórias também se aproximaram bastante dos quadrinhos e dos cartoons, criando tipos cada vez mais bizarros.

O resultado foi um show de criatividade na tela, mas ao final de 1987, terceiro ano da série, a fórmula já estava se desgastando. A equipe buscava novos caminhos e a solução mais provável era partir de vez para o deboche sem pudores e sem limites. Só que a trama básica de “Armação” não permitia ir além do que já fora.

Assim, em 1988 o programa iniciou seu quarto e último ano de vida. Foi o ano mais fraco da série, e teve apenas quatro episódios – o último nem chegou a ir ao ar. Chegava ao fim um dos programas mais importantes da história da TV brasileira, embora nem sempre isso seja lembrado.

A dupla André DeBiase-Kadu Moliterno tentou levar adiante a grife Juba & Lula, lançando um LP com regravações de canções dos Beach Boys , e um programa infanto-juvenil estilo game-show, “Juba & Lula”, que foi ar na Globo em 1989, mas sem muita repercussão.

O interesse pelo universo da série já tinha migrado para outro programa, não por acaso escrito, produzido e dirigido praticamente pela mesma equipe da “Armação”. Um programa que estreou na Globo em abril de 1988 e que a partir dali também marcou época. Seu nome? “TV Pirata”. Para conferir, basta assistir – “TV Pirata” também está no ar no Canal Viva, à meia-noite, aos sábados.

Quanto ao autor Antônio Calmon, ele migrou para as novelas, escrevendo sucessos como "Top Model" (1989/90) e "Vamp" (1991/92, também em reprise no Canal Viva atualmente).

Do elenco principal, Kadu Moliterno continua atuando em novelas globais. André DeBiase sumiu das telas por alguns anos, mas retornou em "Malhação", na Globo, e "Ribeirão do Tempo", na Record. Jonas Torres abandonou a carreira, voltando em esporádicas atuações na TV e no teatro. E Andréa Beltrão consolidou sua carreira como atriz de cinema, teatro e TV - com presença forte no humor da TV Globo, onde estrela atualmente a sitcom "Tapas & Beijos".

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