Minissérie global de 1992 sobre a ditadura militar é reprisada enquanto o SBT exibe novela sobre o mesmo tema

Dando continuidade às suas comemorações de um ano no ar, o Canal Viva (da TV por assinatura) exibe a minissérie “Anos Rebeldes”, cujo tema é a ditadura militar no Brasil. Enquanto isso, o SBT segue com a novela “Amor & Revolução” , sobre o mesmo assunto.

Cássio Gabus Mendes e Malu Mader em
Divulgação/Viva
Cássio Gabus Mendes e Malu Mader em "Anos Rebeldes"


História

“Anos Rebeldes” foi exibida originalmente em agosto de 1992. Escrita por Gilberto Braga , era uma espécie de continuação de “Anos Dourados”, do mesmo autor, exibida pela Globo em 1986 e que o Canal Viva também reprisou agora – “Anos Rebeldes” estreia no Viva na segunda-feira (30), na sequência de “Anos Dourados”, que termina na sexta-feira (27).

A ideia era focalizar o período da ditadura, uma fase que se seguiu à inocência e ingenuidade dos “anos dourados” dos anos 50. Para tanto, Gilberto inicia a história em 1964, às vésperas do Golpe Militar de 31 de março – fato que instalaria no país a ditadura, que iria vigorar até 1985.

Maria Lúcia ( Malu Mader , também protagonista de “Anos Dourados”) é uma estudante do segundo grau, que se apaixona pelo colega João Alfredo ( Cássio Gabus Mendes ). Mas o rapaz é obcecado por política, e se aproxima de Maria Lúcia para fazer amizade com o pai dela, Damasceno ( Geraldo Del Rey ), um veterano jornalista e adepto do comunismo.

Maria Lúcia (Malu Mader) se apaixona por João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) em
Divulgação/Viva
Maria Lúcia (Malu Mader) se apaixona por João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) em "Anos Rebeldes"


Com o surgimento da ditadura militar, o clima fica tenso no país, e o namoro do casal central passa a sofrer a influência desse panorama político. Maria Lúcia quer ter uma vida comum, se casar, ter filhos e não se envolver com política. João Alfredo é o oposto: rebelde, inquieto e inconformado, envolve-se com o movimento estudantil e chega a entrar para a luta armada, quando a ditadura torna-se mais pesada, a partir de 1968.

Destaques

Cláudia Abreu como Heloísa em
Divulgação/Viva
Cláudia Abreu como Heloísa em "Anos Rebeldes"


Ao redor da dupla, gravitam os personagens que ajudam a compor esse retrato histórico. Heloísa ( Cláudia Abreu ) é a garota riquinha e alienada, interessada em rapazes, carrões e festas, e decidida a perder a virgindade antes de se casar – uma personagem semelhante à Rosemary ( Isabela Garcia ) de “Anos Dourados”.

Galeno ( Pedro Cardoso ) se envolve com a efervescente cultura brasileira da época, tornando-se produtor teatral, musical, e por fim autor de novelas – uma referência ao próprio autor Gilberto Braga. Galeno também pode ser considerado uma continuação de Urubu, personagem de Taumaturgo Ferreira em "Anos Dourados".

E Edgar ( Marcelo Serrado ) era o rapaz comportado, o melhor amigo de João Alfredo, eternamente apaixonado por Maria Lúcia, com quem se casa.

Pedro Cardoso como Galeno, ao lado de Cássio Gabus Mendes
Divulgação/Viva
Pedro Cardoso como Galeno, ao lado de Cássio Gabus Mendes


A minissérie consagrou definitivamente Cláudia Abreu, que vinha de algumas novelas na Globo. Mas foi interpretando Heloísa – que ao longo da história se transforma, deixando de lado as futilidades e embarcando na guerrilha – que a atriz passou para o primeiro time de astros globais.

Cássio Gabus e Marcelo Serrado (Edgar)
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Cássio Gabus e Marcelo Serrado (Edgar)
Pedro Cardoso também foi destaque na série, criando um personagem divertido e ao mesmo tempo melancólico, que não se envolvia diretamente com política, mas estava fazendo política através da arte – e passou até por uma fase hippie radical.

Estreando como atriz, a então modelo Betty Lago também chamou a atenção. Ela era Natália, a frustrada esposa do empresário vilão Fábio ( José Wilker ), ambos pais de Heloísa. Natália passa a ter um caso com o Professor Avellar ( Kadu Moliterno ), e a atuação de Betty, embora inexperiente, foi um dos charmes da série.

Outros destaques: o trabalho de Deborah Evelyn como a militante Sandra, Rubens Caribé – estreando na TV – como o militante Marcelo, que se torna namorado de Heloísa, e Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), que protagoniza algumas cenas emocionantes.

Betty Lago estreava como atriz, no papel de Natália
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Betty Lago estreava como atriz, no papel de Natália


Impeachment de Collor

Mas o grande fato que elevou “Anos Rebeldes” a um patamar importante aconteceu fora das telas. Em agosto de 1992, cresciam a cada dia as acusações de corrupção contra o então presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello , e sua equipe.

Acuado pela opinião pública, Collor caminhava para o impeachment, e de repente os estudantes brasileiros deram um “empurrão”. Inspirados pelas passeatas estudantis exibidas em “Anos Rebeldes”, estudantes do colégio carioca Pedro II saíram às ruas do Rio de Janeiro com os rostos pintados de verde e amarelo protestando contra Collor.

José Wilker como Fábio, empresário que apoiava o Golpe Militar
Divulgação/Viva
José Wilker como Fábio, empresário que apoiava o Golpe Militar
Outras capitais brasileiras imitaram o ato, e assim estudantes de todo o Brasil realizaram passeatas pedindo a expulsão do presidente, sempre com os rostos pintados, e gritando “Fora Collor”. Nascia ali o movimento dos “caras-pintadas”, última manifestação política importante dos jovens do país.

O resultado é que, influenciada ou não pela série, pelas passeatas e pela insatisfação geral, a Câmara dos Deputados votou a favor do impeachment de Collor, em 29 de setembro de 1992.




Amor & Revolução


Quase vinte anos depois, o SBT está produzindo a novela “Amor & Revolução”, escrita por Tiago Santiago, no ar às 22h15. A obra focaliza o mesmo período: a ditadura militar entre 1964 e 1985. Com cenas ousadas de tortura e violência – evitadas por “Anos Rebeldes”, que prefere citar as coisas em vez de mostrá-las –, a novela segue uma linha mais melodramática em suas tramas.

Heloísa resolve perder a virgindade com seu professor de violão (Thales Pan Chacon)
Divulgação/Viva
Heloísa resolve perder a virgindade com seu professor de violão (Thales Pan Chacon)


Já “Anos Rebeldes” buscou um foco quase jornalístico. As sequências documentais em preto-e-branco, misturando imagens reais da época com cenas gravadas pelo elenco da série, aproximaram o programa da qualidade do cinema.

Mesmo se tratando de um folhetim de TV, a série conseguiu ser bastante realista e verossímil, respeitando os fatos e a cronologia do período, e alinhavando os personagens fictícios dentro do contexto histórico de forma muito feliz.

André Pimentel, Cássio Gabus Mendes, Marcelo Serrado e Pedro Cardoso
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André Pimentel, Cássio Gabus Mendes, Marcelo Serrado e Pedro Cardoso
São muitas as cenas antológicas, mas vale destacar: o réveillon de 1970, com a turma de guerrilheiros realizando uma festa enquanto escondem nos fundos o embaixador da Suécia, seqüestrado por eles; o duelo verbal entre Heloísa e o pai, quando ela revela que foi torturada na prisão; o retorno dos exilados políticos ao Brasil, na anistia de 1979; e o desfecho, quando João Alfredo finalmente concorda com Maria Lúcia sobre o resultado do Festival Internacional da Canção de 1968.

“Anos Rebeldes” será exibido no Canal Viva de segunda à sexta, às 23h, com reprise às 4h30 da manhã, de 30 de maio a 24 de junho.

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