Globo planeja regravar "O Rebu", clássico dos anos 70 - década de "O Astro", sucesso do momento

Bete Mendes como Sílvia, a vítima de
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Bete Mendes como Sílvia, a vítima de "O Rebu" (1975)


A TV Globo parece ter encontrado a fórmula para fazer renascer sua combalida fábrica de novelas: revirar seu próprio baú de clássicos da década de 70. Tudo começou com "O Astro" , exibida às 20h pela emissora entre dezembro de 1977 e julho de 1978. O remake da novela está no ar às 23h, e vem fazendo sucesso, além de causar polêmica. A próxima ideia da emissora pode ser um remake de "O Rebu", exibida às 22h entre novembro de 1974 e abril de 1975.

Remake de "O Astro" começou diferente do original; compare


A faixa das 22h foi um marco nos anos 70 para a Rede Globo. Durante quase dez anos, a emissora colocou no ar nesse horário uma sequência de grandes novelas, todas de tirar o fôlego: ousadas, polêmicas, abordando temas "sérios" e "proibidos", as novelas das 22h se caracterizavam por uma linha sofisticada e intelectualizada - e até seus autores eram "especiais": a maioria vinha do teatro, eram dramaturgos respeitados, como Dias Gomes e Jorge Andrade .

Em plena ditadura militar, a Globo se atrevia a exibir essas tramas densas e tensas, que falavam de temas como ecologia, religião, homossexualidade, crimes, contravenção, problemas urbanos, realismo fantástico, política e corrupção. Até o divórcio entrou na pauta, mas foi demais - a lei do divórcio só seria aprovada no Brasil em junho de 1977, e em janeiro daquele ano a Globo estrearia a novela "Despedida de Casado", que foi vetada pela censura e proibida de ir ao ar.

Jardel Filho e Dina Sfat em
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Jardel Filho e Dina Sfat em "Verão Vermelho" (1970)


Confira todas as novelas exibidas às 22h pela Globo:

Verão Vermelho (70), de Dias Gomes
Assim na Terra Como no Céu (70/71), de Dias Gomes
O Cafona (71), de Bráulio Pedroso
Bandeira 2 (71/72), de Dias Gomes
O Bofe (72/73), de Bráulio Pedroso
O Bem Amado (73), de Dias Gomes
Os Ossos do Barão (73/74), de Jorge Andrade
O Espigão (74), de Dias Gomes
O Rebu (74/75), de Bráulio Pedroso
Gabriela (75), de Walter George Durst
O Grito (75/76), de Jorge Andrade
Saramandaia (76), de Dias Gomes
Nina (77/78), de Walter George Durst
O Pulo do Gato (78), de Bráulio Pedroso
Sinal de Alerta (78/79), de Dias Gomes
Eu Prometo (83/84), de Janete Clair
Araponga (90/91), de Dias Gomes

Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) e as Irmãs Cajazeiras (Dorinha Duval, Ida Gomes e Dirce Migliaccio) em
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Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) e as Irmãs Cajazeiras (Dorinha Duval, Ida Gomes e Dirce Migliaccio) em "O Bem Amado" (1973)


Política

Um dos principais filões dessas novelas era a crítica política. Dias Gomes vinha do teatro, onde já escrevera inúmeros textos do gênero, e na TV tentou desenvolver mais essa questão. Assim, escreveu "Verão Vermelho", que abordava a reforma agrária. O grande momento porém viria com "O Bem Amado", baseado em peça de sua autoria. As aventuras do maligno prefeito Odorico Paraguaçu ( Paulo Gracindo ) foram um sucesso: o prefeito queria matar algum morador da cidade de Sucupira, para poder inaugurar o cemitério, sua "grande obra" na administração da cidade. O êxito da novela gerou um seriado - no ar de 1980 a 1984 - e um filme realizado em 2010.

Sônia Braga e Armando Bógus em
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Sônia Braga e Armando Bógus em "Gabriela" (1975)


"Gabriela", adaptação do livro de Jorge Amado, também retratava as disputas políticas e o coronelismo em Ilhéus, interior da Bahia, na década de 1920. E "Nina" focalizava o cenário paulista também nos anos 20, com as rivalidades entre partidos políticos, enquanto a personagem título (interpretada por Regina Duarte ), uma professora de um rígido colégio, lutava para impôr seus ideais modernos.

Regina Duarte e Maria Cláudia em cena de
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Regina Duarte e Maria Cláudia em cena de "Nina" (1977)


Realismo fantástico

"Saramandaia" marcou época com os tipos insólitos criados por Dias Gomes: João Gibão ( Juca de Oliveira ) saiu voando com asas enormes; Marcina ( Sônia Braga ), quando excitada, pegava fogo; e a Dona Redonda ( Wilza Carla ) explodiu de tanto comer, entre outros absurdos.

Dona Redonda (Wilza Carla) em
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Dona Redonda (Wilza Carla) em "Saramandaia" (1976)


Religião

"Assim na Terra Como no Céu" contava a história de Vítor ( Francisco Cuoco ), um padre que larga a batina para se casar com Nívea ( Renata Sorrah ). Porém antes disso ela é assassinada, e o ex-padre se engaja na investigação para descobrir o assassino. Vítor termina se casando com Helô ( Dina Sfat ).

Francisco Cuoco e Dina Sfat em
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Francisco Cuoco e Dina Sfat em "Assim na Terra Como no Céu" (1970)


Crítica social

"O Cafona", como o título já deixava claro, tinha como protagonista Gilberto (novamente Cuoco), que transformou uma quitanda de subúrbio em uma rede de supermercados. Agora milionário, mas ainda um homem deselegante sem traquejo social, ele é rodeado por ricaços falidos e toda espécie de oportunistas da alta sociedade. Com essa novela o autor Bráulio Pedroso tecia uma crítica ao mundo dos ricos.

Francisco Cuoco como Gilberto e Marília Pêra como Shirley Sexy em
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Francisco Cuoco como Gilberto e Marília Pêra como Shirley Sexy em "O Cafona" (1971)




O autor voltaria a debochar da alta sociedade com "O Pulo do Gato", além da antológica "O Bofe" - uma novela esquisita repleta de personagens bizarros. Foi uma experiência de humor "nonsense" que nunca mais se repetiu na TV.

Betty Faria e Jardel Filho em
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Betty Faria e Jardel Filho em "O Bofe" (1972)


Urbanas

"O Grito" tinha como cenário principal um prédio no centro de São Paulo. O local é desvalorizado com a construção do Elevado Costa e Silva, o Minhocão. Os dramas e conflitos dos moradores se entrelaçam. Entre eles uma sobrevivente ( Yoná Magalhães ) do incêndio no edifício Joelma, um homem ( Rubens de Falco ) que saía de casa de noite, maquiado e trajando uma capa, e uma ex-freira ( Glória Menezes ) que criava o filho doente - o menino vive gritando durante a noite, daí o título da novela.

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"Bandeira 2" também focalizou a vida na cidade, mas no Rio de Janeiro - o bairro escolhido foi Ramos, zona norte da capital carioca. Ali, o simpático bicheiro Tucão (Paulo Gracindo) domina a região, enquanto crimes e golpes são cometidos.

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Família

Os valores familiares e a questão das gerações eram discutidos em "Os Ossos do Barão", que se dividia em duas tramas: o italiano Egisto ( Lima Duarte ), que veio da pobreza e enriqueceu, quer comprar um título de nobreza; enquanto isso, uma tradicional família discute se deve ou não internar os pais em um asilo.

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Homossexualidade

"O Rebu" foi uma novela revolucionária por diversos aspectos. Para começar: se passava inteiramente em uma única noite - cenário de uma festa de gala na mansão de Conrad Mahler ( Ziembinski ). Em segundo lugar: acontecia um assassinato em plena festa. Mas o público não apenas tinha de adivinhar "quem matou", como também "quem morreu" - o corpo surgia boiando na piscina, e sua identidade não era revelada. Mais: não havia ordem cronológica - como em uma grande trama policial, aconteciam flashbacks.

Para terminar: na metade da novela, foi revelada a identidade do morto - a bela Sílvia ( Bete Mendes ). No desfecho, a revelação final: o assassino era o dono da festa, Conrad. Ele matara Sílvia por ciúmes do namoro da moça com Cauê ( Buza Ferraz ), um rapaz que vivia na casa, sustentado pelo velho milionário. Já no primeiro capítulo, o autor deu a pista - Conrad e Cauê tinham um caso conturbado. A cena, subliminar mas bastante clara, está no YouTube.

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Ecológicas

Dias Gomes investiu também em novelas focadas na ecologia. "O Espigão" falava da especulação imobiliária e tinha como um dos protagonistas Léo ( Cláudio Marzo ), um defensor da natureza. Em "Sinal de Alerta", o autor procurou denunciar a poluição provocada por uma fábrica nas praias cariocas. Fato inédito: a abertura da novela foi a única até hoje que não tinha música - apenas ruídos como buzinas, tratores, apitos de fábrica.

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Tentativas

"Sinal de Alerta" teve baixa audiência, mostrando que a faixa das 22h estava desgastada. Assim, em janeiro de 79 a Globo cancelou as novelas desse horário. Em setembro de 83, porém, a emissora decidiu resgatar a faixa, e convocou Janete Clair , que escreveu "Eu Prometo", sobre o deputado Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco), que se envolve com a fotógrafa Kelly ( Reneé de Vielmond ).

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Apesar da qualidade da novela, o resultado acabou amargo: Janete morreu em novembro de 83, e "Eu Prometo" foi concluída por Glória Perez , sob supervisão de Dias Gomes, viúvo de Janete. A Globo novamente desativou o horário.

Em outubro de 1990, nova tentativa. Desta vez o próprio Dias Gomes escrevia "Araponga", uma comédia estrelada por um desastrado agente secreto ( Tarcísio Meira ) que investigava a morte de um senador. Araponga aparecia em algumas cenas tomando mingau, que sua mãe ( Zilka Salaberry ) dava na boca do filho.

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A volta do rebu

Diante desse histórico, a Globo estuda a possibilidade de um remake de "O Rebu", que seria exibido em 2012, às 23h, horário de "O Astro". Há alguns anos a emissora já vinha pensando em regravar "O Rebu", mas em formato de minissérie, escrita por Carlos Lombardi . Com o sucesso de "O Astro" no formato de macrossérie, o remake de "O Rebu" entraria nesse mesmo padrão.

Se isso acontecer, o sucesso será certeiro. Afinal, "O Astro" vem se mostrando como a melhor opção de teledramaturgia da Globo no momento atual - uma novela adulta, séria, sem medo de soar "pesada" ou agressiva, com uma direção competente, e um time de atores fortes e afiados. Tudo apoiado no texto original de Janete Clair, escrito há 33 anos. Apesar das adaptações, mudanças e atualizações promovidas pelos autores atuais, Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro , a essência continua a mesma: uma história consistente como hoje em dia é raro ver na TV.

Portanto, a mesma vantagem teria um remake de "O Rebu" - com o trunfo adicional de poder discutir às claras a questão da homossexualidade, que nos anos 70 foi tratada de forma velada, e praticamente passou despercebida. Em 2012, quando tantos avanços já aconteceram no assunto - mas ao mesmo tempo a onda conservadora ressurge com muita força -, uma nova versão deste clássico seria mais do que bem vinda.

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