A onda do politicamente correto baniu das novelas imagens que antes eram comuns. Confira algumas delas!

Maria Helena Pader em
Alex Carvalho/TV Globo
Maria Helena Pader em "Lara com Z"
Em episódio da série “Lara com Z” exibido pela Rede Globo recentemente, Leontina ( Maria Helena Pader ), governanta da protagonista Lara ( Susana Vieira ), cometeu um ato que há muito tempo não se via na TV: acendeu um cigarro.

Na sequência, Leontina passou a falar mal da patroa. A personagem tem um comportamento amargo e vingativo – daí o uso do cigarro, que nos últimos tempos só tem aparecido nas novelas para caracterizar vilões, personagens “do mal” ou de energia negativa.

O Glamour da Fumaça

Mas nem sempre foi assim. O cigarro reinou absoluto como símbolo de charme, glamour e elegância, e também sinal de rebeldia e liberdade, ao longo de pelo menos cinco décadas, tanto para homens como para mulheres. E o grande divulgador desse hábito foi Hollywood. Não a marca de cigarros, mas sim a meca cinematográfica dos EUA.

James Dean e Rita Hayworth: astros de Hollywood e fumantes, dentro e fora das telas
GettyImages
James Dean e Rita Hayworth: astros de Hollywood e fumantes, dentro e fora das telas


Dezenas de astros e estrelas de Hollywood se consagraram ajudados por esse “detalhe”: o fumo. Marlene Dietrich e Gary Cooper na década de 30, Humphrey Bogart, Bette Davis e Rita Hayworth na década de 40, James Dean e Marlon Brando na década de 50, Audrey Hepburn na década de 60, para citar apenas alguns.

As famosas mulheres fatais do cinema fizeram história e acabaram influenciando suas “colegas” das novelas brasileiras. Já em “Irmãos Coragem” (70/71, que acaba de ser lançada em DVD pela Globo Marcas), Glória Menezes usava o cigarro para compor a personagem Diana, uma de suas três personalidades na trama. Rebelde, selvagem e sensual, Diana vivia fumando para seduzir João Coragem ( Tarcísio Meira ).

Glória Menezes em
Memória Globo
Glória Menezes em "Irmãos Coragem"
No terreno masculino, os galãs do cinema também inspiraram os atores da TV brasileira. Tarcísio Meira foi um fumante habitual das novelas: fumou em, entre outras, “Escalada” (1975), “Brilhante” (1981/82) e “Guerra dos Sexos” (1983/84) – embora, nesta última, o cigarro tenha sido mais um adereço para criar o abobalhado personagem Felipe, que chegava a engolir ou mastigar cigarros em sequências debochadas, do que um símbolo de charme e virilidade.

Os Ricos Também Fumam (e bebem)

O cigarro também passou a fazer parte do cotidiano dos personagens das novelas de maneira banal, sem glamour ou charme, mas apenas como mais um hábito. Em “Dancin’ Days” (1978/79), de Gilberto Braga, praticamente todos os personagens fumavam, em centenas de cenas. Desde a protagonista Júlia Matos ( Sônia Braga ), que fumava dentro do presídio, e compulsivamente depois de ser libertada, até a vilã Yolanda Pratini ( Joana Fomm ), que acendia cigarros quando ficava nervosa. Personagens coadjuvantes da trama também fumavam, como a garota Vera Lúcia ( Lídia Brondi ) – que rendeu uma cena pioneira do “merchandising social”: Júlia conversa com Vera e pede que esta pare de fumar, já que o cigarro faz mal à saúde. Vera obedece, mas a própria Júlia não parou de dar suas tragadas.

Outras novelas de Gilberto abusaram do fumo em cena, combinado com o álcool. Em “Água Viva” (1980), era comum, durante diálogos, os personagens prepararem uma dose de uísque e acenderem um cigarro ao mesmo tempo. E fumavam e bebiam enquanto dialogavam.

Em “Vale Tudo” (1988/89, atualmente em reprise no Canal Viva), o mesmo acontece. Ivan ( Antônio Fagundes ), Afonso ( Cássio Gabus Mendes ) e o casal Cecília ( Lala Deheizelin ) e Laís ( Cristina Prochaska ) fumam. Até a comportada Tia Celina ( Nathália Timberg ) acendeu alguns cigarros em momentos de tensão.

Mas o grande personagem dependente na novela é Heleninha Roitman ( Renata Sorrah ). A complicada pintora fuma sem parar, além de ser alcoólatra. Os porres épicos de Heleninha fizeram história, e a novela procurou colaborar na luta contra o alcoolismo. Ao final, Helena fica curada ao freqüentar o Alcoólicos Anônimos.

Vera Holtz como Santana em
TV Globo/Renato Rocha Miranda
Vera Holtz como Santana em "Mulheres Apaixonadas"


Álcool

Depois de Heleninha, outras novelas abordaram o drama do alcoolismo, principalmente pelas mãos do autor Manoel Carlos . Em “Por Amor” (1997/98), Orestes ( Paulo José ) sofria crises no casamento e ficava desempregado devido à sua dependência.

Em “Mulheres Apaixonadas” (2003) o novelista trouxe a professora Santana ( Vera Holtz ), também demitida por problemas com o alcoolismo.

Barbara Paz em
TV Globo/Zé Paulo Cardeal
Barbara Paz em "Viver a Vida"
Finalmente, em “Viver a Vida” (2009/10), o autor criou Renata ( Bárbara Paz ), que usava a bebida como válvula de escape para seus problemas e como receita para não engordar, abordando um mal atualmente chamado de drunkorexia.

Maconha

Mas nem só de cigarro e bebida vivem as novelas. Apesar da censura e do tabu ligado ao tema, a TV conseguiu falar até de drogas ilícitas, como a maconha.

Voltamos à “Vale Tudo”, que recentemente gerou discussão nas redes sociais graças a algumas cenas que mencionaram a maconha de forma subliminar. Primeiro foi César ( Carlos Alberto Riccelli ), que sossegadamente “montava” um cigarro em seu apartamento, enquanto Olavo ( Paulo Reis ) andava de um lado para o outro, contando um caso.

Depois, Solange ( Lídia Brondi ) chega em casa tensa, abre uma latinha e pergunta a Sardinha ( Otávio Müller ): “Ué, acabou?”. Ao que ele responde: “É, preciso ir buscar mais...” Logo depois, ao descobrir que Solange o escolheu para ser pai do filho dela, Sardinha também fica tenso e abre a tal latinha.

As duas cenas foram comentadas em sites como o Twitter e o Facebook, e devidamente discutidas pelo público que acompanha a atual reprise da novela. Levantou-se até a ideia de que a novela teria feito apologia à maconha. Afinal, vivia-se o fim da década de 1980, ainda respirando novos ares, após o término da ditadura militar em 1985.

Os Dependentes químicos

A partir dos anos 1990, as novelas passaram a mostrar os viciados em drogas como cocaína e crack. A minissérie “Sex Appeal” (1993, recentemente reprisada no Canal Viva) abordou o tema na figura de Júlio ( Felipe Folgosi ), sempre perseguido por traficantes de quem comprava “produtos”.

A novela “A Próxima Vítima” (1995) tinha o personagem Lucas ( Pedro Vasconcellos ), adolescente rebelde e problemático, viciado em cocaína.

Também de Sílvio de Abreu, “Torre de Babel” (1998/99) mostrava Guilherme ( Marcello Antony ), dependente químico que se tornava agressivo. O personagem desagradou ao público, e foi morto na explosão do shopping center que era cenário da novela.

Em “Passione” (2010/11), novamente o novelista voltou ao assunto. Desta vez, a droga era o crack, e o vício de Danilo ( Cauã Reymond ) foi mostrado de forma chocante e inédita na TV.

Atualmente no ar na sessão Vale A Pena Ver de Novo, "O Clone" (2001-02), de Glória Perez , também abordou o tema através da personagem Mel ( Débora Falabella ). Para ser exibida à tarde na TV aberta a novela teve as cenas do drama da jovem suavizadas.


Danilo (Cauã Reymond) em
Tv Globo/João Miguel Júnior
Danilo (Cauã Reymond) em "Passione"


Politicamente Correto

O chamado conceito “politicamente correto”, que varreu o mundo nos últimos vinte anos, mudou a maneira de se encarar as drogas, sejam elas legais ou ilegais. Foram proibidas as participações de empresas fabricantes de cigarros em eventos culturais, e a produção artística passou a evitar a “glamurização” das drogas.

A TV brasileira acompanhou esse processo, e já em 1989, na novela “Tieta”, o resultado foi visto: na época, o diretor Paulo Ubiratan declarou à imprensa que, na novela, apenas os vilões fumavam cigarro. Essa era a “marca da maldade” para Mirko ( Marcos Paulo ), Rosalvo ( Paulo César Grande ) e Helena ( Françoise Forton ).

Em “Mulheres de Areia” (1993), o fumo servia até para distinguir as gêmeas Ruth e Raquel ( Glória Pires ). Raquel, a vilã, fumava; Ruth, a mocinha, não. Em “Duas Caras” (2007/08), a vilã Sílvia ( Alinne Moraes ) também fumava.

Heleninha Roitman (Renata Sorrah) em
Reprodução
Heleninha Roitman (Renata Sorrah) em "Vale Tudo"


A ideia continua em prática, como foi visto em “Lara com Z”, com a governanta sinistra Leontina. Ou, de forma mais cômica, com a Marilda ( Andréa Beltrão ) na série “A Grande Família”, que era uma viciada em cigarro, e vivia tentando largar o fumo.

Atualmente, é impossível ver um herói ou uma heroína de novela com um cigarro nas mãos. Novamente, Hollywood dá as cartas – no cinema americano, também foi destruída a imagem glamurizada do cigarro e outras substâncias. Sinal dos tempos, onda conservadora, mensagem ecológica ou tudo isso junto?

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