Supersérie usa anos de chumbo como pano de fundo para história de amor

Logo no começo do segundo capítulo de "Os Dias Eram Assim", vemos o médico Renato ( Renato Góes ) ser intimado a prestar depoimento por conta de um suposto crime de seu irmão. Sem pedir licença, a polícia entra em sua casa, o leva para o camburão e o deixa algemado na delegacia, mesmo sem ter acusação nenhuma em suas costas. Enquanto isso, vemos sua aflita mãe Vera (Cássica Kis) receber instruções dele para entrar em contato com Toni (Marcos Palmeira), que poderá ajudar em sua defesa, alegando que ele estava ocupado durante o incidente.

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Sophie Charlotte e Renato Góes fazem um casal que vive um amor impossível em
Divulgação/TV Globo
Sophie Charlotte e Renato Góes fazem um casal que vive um amor impossível em "Os Dias Eram Assim"

A aflição estampada no rosto de Cássia Kis representa de maneira muito realística o que muitas mães sofreram em um dos períodos de maior violência sofridos no Brasil. Os temores da ditadura parecem estar ao redor dos personagens o tempo todo, seja nas ações mais violentas de Gustavo (Gabriel  Leone) e Túlio ( Caio Blat ), ou na repressão de sua própria família por Arnaldo ( Antônio Calloni ), a sensação de que algo está prestes a explodir está presente a todo momento em "Os Dias Eram Assim" .

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Mas, a supersérie, apesar de ter na ditadura o cerne dos acontecimentos ao redor, não irá trata-la como tema principal, deixando-a como coadjuvante. O foco da trama é mesmo a história de amor entre Alice ( Sophie Charlotte ) e Renato, e o período servirá apenas como um dificultador do seu amor.

Coadjuvante

Manter a ditadura como coadjuvante não é novo nas produções. Algo próximo aconteceu na minissérie “Queridos Amigos”, que reconta a amizade de um grupo e todas as suas ramificações ao longo de muitos anos, tendo início em plena ditadura. Nesse caso,  o período é apenas uma passagem, mas continua deixando marcas profundas, como em Bia (Denise Fraga), presa e torturada, que carrega o trauma da época em sua vida.

“Hilda Furacão” também retratou os movimentos do período, mas de forma mais referencial. Em meio a trama, que tinha como protagonistas Hilda Furacão (Ana Paula Arósio) e o Frei Malthus (Rodrigo Santoro), podia-se notar referências à lutas populares, movimentos estudantis e uma presença sufocante dos militares.

Protagonista

Daqui há alguns episódios, a trama de “Os Dias Eram Assim” vai tomar novos rumos, ainda motivada pela ditadura. O casal de protagonistas vai separar, com Renato exilado no Chile. Sendo assim, haverá um salto de 14 anos até 1984 quando, enfim, a anistia permite que Renato retorne ao Brasil. O casal vai se reencontrar, mas suas vidas já seguiram por caminhos muito diferentes, e a história lidará com esses conflitos, com as “ Diretas Já ” como pano de fundo.

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"Anos Rebeldes" deixou romance como plano de fundo no período da ditadura

“Anos Rebeldes” também retratou o período, porém com prioridades invertidas. O foco dessa vez era justamente a luta com o regime militar , ao mesmo tempo que um romance entre Maria Lúcia (Malu Mader) e João Alfredo (Cássio Gabus Mendes). Apesar de se amarem, o envolvimento de João com a luta armada e seu posicionamento político acabam por afastar o casal. De similar com "Os Dias Eram Assim" , “Anos Rebeldes” também tem seu personagem principal exilado. João também retornaria ao Brasil pós-anistia e reencontraria Maria Lúcia, mas sua militância continua sendo prioridade, impedindo que o casal fique junto de vez.

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