Segundo a professora da PUC-Rio Tatiana Siciliano, além da temática, o formato clássico da novela pode estar desgastado

Babilônia ”, atual trama das 21h da Globo, tenta se livrar da estigma de pior início das novelas do horário do canal. Enquanto isso, “ Os Dez Mandamentos ”, exibida pela Record, conquista público e deixa a emissora como a segunda colocada isolada no horário de acordo com o Ibope do último mês. Para especialista e profissionais da área, a diferença na audiência entre uma obra e outra se deve ao tema e também aos formatos adotados.

“Fiquei um pouco impressionada com as pessoas falando ‘que novela linda’ sobre ‘Os Dez Mandamentos’. Tem uma coisa de inocência e talvez as novelas das 21h (da Globo) estejam realistas demais”, afirma Tatiana Siciliano , professora do departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

“'Babilônia é uma excelente trama, mas é muita coisa. Tem duas vilãs assassinas e amorais, tem traficante, tem cafetão. São coisas que existem na vida real, mas são coisas muito fortes acontecendo ao mesmo tempo”, analisa ela. “Estamos em um país em que as pessoas estão combatendo a corrupção, descrentes com os políticos de uma forma geral e decepcionados. Aí você liga a televisão para tentar mudar o foco e distrair”, completa.

Apesar de não serem exibidas no mesmo horário, é nesse cenário que pode ser encaixada uma disputa entre “Babilônia” e “Os Dez Mandamentos”. Enquanto a novela global tem um clima mais pesado, a aposta da Record é em um tema bíblico e acaba como uma alternativa para o horário noturno na televisão. “Não sei se dará certo para sempre apostas como um tema bíblico, mas parece uma boa alternativa para o momento que estamos vivendo”, sugere Tatiana.

Ricardo Linhares , um dos autores de "Babilônia", defende a obra. “Nós escrevemos a sinopse em 2013, muito tempo antes desse escândalos todos virem a tona”, fala Linhares, referindo-se ao momento atual do Brasil, com Operação Lava a Jato em alta, governo Dilma sendo colocado em xeque e investigações em diversas esferas do poder. "Fomos precursores, mas a realidade nos atropelou, causando certa saturação no tema corrupção”, compara.

A trama global já está sofrendo algumas mudanças que podem “aliviar” um pouco o clima da novela. Alice, personagem de Sophie Charlotte , não será mais uma garota de programa e, sim, mais uma mocinha na história. Segundo Linhares, essa alteração não é resultado do retorno de público e de audiência. Ele explica que a trama foi alterada para adequar a obra à classificação indicativa do horário.

Séries x folhetim clássico

'Avenida Brasil' teve um formato mais próximo ao seriado e agradou ao público
Divulgação/Globo
'Avenida Brasil' teve um formato mais próximo ao seriado e agradou ao público

Além da temática, as duas novelas também seguem um formato diferente. “Babilônia” é o folhetim mais clássico, com grandes vilãs e mocinhas, mas com histórias que tendem a se resolver nos últimos capítulos. Pelos baixos números da audiência, os autores fizeram algumas mudanças e adiantaram revelações, como o segredo de Inês ( Adriana Esteves ) e sua obsessão por Beatriz ( Glória Pires ). Já “Os Dez Mandamentos” tem um ritmo que se assemelha aos seriados norte-americanos, com tramas que têm começo, meio e fim, como se fosse episódios.

“A dramaturgia brasileira continua incorrendo em um erro que a história não anda. Em ‘Dez Mandamentos’ a história já está escrita, todos sabem o final e, mesmo assim, a novela tem que andar. A Vivian (de Oliveira, autora) conseguiu imprimir um ritmo ágil. São quatro fases e em cada uma, tudo muda”, explica Alexandre Avancini , diretor-geral da novela da Record.

Das obras recentes no horário das 21h na Globo, a que mais teve sucesso com o público foi “ Avenida Brasil ”, de 2012. “Tinha vilã, inveja, maldade e todos os elementos clássicos, mas os ganchos logo se resolviam, como se cada capítulo se fechasse. Eram sempre minitramas que tinham uma sequência como um todo da novela. Não ficava aquela coisa arrastada, que deixava tudo para o final”, lembra.

“Não sei se isso é bom ou mau no ponto de vista da narrativa, mas para as pessoas contemporâneas e acostumadas a essa velocidade das séries, funciona”, aposta Tatiana Siciliano.

De acordo com ela, a televisão tem, cada vez mais, concorrência de tablets, celulares e vídeos por streaming. Se o espectador não quiser seguir uma novela, ele pode ver uma série em seu tablet, ou ver o capítulo que perdeu depois, no site oficial da novela. Como a concorrência é grande, um formato mais dinâmico também pode ser mais atraente. 

Bem x mal ou dramas reais?

Mais um ponto que diferencia “Babilônia” de “Os Dez Mandamentos” é o tom dado às histórias. A novela da Globo segue com seus vilões muito vilões, como Beatriz, uma mulher que atira na cabeça do motorista amante. Na obra da Record, há também personagens bons e maus, mas Alexandre Avancini defende que a trama se baseia nas relações familiares. 

Explorar a vilania pode não ser o erro de “Babilônia”, segundo Tatiana. Vilãs clássicas sempre renderam bem, como Maria de Fátima e Odete Roitman, de “ Vale Tudo ”, ou mesmo Carminha, de “Avenida Brasil”. “Elas eram vilãs bem vilãs e conquistaram o público”, afirma a professora.

'Alto Astral' é a atual trama das 19h da Globo e vai bem na audiência na reta final
Divulgação/Globo
'Alto Astral' é a atual trama das 19h da Globo e vai bem na audiência na reta final

Para a especialista, o público pode buscar algo a mais. “A gente está cansado de ver só maldade e quer outras coisas, como pessoas mais contraditórias e complexas ou uma vilã que você não sabe se é tão má assim. Acho que os autores vão ter que experimentar isso”, analisa.

E aí pode estar a explicação da audiência recente da própria Globo, que enquanto sofre com “Babilônia”, vê “ Alto Astral ” chegar forte à reta final e também acompanhou o bom começo de “ Sete Vidas ”. “Sete Vidas, por exemplo, é uma novela toda bonitinha, com uma trama moderna e bem arrumada e, ao mesmo tempo, singela. São novelas que têm suas maldades, mas exploram dramas existenciais”, opina.

Quem vence no final?

“Babilônia” e “Os Dez Mandamentos” ainda estão relativamente no começo, ambas estrearam em março. E no final, quem vencerá na audiência? A novela de Vivian de Oliveira conta uma história conhecida e que não pode ser mexida. O interessante é como a trama é descrita e não apenas qual o final dos personagens. Já a produção global aposta em mudanças e o caminho é visto como natural por Ricardo Linhares.

“Não há problema algum em mudar uma trama após a estreia. Todas as novelas passam por isso. Algumas histórias são mexidas de forma mais discreta, outras com mais alarde. Mas sempre vai haver correção e isso faz parte do gênero telenovela, que é uma obra aberta”, defende o autor.

A professora da PUC faz ressalvas. “A história de ‘Babilônia’ foi bem construída e talvez seja, sim, mais forte do que as pessoas estão preparadas no momento para lidar. Mas ao mudar eu acho que tem um certo risco de perder a estrutura. Só o tempo pode dizer se vai dar certo ou não”. 

*colaboração de Nina Ramos

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