Chef Lisandro Lauretti já fez TV antes de apostar em inúmeros contatos para trazer restaurante de Jamie Oliver ao Brasil


O sol do meio-dia bate na fachada do restaurante onde aguardam, em fila, quinze pessoas. A cena seria facilmente encarada como cotidiana na hora do almoço em São Paulo, mas não naquela rua do Itaim Bibi, bairro nobre da capital paulista.

Quem espera, além de fome, é atraído por outros motivos: "Será que é bom?", "Será que vai dar certo no Brasil?", "Nós temos reserva?", "Não sei se o brasileiro tem cultura e paladar pra esse lugar" são alguns dos questionamentos dos homens engravatados aparentando os 50 anos e as jovens de roupas descoladas e óculos espelhados em frente ao Jamie's Italian.

A franquia brasileira do famoso restaurante do chef e apresentador inglês Jamie Oliver , recém-inaugurada no Brasil - e única das Américas - , foi um dos assuntos mais comentados em março, competindo com hashtags da novela das nove da Globo. Tamanho rebuliço colocou nos holofotes alguém que estava tentando fugir deles, o chef Lisandro Lauretti .

TV e reality shows

Aos 41 anos, Lisandro tem inúmeros negócios gastronômicos no currículo e, também, programas de TV. Responsável por convencer Jamie sobre o restaurante em São Paulo, ele já foi habitué dos fogões nos estúdios das emissoras. "Já fiz algumas coisas, mas parei antes de tocar esse projeto porque fiquei cansado. Não estava me agregando nada, a TV ainda é engessada. Você chega lá e acaba tendo que entrar no modelo de apresentar receitinha. A televisão não está aberta a novas ideias, o pessoal prefere modelos tradicionais ou acabam apostando nos reality shows", opina, após ter dividido bancadas de atrações femininas, como na TV Gazeta, por exemplo.

Cozinheiro desde criança, Lisandro diz não gostar do emprego do termo "chef" na televisão. "Chef é um status momentâneo, que um cozinheiro conquista com prática. A história de sair de um programa e virar chef é absurda. No máximo, vira um cozinheiro aprendiz, que vai fazer muita cagada na cozinha. Digo que esses reality shows são puro entretenimento, não digo que quem está ali não vai ser profissional um dia, mas minha avó também faz receitinha bacana. Ser chef é encarar volumes industriais, gerenciamento de equipe e estoque, isso é outra conversa, está além de ser cozinheiro", diz.

O interior do restaurante Jamie's Italian, no Itaim Bibi, em São Paulo
Divulgação
O interior do restaurante Jamie's Italian, no Itaim Bibi, em São Paulo

Briguento como Jamie Oliver

A certeza das próprias convicções é uma das características comuns de Lisandro e Jamie. A personalidade forte e o perfil que desafia "o que está aí" do chef inglês também está no brasileiro, e isso encheu Lisandro de coragem para propor o que seria um dos projetos mais desafiadores da sua vida. "Não o conhecia, mas sabia que o Jamie tinha um apreço pelo país, que gostava do Brasil e eu mandei um email - para uma fundação dele, não tinha o contato pessoal - , me apresentando, dizendo sobre o trabalho que eu realizava aqui, minha formação, e propondo a abertura do restaurante dele aqui. Foi um baita de um email caprichado, bem grande", lembra.

Depois de uma semana, a resposta veio, mas não como ele esperava. "Eles pediam mais detalhes, muitos detalhes, estudos de mercado. Enfim, aí, fui chamado para conhecer de perto a operação em Londres e ver os restaurantes todos".

Assim como Jamie, Lisandro também é conhecido por defender a alimentação orgânica e, também como o colega de profissão, já enfrentou problemas. "Não me entendia com o que via aqui, fazer cozinha autoral era muito complicado, convencer a mudar as fórmulas dos produtos, principalmente na indústria de pesca, era uma batalha. A procura pelo Jamie com esse nome de peso é pra me ajudar. Jamie é o mais conhecido chef do mundo, tem popularidade, as empresas querem estar num projeto desses, que preza pela qualidade da alimentação das pessoas", explica ele, que enfrenta resistência de alguns setores.

Chef Lisandro Lauretti
Divulgação
Chef Lisandro Lauretti

Denúncias

"Já briguei com pescadores no arrasto de camarão na época errada. Tentei explicar para o cara que ele estava se prejudicando, prejudicando o futuro do próprio sustento. Em Bertioga, no litoral norte de São Paulo, vi redes armadas de forma errada. Falo que 'não pode fazer isso, é proibido, ilegal'. Tento argumentar, mas, se o cara vira e fala: 'o que você tem a ver com isso?', na hora, o sangue ferve. Aí, pego o telefone e denuncio. Com isso, minha pescaria deixou de ser prazerosa porque tenho que ficar de olho se tem alguém me perseguindo", conta, com certo bom humor.

Com essa disposição, parece mais simples enfrentar contratempos como filas longas e o restaurante aberto sem pausa entre o almoço e o jantar. Em quase um mês de funcionamento, o Jamie's Italian já acertou o funcionamento e o camarão com linguini já conquistou a maioria dos cerca de 300 clientes diários por período do restaurante.

Jamie no Brasil

Com tudo nos eixos, ou quase, vale a pergunta: quando Jamie vai dar o ar da graça no Brasil? "Ele está louco para vir ao Brasil, mas não vai nunca às aberturas dos restaurantes porque não quer ofuscar a inauguração. Além disso, ele precisa de frente de agenda para cravar uma data. Acredito que em novembro isso vá acontecer", arrisca-se a dizer.



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