Atriz de "Sete Vidas" se afasta do temperamento da personagem Laila, coloca a boca no trombone na luta contra o preconceito e diz que já bateu até na porta de Woody Allen

Maria Eduarda de Carvalho  brinca de ser outras desde muito cedo. Hoje, com 33 anos, eu poderia apostar que a casa da atriz, no ar em “Sete Vidas”, é colorida. O breu não combina com ela, e isso fica claro com 30 minutos de papo. Deixa o dark para a TV. Aliás, suas últimas personagens tinham dois pés na rebeldia, cada uma com motivo e intensidade distintas. Já Maria garante que habita em águas mais tranquilas.

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Tudo começou na infância. A fantasia foi algo que sempre a fascinou e a culpa é de sua avó materna, filha do autor José Cândido de Carvalho . Através daqueles olhos, ela passeou quando criança num universo onde tudo podia. Para a avó paterna, ela representava as peças, provando que a atuação já corria nas veias desde que o mundo é mundo.

Com mãe psicanalista e pai psiquiatra, a atriz brinca que teve um minidivã no lugar do berço e que a primeira palavra foi Freud - talvez para alegria dos pais. Mãe de Luiza, de quatro anos, ela conseguiu manter a infância fantástica ao escolher a dramaturgia como fonte de alegria e de renda e, de quebra, transmite a tradição para a herdeira. Vale tudo na brincadeira das parceiras.

Vale também continuar realizando os sonhos. Por isso, Maria não tem grilo ao bater na porta de quem quer que seja para pedir uma oportunidade. Até de Woody Allen ela já foi atrás. E ganhou resposta! A persistência deu base para a atriz que segue aprendendo. Cria do teatro - ela começou com 13 anos no Tablado, no Rio - , hoje ela está na tela na atual novela das 18h da Globo como Laila.

O papo passeou muito na realidade da personagem, que já chegou com pé na porta na trama de Lícia Manzo. Gerada por inseminação artificial e criada por duas mães, a questão do preconceito e da homofobia seguem rondando os trabalhos de Maria Eduarda (que em “Em Família” interpretou a lésbica Vanessa). Maria não tem receio de botar a cara a tapa sobre o tema. Aliás, ela acha que é mais do que sua obrigação. Veja abaixo:

Maria Eduarda de Carvalho
Maíra Coelho/Agência O Dia
Maria Eduarda de Carvalho


iG: Este é seu terceiro encontro com a Lícia Manzo. Você fez “Tudo Novo de Novo”, “A Vida da Gente” e agora “Sete Vidas”...
Maria Eduarda de Carvalho: Isso, e pretendo encontrar sempre porque sou devota da Lícia. Nas obras dela, todo mundo é mocinho e vilão ao mesmo tempo. Somos nós, é muito palpável, muito consistente. Ela fala do humano com muita propriedade.

iG: A Laila já chegou de maneira abrupta na trama, mostrando que tem personalidade muito forte. Você acha que essa impulvisidade dela é como um mecanismo de defesa?
Maria Eduarda de Carvalho: Acho que sim. Estou conhecendo a Laila junto com o público. A gente vai buscando ao longo da vida infinitas formas de proteção. A beleza da Laila é exatamente essa, ela é muitas coisas em uma. Ela é impulsiva, agressiva e sem filtro, mas ela tem uma carinho imenso pelo irmão gêmeo (Luís, vivido por Thiago Rodrigues ) e pelos outros irmãos que ela está conhecendo agora. Ela é capaz de se colocar em situações de altíssimo risco para proteger alguém.

iG: Logo nas primeiras cenas, a Laila apareceu beijando Vicente (Ângelo Antônio), que é marido da mãe de seu irmão. Ela é confusa com homens ou ama uma encrenca?
Maria Eduarda de Carvalho: Ela agiu sem maldade, foi por impulso. Ela entendeu tudo errado, achou que pintou um clima e pá! Tascou um beijo no padrasto do meio-irmão. Ela tem uma relação difícil com os homens, é um pouco truncada, sabe? Acho que isso acontece não pelo fato de ela ter duas mães, mas ela tem questões assim como o Luís tem com relação a isso. Alguma coisa dessa inseminação complicou um pouco a relação dela com os homens no sentido de que ela não consegue se envolver com ninguém. Ela dá sempre um jeito de se enfiar numa relação furada ou boicotar aquilo que está sendo legal.

iG: Seus últimos personagens tem uma mesma pegada de rebeldia. A Nanda de “A Vida da Gente” era assim, a Vanessa de “Em Família” também, e agora a Laila. Por que você acha que isso acontece?
Maria Eduarda de Carvalho: Engraçado, eu não vejo muito essa relação. Acho que a Vanessa era mais monotemática, ela tinha uma obsessão por aquela outra mulher e a revolta dela estava focada naquilo. Não a enxergava como uma transgressora, de falar tudo que pensava por qualquer coisa. A Nanda tinha isso de forma impotente, mas ela era adolescente. Era uma coisa mais infantil. A Laila vai mais fundo nessa transgressão, ela é mais punk. Ela já passou um pouco da idade, do ponto de fazer isso. Ela é uma balzaca, tem 32 anos, e ainda está nessa de ‘peguei o amigo do meu namorado’, sabe?

iG: Você foi rebelde em algum momento da vida?
Maria Eduarda de Carvalho: Não, fui bem serena. Eu sou muito diferente dessas personagens. Outro dia estava até comentando ‘será que as pessoas vão achar que eu sou assim também na vida?’ (risos). Não tem nada a ver comigo. Pertenço mais ao tempo da delicadeza. Claro que em algum momento todo mundo vai ter um rompante de estresse. Mas prezo em falar as coisas que penso de forma mais comedida.

iG: Na história, quem vive sua mãe é a Regina Duarte. Como é gravar com ela?
Maria Eduarda de Carvalho:  Ainda fico muito nervosa, mas acho que disfarço bem. O que acho mais fantástico nela é que uma pessoa que alcançou tudo que já alcançou, e ainda quer ir mais. Não bastou. Ela rala, troca, é parceira de cena fantástica, quer jogar com o outro, sabe? Ela não está ali para fazer o dela só, ela está ali para o jogo da contracenação. Estou encantada.

iG: Como você se preparou para entrar nesse universo da Laila?
Maria Eduarda de Carvalho:  Conversei com uma família bastante parecida com a configuração da Laila. Foi um encontro fantástico. Essa moça teve um filho, e a ex-mulher dela teve outro, uma filha. Os dois são irmãos, filhos do mesmo doador de sêmen. Eles, por exemplo, são crianças que não sofreram o bullying que Laila e Luís sofreram na escola. Me contaram uma história bem diferente nesse sentido. Me deu um ganho no sentido de palpar essa trama. O doador para mim, agora, é físico.

iG: E para você qual a importância de um assunto como esse, de uma família criada por duas mães, estar na TV em uma novela?
Maria Eduarda de Carvalho: É um caminho, é uma via contra o preconceito. Temos uma estrada longa de combate contra o preconceito. Faço muita questão de me posicionar, porque em ‘Em Família’ eu conheci muitas meninas que vieram me falar da importância na vida delas do assunto estar na TV. É um pouco distante, não é minha realidade, mas muitas meninas me falaram como foi importante para abrir o diálogo em casa, para conversar com a mãe, e por conta delas até hoje faço questão de falar, de dizer o que eu penso, de me colocar contra esse preconceito, contra a homofobia.

iG: Acha que é um pouco da função social do ator?
Maria Eduarda de Carvalho : A gente também funciona para isso, também é papel do ator. É um trabalho de conscientização mesmo. Na escola da minha filha acontece uma coisa que acho muito bonita e que me dá esperança. Ela tem quatro anos e ela convive na mesma sala com uma menina que foi adotada por uma mãe só, sem marido, e outra que também foi adotada por um casal de duas mães. Para a Luiza, aquilo é a realidade dela. Não tem muito estranhamento. Outro dia ela me perguntou ‘mãe, você acha que você vai querer namorar uma mulher?’. Eu respondi que ‘mamãe prefere namorar homem, mas tem mulher que prefere namorar mulher. E tudo bem’. É isso. Tenho muita fé nessas crianças que estão crescendo nesse mundo de diálogo e de mais exposição. Nisso tudo, para mim é o amor que importa mais.

iG: Você recebe muitas críticas nas redes sociais quando se posiciona sobre a homofobia?
Maria Eduarda de Carvalho : Eu leio pouco. As pessoas falam qualquer coisa, né? Tenho muito cuidado para não ficar muito vidrada nisso. Como tenho muitas seguidoras gays, a maioria é mensagem positiva. Faço isso muito por elas, sabe? É meio que uma coisa do tipo ‘ó, vocês não estão sozinhas, não. Estou aqui com vocês’. É uma coisa muito necessária.

iG: Voltando um pouco na sua história, seus pais sempre te apoiaram na decisão de se tornar atriz?
Maria Eduarda de Carvalho : Eles ficavam muito preocupados com essa escolha, apesar de me apoiarem, mas achavam que eu tinha que ter alguma coisa para me segurar caso eu não conseguisse me sustentar atuando. Logo que comecei a estudar, vi que eu seria muito infeliz se eu fizesse qualquer outra coisa da minha vida. Eu escrevia peças, sátiras familiares e botava meus primos e minha irmã para encenarem no fim do ano. Às vezes eles se rebelavam porque eu era uma diretora muito estressada, e faziam um motim dizendo que não ia ter peça (risos). Meus avós logo interviam e dava tudo certo.

iG: E é verdade que você não tem medo de bater na porta de quem quer trabalhar?
Maria Eduarda de Carvalho : Eu faço muito isso. Fiz com o Gilberto ( Braga , que lhe chamou para sua primeira novela, ‘Paraíso Tropical’), fiz com algumas outras pessoas. Fiz até com o Woody Allen, você acredita? E ele me respondeu (risos)! Eu queria, claro, que ele tivesse me chamado para fazer um filme, mas pelo menos eu tenho um email dele (risos). Quero ainda encaixar essa história em uma peça que estou escrevendo e botar o email dele no telão para as pessoas verem.

iG: Como foi isso?
Maria Eduarda de Carvalho: Woody Allen é uma espécie de mestre superior e os filmes deles fazem muito sentido para mim. Sou muito encantada pela obra dele. E quem não tem um sonho de trabalhar com um grande ídolo? Enfim, fui para Nova York há um tempo, e botei na minha cabeça que eu ia dar um jeito de entregar uma carta para ele com o único curta metragem que eu tenho, chamado ‘Gilda’. É minha única relação com cinema. Foi tudo ardilosamente pensado. Comprei ingresso para ver o show da banda dele, aliás, o ingresso mais caro, porque estava com medo de ficar muito no fundo. Não tinha jeito dele escapar (risos). Eu queria que pelo menos ele soubesse do quanto faz sentido para mim. A carta dizia isso, e mostrava o curta, que é muito incompreendido. A gente achou hilário fazendo, mas todo mundo que assiste fica com uma cara meio ‘ahn?...’. Na carta eu falava para ele que não sabia se meus amigos estavam muito sem humor ou se realmente o curta não tinha graça nenhuma.

iG: E ele te respondeu?
Maria Eduarda de Carvalho : Eu botei meu email lá na carta e ele me respondeu com uma análise crítica do curta, foi fofíssimo. Ele disse que algumas coisas eram bacanas, mas que ele de fato achava o roteiro muito frágil. Disse que se a gente fizesse umas adaptações ficaria muito melhor. E concluiu dizendo ‘acho que seus amigos têm razão: o curta não tem graça nenhuma’ (risos). Foi fantástico.

iG: Você não tem medo de se arriscar. Dá mesmo a cara a tapa e bate na porta mesmo, né?
Maria Eduarda de Carvalho : Eu me arrisco. E acho que existem formas e formas de fazer isso. Se você for respeitoso, chegar com delicadeza, humor, cuidado… Tudo bem, sabe? O máximo que vai acontecer é o cara não te abrir a porta, não te responder… Mas, enfim, o não você já tem, né? Vamos tentar o sim.

Maria Eduarda de Carvalho
Maíra Coelho/Agência O Dia
Maria Eduarda de Carvalho


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