Doses exageradas de corrupção, traições e temas sombrios afundaram a novela da Globo, que precisa reagir rápido


Com um elenco repleto de atores talentosos, vivendo grandes personagens, cenas cuidadosamente escritas e direção afinada, "Babilônia" se transformou no pior pesadelo da TV Globo.

A rejeição aos primeiros capítulos da trama de Gilberto Braga , João Ximenes Braga e Ricardo Linhares , com direção geral de Dennis Carvalho , é extremamente preocupante para a emissora, ainda mais se levando em conta os fatores citados no parágrafo anterior. Por que a novela não é um sucesso?

Para começar, e isso já é esperado sempre que uma novela de grande audiência acaba, que foi o caso de “Império”, há um período de luto até que os telespectadores se acostumem ao novo e se desapeguem da trama anterior. Mas falamos aqui em dias, jamais em semanas. É por isso que os autores começam a escrever os primeiros capítulos de suas novelas com tanta antecedência, pensando na melhor maneira de conquistar sua audiência.

A maldade ultrapassou seu limite

Babilônia conseguiu o efeito contrário. Começa com uma mulher matando o amante a sangue frio para que ele, motorista de seu noivo, não atrapalhe seu futuro casamento. 

E o desenrolar da primeira semana foi o despejar de uma tonelada de lenha numa fogueira que já estava com o fogo alto. É o político corrupto que engana a família inteira, o empresário que passa o tempo todo planejando com a mulher como ficar ainda mais rico de maneira ilícita, a mulher traindo o dito cujo com todos os homens que vê pela frente, a mãe tentando cafetinar a filha, o filho que faz de conta para a mãe que é bem sucedido honestamente, quando, na verdade, está envolvido com tráfico de drogas e prostituição, o filho do milionário fazendo tudo errado e passando por tudo ileso porque tem dinheiro e por aí afora.

Glória Pires nunca este tão bem em uma novela como agora, dando vida a Beatriz. Adriana Esteves também está dando um show como Inês. Mas essa relação doentia das duas e as maldades que elas tanto arquitetam ainda é para poucos. O povão gosta da Nazaré, da Cora. Vilãs, loucas e com uma pitada de diversão.  

Lutar por quem?

A mocinha, o único respiro no meio dessa fumaça asfixiante ficou perdida no meio disso tudo. Para ajudar, é do tipo espevitada, até um pouco masculina, algo em que se transformou após os percalços da vida... A Regina de Camila Pitanga ainda não entregou motivos para que o público torça por ela.

É claro que a novela precisa refletir a quantas anda a sociedade, não dá para ignorar que a vida está cada vez mais difícil etc. Mas a novela obrigatoriamente precisa fazer isso sem esquecer que a grande maioria do público quer o sonho, quer dar risada, quer se emocionar, quer ser feliz. Quer viver por meio da trama, aquilo que não tem a capacidade de viver na vida real. E nisso Babilônia peca bastante. 

Até parece que Gilberto Braga esqueceu do fracasso de “O Dono do Mundo” (1991), escrita por ele mesmo, e que até hoje está entre as novelas das 21h com a pior audiência da história. Uma novela genial, do ponto de vista crítico, mas detestada pelo público. Justamente por ser uma novela extremamente pessimista, em que o vilão se dava tão bem que a mocinha acabou sendo odiada pelos telespectadores. 

O beijo lésbico no primeiro capítulo

E aí entramos na questão do casal de lésbicas vivido por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg . A teledramaturgia deve, sim, mostrar e discutir a homossexualidade, cumprindo uma função social importantíssima. 

A novela educa, ensina, pode ajudar a amolecer o coração de um país ainda tão preconceituoso. Mas se trata de um assunto que deve ser mostrado com muita delicadeza. Um beijo entre as duas senhoras no primeiro capítulo? O brasileiro não está pronto para isso.

Silvio de Abreu não foi obrigado a explodir um shopping, em “Torre de Babel”, para dar fim ao romance entre duas mulheres e um viciado em drogas, personagens que não eram aceitos pelo público? Por mais que tenha sido em 1998. O brasileiro ainda precisa de mais tempo para lidar com tanta coisa. E Babilônia começou com informação demais.

Mais humor por favor

Os núcleos cômicos não existem nas novelas por acaso. Estão ali, inclusive, para aliviar a trama, equilibrar os momentos mais tensos com cenas mais leves e descontraídas. Em Babilônia, o tempo é tão fechado, que os atores responsáveis por clarear a novela quase não aparecem. Além disso, o casal vivido por Maria Clara Gueiros e Gabriel Braga Nunes não engrenou. 

Marcos Veras está fazendo um ótimo trabalho, mas a relação com Nunes e seu principal companheiro de cena, o ator Igor Angelkorte , também não rolou. Ainda. O potencial dos três atores é forte, assim como Gueiros, que é uma atriz excepcional.

Reformulação

A abertura da novela, que de solar só tinha o samba de Mart’nália , passou a ser mais clara, colorida. Também pipocam por aí que serão feitas alterações nos perfis de alguns personagens. Além disso, as tramas paralelas também devem ganhar mais força. E merecem. O núcleo jovem é ótimo, só precisa de mais espaço. Os diálogos também merecem mais capricho. Alguns são muito chatos, não prendem a atenção. Os discursos de Regina, por exemplo, dão sono, enquanto os diálogos das vilãs acabam sendo sempre mais divertidos.

A esperança é...

São esses ajustes, além de mais bom humor, otimismo, leveza e equilíbrio maior entre o bem e o mal que podem salvar Babilônia. Mas que essa operação seja rápida, porque quem está saindo ganhando com isso é a concorrência. Tem reprise de “Carrossel” no SBT, tem a saga religiosa "Os Dez Mandamentos" na Record e ainda tem a novela “Mil e uma Noites”, na Band. Bora dar um jeito nisso aí, Gilberto! 


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