Depois de altos e baixos, hoje ele se diz equilibrado e desafiado pela "nova profissão": a de apresentador na TV, um universo que o encanta e que lhe causa projeção e mais visibilidade

Não é difícil notar o boom que os programas de gastronomia sofrem na TV hoje em dia. Seja na fechada ou na aberta, o bate-panela tomou a programação de grandes canais - e retorna em audiência muito bem, obrigada. Felipe Bronze , o chef carioca de 36 anos, viu na nova demanda uma possibilidade de fugir da rotina do fogão. Na verdade, ele flerta com a TV desde 2004, quando fez os primeiros episódios do quadro “O Mago da Cozinha”, exibido até hoje no “Fantástico” (Globo). De lá para cá, muita coisa mudou na vida do chef, mas o namoro com a telinha esquentou. E rendeu mais frutos.

O iG encontrou Felipe nos bastidores do "Que Seja Doce", novo reality show do GNT que estreia em 2015 e traz o cozinheiro no papel de apresentador pela primeira vez. É no canal também que ele montou o “Comidinhas de Chef”, onde mostra receitas caseiras com um toque especial (totalmente diferente do espetáculo exibido no “Fantástico”). Felipe se mostra à vontade nos bastidores e em estúdio. Dá pitaco, pergunta se está tudo ok, se vira bem no ponto e nos 30. Mas para chegar até aqui, até o equilíbrio, o caminho foi longo e cheio de altos e baixos.

Nascido no Rio, de família bem de vida, aos 19 anos se mandou para Nova York para estudar gastronomia. Voltou para o País após o 11 de setembro e, depois de um convite para montar um cardápio especial para o Sushi Leblon (aquele mesmo que a Madonna e tantos outros astros já visitaram), parou como chef no vizinho Zuca.

Anos (e prêmios) depois, veio o convite para abrir o Z, um empreendimento que lhe deu amores, reconhecimento e dor de cabeça. Na entrevista ao iG , o dono dos bem-sucedidos Oro e Pipo, no Leblon, não pesou ingredientes para falar sobre sua trajetória. Ele se mostrou intenso em tudo na vida, apaixonado por suas apostas e ambicioso na medida certa. Com vocês, o chef Felipe Bronze:

iG: A TV flerta com você de que forma?
Felipe Bronze:  Cozinha é muito mais do que alimento. Gastronomia é uma junção de cultura, ideias, tem seu lado de arte, e se você ficar restrito a mostrar esse universo apenas para quem vai ao seu restaurante comer, quantas pessoas vão saber das suas ideias? Acho que é cultura, é mais do que um ato fisiológico de você precisar comer para ficar em pé. E a TV me dá a possibilidade de comunicar e me expressar de maneira diferente.

iG: Arrisco dizer que, além de tudo isso, é divertido para você?
Felipe Bronze: Muito. Tenho muito tesão em fazer TV. O “Fantástico” tem uma pegada da cozinha mágica. A mensagem daquilo, evidentemente, não é para a pessoa pegar e reproduzir em casa. A ideia que você passa para a pessoa que está em casa é: se joga, se diverte, seja criativo! Cozinha é lugar de se divertir. Já o “Comidinhas do Chef” (GNT) é uma ideia bem prática: quando você estiver com os amigos, olha que coisas simples você pode preparar. Você sai do universo lúdico, mágico, do campo das ideias e do estudo, para o dia a dia. Outra coisa que gosto no “Fantástico” é que consigo mostrar em uma linguagem espetacular - porque aquilo é espetáculo, né? - elementos como tucupi, cupuaçú, bacuri, umbu… Quer dizer, você vê o Brasil que os brasileiros não conhecem. Estou apresentando para o brasileiro um espetáculo… brasileiro!

Felipe Bronze no 'Fantástico'
Divulgação
Felipe Bronze no 'Fantástico'

iG: Mas já vi muita gente não entendendo essa proposta e criticando o quadro por não conseguir reproduzir em casa…
Felipe Bronze: Mas aí acho que existe uma confusão. O “Fantástico” não é um programa de serviços. A Ana Maria Braga , de manhã, é um programa de serviços. O “Fantástico” é um programa de jornalismo/entretenimento. Então, aquele momento é para mostrar como a cozinha pode ser lúdica, é para te levar para viajar pelo Brasil que você não conhece. Vai te trazer reações, muitas vezes estranhas ou memórias afetivas, mas o propósito dele é simplesmente mostrar como um assunto banal pode ser espetacular.

iG: Na sua cozinha tem espaço para improvisação? Porque parece tão equilibrada...
Felipe Bronze: Ela é. Reflete a minha personalidade também. Sou muito organizado e retilíneo. Aonde me permito maior anarquia é no campo das ideias, e daí sim tem muito espaço para improviso meu e de todo time que trabalha comigo. Mas meu improviso não é irresponsável. A gente improvisa muito, mas antes de chegar na mesa. Quando o show começa, está ensaiado. É como uma peça de teatro. Um caco, no teatro, você acha que veio do nada? Não é bem do nada… Você já espera um caco de um ator, por exemplo, que é engraçado. Na nossa cozinha também é assim.

iG: Antes de Nova York, onde você se profissionalizou, quem foi sua grande inspiração na cozinha?
Felipe Bronze: Tenho duas maneiras de encarar isso. De maneira subjetiva, meu pai cozinhava muito e convidava bastante os amigos. Me lembro muito bem que essa coisa em torno da comida era muito legal. Já a comida em si não era tão boa (risos). Fui uma criança tarada por prato colorido, com legumes, etc. Tinha horror a prato monocromático. Toda vez que falo disso digo que morro de inveja dos franceses, que têm a lembrança do cheiro de torta de maçã da avó e bla bla bla… Nossa, não lembro de cheiro nenhum, de torta nenhuma de nenhum familiar (risos). Mas isso, por um lado, é bom, porque não tenho uma cozinha sólida no meu DNA, então me fez olhar com um distanciamento e pude escolher o que me interessa. Agora, como referência objetiva, o Claude Troigrois me inspirou demais. Além disso, outros contemporâneos dele também me inspiraram muito, como o chef Laurent ( Suaudeau ), e até mesmo o José Hugo Celidônio .

iG: Atualmente, o que a gente vê na TV é um boom de programas de culinárias e uma pulverização de chefs. O que você acha desse movimento?
Felipe Bronze: Hoje em dia essa profissão é um pouco hippie. Todo mundo acha legal ser cozinheiro. O que me deixa muito louco porque vejo vários cozinheiros famosos, chefs consagrados, reclamando disso. 'Ah, cozinha não é isso', 'essa profissão não é glamourosa', 'estão inventando uma coisa que não existe'... Tenho muita dificuldade de entender isso, porque a gente lutou 15 anos para a profissão virar uma profissão reconhecida e aí de repente a profissão fica bacana e o pessoal quer criticar a profissão. Não entendo qual é o raciocínio por trás disso. Quando estudei gastronomia fora, eram poucos brasileiros que estavam no cenário.

iG: E o que mudou esse cenário?
Felipe Bronze: O brasileiro tem mais acesso à comida. O universo da gastronomia se expandiu, as pessoas têm produtos diferentes à venda e estão comendo coisas diferentes. E isso sofistica o paladar. Com o paladar sofisticado, vem a curiosidade. A profissão vive um momento esplendoroso, as pessoas estão comendo mais fora de casa, então tem espaço para tudo. Por isso acho que a gente tem que aproveitar essa demanda e levar adiante com muito orgulho. Esse boom é muito válido, é o que vai tornar a profissão realmente de verdade, não a subprofissão que era quando comecei.

iG: Você é um cara múltiplo, que fez das referências uma salada e encontrou sua própria identidade.
Felipe Bronze: Sim, mas acho que isso é normal em qualquer profissão e em qualquer profissional. Tenho muito medo quando chega um cozinheiro com 20 anos na minha cozinha e diz que tem um estilo, uma ideia. Acho muito jovem para você ser dono de um estilo. É um erro que eu incorria muito. Quando tinha 20 e poucos anos, achava que tinha um superestilo. Faz parte também da juventude. Os anos vão passando e você vai ficando crítico com coisas que você, quando jovem, reclamava dos outros. Quando eu era jovem, achava que os cozinheiros mais velhos e reconhecidos eram muito preconceituosos comigo. Anos depois, me pego como eles. E daí lembro disso, e como para mim deu certo, penso que não posso ter esse tipo de preconceito. Faço uma ginástica, um exercício, para estar o tempo todo aberto, e no fundo isso é o que garante o frescor das ideias. Por isso, acho que minha cozinha não envelhece mesmo. Ela está ficando cada vez mais jovem, mais destemida, mais vibrante. Por outro lado, quando entro na cozinha estou muito mais sério, calmo, conciso…

iG: Na cozinha você é assim?
Felipe Bronze: Super!

iG: Nossa, imaginava sua cozinha uma barulheira, todo mundo falando, gritando…
Felipe Bronze: Imagina! É supertranquila, calma e bem-humorada. Tenho horror daquelas cozinhas bravas, tensas… E posso criticar porque já fiz isso. As minhas cozinhas eram assim, era só esporro. Hoje me permito ter uma única crendice, que é a energia. Nas cozinhas de restaurantes que trabalhei mais jovem e que, erroneamente, copiei no meu início de carreira, parecia que a porta da cozinha para o salão era um portal mágico. De um lado era um estresse, esporro, todo mundo xingando, gritando, panelada… E do outro lado, um piano tocando, todo mundo sorrindo… Era uma loucura (risos). Confesso que copiei isso no meu começo de profissão e bem copiado. Dos bravos, talvez tenha sido o mais bravo. Quem trabalhou comigo nessa época com certeza não me esquece. Já cruzei com um cara na rua que fui cumprimentar e ele atravessou para a outra calçada! É muito ruim. Não tenho o menor orgulho disso. Tenho uma vergonha inenarrável.

iG: E como é hoje?
Felipe Bronze:  Não preciso mais engrossar a voz e falar alto para me fazer respeitar. Acho que isso é quase primitivo. Tento me manter um pouco afastado disso. E tento contratar as pessoas que vão se alinhar com a nossa filosofia de trabalho.

iG: Sobre os restaurantes, você recebeu a proposta para abrir o Z quando era chef do Zuca, no Leblon. Mas o restaurante fechou em pouquíssimo tempo. O que aconteceu?
Felipe Bronze:  O Z foi um estouro, ganhei quatro vezes mais prêmios do que ganhei no Zuca. E no final de 11 meses ele fechou. Éramos três sócios e houve um desentendimento, uma confusão generalizada. Acho que pela idade - eu tinha 24 anos - , achei melhor sair do problema do que encarar. Quando fechou, achei que a imprensa foi muito dura comigo. Parecia que era preciso justificar ter me dado tanto prêmio e o restaurante ter dado errado, e foram um pouco levianos com a minha história. Essa história do Z tem um segredo, tem uma história que não é para falar para ninguém e não vou falar. Foi um problema que deu entre os sócios que foi uma cagada insolúvel. Se fosse uma loja de discos, ninguém teria falado nada, mas como na época eu fazia TV, estava com visibilidade, foi uma surpresa ruim. Eu também não me ajudava, né? Era muito petulante.

iG: Você tinha o comportamento muito estourado?
Felipe Bronze: Não, estourado nunca fui, mas era muito petulante. Achava que as pessoas eram muito levianas, então ironizava… O problema é que, quando você é novo e não leva as coisas muito a sério, você soa petulante. Você não leva a sério porque é blasé mesmo, entendeu? Eu era bem blasé. Evidentemente, não foi o melhor momento da minha vida. Pelo contrário, foi o pior.

iG: E qual foi o momento da virada, do Felipe blasé para o Felipe de hoje?
Felipe Bronze: Foi quando eu estava no Marina. O trabalho lá era o contrário do que eu tinha me preparado para fazer na vida. Não me entenda errado. Quero me fazer entender, mas sem soar uma babaquice. Quando resolvi ser cozinheiro, queria ser um grande cozinheiro. Vim de uma família que tinha negócio de comida de avião, o meu avô era um homem bem de vida e quando resolvi estudar gastronomia causei um certo choque nas pessoas ao meu redor. Não era uma profissão bacana na época. E o que eu tinha muito claro na cabeça era o seguinte: bom, se vou ser cozinheiro, tenho que ser o melhor do mundo, senão vou morrer de fome. Essa demagogia me chateia. Não é porque sou cozinheiro que fiz voto de pobreza, entende? Não sou monge, não sou padre. Quis ser cozinheiro e queria me dar bem na profissão, queria ganhar dinheiro, morar num lugar legal, ter um carro legal, colocar meu filho nas mesmas escolas que estudei…

Dos bravos, eu talvez tenha sido o mais bravo. Quem trabalhou comigo nessa época com certeza não me esquece

iG: Quer dizer que ter ambição não é pecado. É isso?
Felipe Bronze: Isso, não acho que é pecado. Pelo contrário, ambição é qualidade. Preciso de desafio, coisa nova, movimento. Não consigo ficar parado. Tem uma pessoa que me conhece muito bem que diz que tenho uma infelicidade permanente. Tenho mesmo, mas apesar disso eu consigo ser muito focado.

iG: Voltando para a TV, você curte o título de 'mago da cozinha'?
Felipe Bronze : Você precisa ter maturidade para entender a TV, senão você pira. Sou chef de cozinha, é minha profissão. Evidente que não espero que uma tiazinha que mora lá no interior do cafundó do sertão nordestino me veja no domingo no “Fantástico” e tenha conhecimento sobre minha história e carreira. Não! Isso é TV, é entretenimento. O que me deixa um pouco chateado é quem é do mercado da gastronomia, sabe sua história e olha para quem está na televisão com um olhar do tipo 'esse cara está fazendo o que aí? Não é mais cool, não é mais da sociedade secreta dos cozinheiros.'

iG: Como quem diz que você se vendeu?
Felipe Bronze:  Acho isso uma bobagem daquelas que me dão preguiça profunda na alma, sabe? Em qualquer lugar do mundo isso é um grande momento. Você transcende tanto a sua profissão, você fez aquilo bem e tem outras qualidades. Por acaso sou falante, por acaso tenho bom humor, por acaso li muito quando era novo… Isso te leva para outra possibilidade. E você agarrar essa outra possibilidade e manter, ao mesmo tempo, o pé firme nas outras coisas que você fez e faz… Gente, isso é bom! Mas as pessoas acham que não. Aí vira esse negócio do mago da cozinha. O que eu posso te dizer com muitíssimo orgulho - posso estar enganado - é que não conheço nenhuma história que venha à minha cabeça agora de um chef que tenha tido, em paralelo com a TV, um sucesso tão grande no mercado de gastronomia. Não me lembro agora, e posso estar enganado, repito. Para um crítico de gastronomia, você estar na televisão atrapalha. O pessoal acha que você abandonou seu negócio, e não! No fundo, no fundo, é um marketing maravilhoso para o meu restaurante.

iG: Fora que é, para você que tem a alma inquieta, uma nova profissão, né?
Felipe Bronze: Claro, e isso é muito divertido. Gosto muito de fazer televisão, porque sai totalmente do universo que estou habituado. Sou cozinheiro desde que tenho 18 anos, hoje estou com 36 anos. Para os brasileiros, em geral, a cozinha é uma segunda opção. No meu caso não foi diferente, porque antes da gastronomia, comecei economia e direito. Na verdade, a vida não tem anos suficiente para eu fazer tudo que gostaria de fazer. Muito assunto me interessa, como TV, artes, filosofia… Adorei poder dispensar tempo e energia nessas outras coisas. Então, ter a possibilidade de fazer TV mantendo um pé lá e um pé cá é uma delícia.

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