Aos 41 anos, Alessandro Buzo é a voz da periferia na TV


Alessandro Buzo é apresentador do Cultura SP, na TV Globo, há três anos
Arquivo pessoal
Alessandro Buzo é apresentador do Cultura SP, na TV Globo, há três anos

Há três anos, Alessandro Buzo  levanta as questões da periferia todos os sábados no telejornal “SPTV”, transmitido pela Globo ao vivo para a Grande São Paulo. Reconhecido dentro e fora dos estúdios da emissora, o escritor, cineasta e ativista do Itaim Paulista, Zona Leste da cidade, é figura frequente também em outras atrações da casa, como o "Programa do Jô" e "Encontro com Fátima Bernardes", por exemplo.

Usando uma camisa em homenagem ao centenário do Palmeiras, seu time do coração, Buzo - como gosta de ser chamado pelos amigos novos e antigos - , recebe a reportagem do iG em sua livraria, a Suburbano Convicto, no Bexiga, a única especializada em literatura marginal no Brasil. Em meio a murais de fotos com os famosos globais, como Luana Piovani e Marina Ruy Barbosa , e registros com outros artistas ainda anônimos, o escritor, ativista e cineasta se mostra à vontade para contar um pouco da sua história. Garoto da periferia, a vida de Buzo não foi muito diferente de muitos adolescentes do subúrbio. “Usei muita cocaína, por muito tempo, até para trabalhar. Não tinha dinheiro para nada, só fazia uns bicos para poder comprar a mistura”, lembra ele, que chegou a ser pedreiro na construção civil e representante de produtos de limpeza. “Agora, comemoro três anos de Rede Globo após vencer as drogas e o preconceito de ser da periferia. Consegui isso por dois motivos: o primeiro, foi o amor que sentia por minha noiva (hoje mulher, com quem tem um filho, Evandro), Marilda. Fiquei noivo e precisava ser bom para ela. O segundo, foi o jeito que encontrei para conseguir ser esse homem melhor, dedicando-me à literatura e à cultura em tempo integral", conta Buzo, que decidiu trilhar um novo caminho em 2008. "Na época, fui pedir emprego de qualquer coisa em uma produtora, a mesma que vende meus quadros hoje em dia para a Rede Globo de Televisão”, comemora.

Sucesso na periferia

Sarau Suburbano Convicto: casa cheia de autores amadores e profissionais
Arquivo pessoal
Sarau Suburbano Convicto: casa cheia de autores amadores e profissionais

Agitador cultural na comunidade, Buzo viu seu destino mudar de repente. "Organizava o 'Favela Toma Conta' e a produtora me pediu para filmar o evento. Quando eles viram que eu conseguia reunir 3 mil pessoas para falar sobre cultura da periferia, resolveram montar um quadro para mim e venderam inicialmente para a TV Cultura, para o ‘Programa Manos e Minas’. Futuramente, a Globo me procurou e estou lá, muito feliz”. 

Em seu primeiro livro, “O Trem”, Buzo descreve a realidade da periferia e mostra “uma nova forma de engajamento e empoderamento social” tendo como base a produção cultural. Seu livro “Profissão MC” chegou a ser adaptado para o cinema, com atuação do rapper Criolo . “O que eu tento fazer na TV é uma continuidade do que eu já vinha fazendo na quebrada, mas antes de tudo, sempre vou ser um escritor”, diz, revelando a intenção de fazer o filme “Profissão MC 2”. “Quero mostrar a produção cultural das ruas no cinema”.

Sarau

Autor de 11 livros – e mais um que está em fase de finalização – Buzo também comanda um encontro semanal de literatura, o Sarau Suburbano, que revela a cada encontro novos autores da rua. São quase 20h quando os convidados começam a chegar. A livraria fica de portas abertas, não há restrições para entrar. Em pouco tempo, o espaço de cerca de 15m² se enche de jovens, professores e poetas amadores e profissionais. A proposta é ouvir e ser ouvido. “A livraria começou no Itaim Paulista, mas não conseguia pagar o aluguel lá. Aí, um amigo me chamou para dividir o aluguel de um prédio no Bexiga. Muita gente que já me conhece há muito tempo pensou: 'Ele agora está na Globo, vai parar com tudo o que fazia na periferia, mas continuo nos meus eventos sociais. Amo o Itaim Paulista, amo a periferia. Acredito na mudança pela educação, cultura, esporte. Só é complicado manter os projetos em andamento porque muitas vezes porque falta incentivo”, lamenta.

Regina Casé

Buzo vê com bons olhos a iniciativa de programas como o "Esquenta", comandado por Regina Casé aos domingos na Globo, mas acha que o espaço para o tema poderia ser maior. "Regina é bem intencionada, mas acho que ainda cabem novos formatos para retratar a periferia. Tenho um projeto que é bem interessante, vamos ver o que rola".

Eleições

Além de almejar mais espaço na televisão, Buzo também pensa em tentar a carreira política. "Posso me candidatar, mas só se um dia eu deixar de trabalhar na TV. Acho, sim, que seria a voz do povo periférico e saberia desenvolver projetos que são realmente necessários", cogita. Para ele, a grande maioria da população não tem tempo de pensar em votar com consciência. “A galera que pega condução lotada todos os dias para trabalhar acaba aderindo à política do santinho por não ter tempo para assistir aos debates e à propaganda eleitoral. Por isso, acabam votando naquele político do carro de som, sem esperanças de que algo possa mudar verdadeiramente através do seu voto”, finaliza.

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