Na reta final da trama de Manoel Carlos, Maria Eduarda de Carvalho, fala sobre a personagem, a família e sua peça


Maria Eduarda interpreta Vanessa em 'Em Família'
Divulgação
Maria Eduarda interpreta Vanessa em 'Em Família'

A primeira pergunta de Maria Eduarda de Carvalho ao atender a reportagem do iG por telefone para esse despretensioso bate-papo foi direta: “você acha que vamos demorar muito?”. A dúvida era ultra legítima. Na importância dos seus três anos de vida, a filha Luiza ocupa toda e qualquer brecha que a atriz tem na agenda. “Eu quero ver se consigo pegá-la na escola”, rebateu, com aquele fundinho de culpa já conhecido pela mulherada que se divide na jornada dupla.

Acelerei. Era muito papo para botar na mesa: recalque de Vanessa, audiência de “Em Família”, o fim da personagem, família, maridão, amor, terapia, peça, Luiza… Deu tempo. Aliás, o tempo fluiu. Devota de Woody Allen e fã de carteirinha de seu humor ácido, Maria Eduarda equilibra bem esse temperamento no seu dia a dia. É alguém que, mesmo por telefone, passa uma boa energia, moldada em 32 anos de terapia. A gente explica.

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Filha de mãe psicanalista e pai psiquiatra, Maria Eduarda brinca que conheceu a análise no útero. “É uma coisa que faz muito sentido para mim. Eu acho que ajuda, e é uma visão de mundo. Você vê o mundo por determinado viés. É uma coisa que me agrada demais”, falou. O processo serve para colocar cada questionamento em sua caixinha, inclusive o da tal jornada dupla.

Casada com o cineasta Snir Wine há oito anos, ela descobriu na parceria um novo mundo. Depois que Luiza chegou, então, a vida ganhou mais graça. A vontade de aumentar a família é grande, mas é preciso manter o outro lado da balança em linha. Para isso, atualmente, finaliza os trabalhos como Vanessa na novela de Manoel Carlos e estreia dia 19 de julho, no Rio, a peça “Atrás da Porta”, de Guilherme Scarpa e Fernando Scarpa , com direção de Emílio Orciollo Netto .

Divido, abaixo, nossa ligação com você. Ela rebate o lugar de humilhação na qual Vanessa se coloca, debate o beijo gay no horário nobre, e ainda manda uma dica campeã para sua personagem: vai um divã aí? Confira na íntegra abaixo:

Marina (Tainá Müller) discute com Vanessa (Maria Eduarda)
TV Globo/ Divulgação
Marina (Tainá Müller) discute com Vanessa (Maria Eduarda)

iG: Entramos na reta final da novela, então já dá para fazer uma balanço sobre todo recalque da Vanessa. Ela não consegue se libertar, ir para frente ainda, né?
Maria Eduarda de Carvalho: Não, coitada, ela precisa urgentemente de uma análise (risos). Eu tenho muita pena dela (risos). Eu não tenho a menor ideia de onde essa história vai dar, mas eu torço para que ela elabore essa separação, porque está desde o início da novela no mesmo registro, pedindo pelo amor de Deus para a Marina ( Tainá Müller ) voltar para ela, e a Marina vem explicando desde sempre que aquilo não faz mais sentido e que ela não quer mais a Vanessa. Eu torço muito para que ela consiga virar essa página e seja feliz com outra pessoa. É difícil o negócio.

iG: Ela vive engolindo muito sapo, ainda mais agora com a Clara (Giovanna Antonelli) namorando oficialmente a Marina. Você acha que, talvez, fosse melhor para Vanessa abandonar a sociedade com a Marina e partir para um projeto próprio?
Maria Eduarda de Carvalho: Talvez, mas acho difícil. Elas têm uma coisa muito arraigada. Elas se estruturaram muito juntas. Outro dia, naquela briga das duas que rolou até tapa, a Vanessa disse para Marina que foi ela quem criou a grande fotógrafa que a Marina é. Quer dizer, é uma coisa muito misturada mesmo. E não sei se seria possível desfazer essa parceria, mas pelo menos se ela conseguisse olhar com outros olhos a Flavinha (Luisa Moraes), que é uma mulher tão linda, né?

iG: Você já chegou a declarar que adoraria que Vanessa desse o beijo gay de “Em Família”. Acabou que foi mesmo Giovanna e Tainá que gravaram a cena (e devem gravar mais duas). Você acha que rolou uma pressão externa forte, do público, das redes sociais, enfim, para esse beijo acontecer?
Maria Eduarda de Carvalho: É uma coisa do momento, né? Eu não sei, não consigo ver de uma forma diferente. Acho que às vezes o enfoque que as pessoas dão para isso é um pouco preconceituoso, porque eu acho natural. Existem casais héteros e existem casais gays. Eu acho que deveriam existir mais casais gays nas novelas, óbvio, porque é assim que é na vida e as novelas, geralmente, têm esse objetivo de retratar a vida como ela é. Eu torço para que gays se relacionem nas novelas como héteros. Se os héteros se beijam e fazem tudo que os casais fazem na vida real, por que os casais gays não têm esse aval? Por que é diferente? Tem uma demanda da internet que está fazendo muito barulho e cobrando para que seja mostrado de forma mais natural. Não que o preconceito não exista. Ainda existe e de maneira muito grande, mas os casais gays se beijam, né? Como os casais héteros.

iG: Você teria um comportamento à la Vanessa, de quase se humilhar para a pessoa que ama? Como que é isso pra você, de “valer tudo no amor”?
Maria Eduarda de Carvalho: Ah, não… O amor próprio é mais importante, vem em primeiro lugar. Eu não conseguiria, jamais, nunca fiquei em uma situação assim. Isso da Vanessa é meu maior desafio: é fazer isso de uma forma crível, comprar a lógica dela que é a de se humilhar mesmo e ir até o fundo do poço para ficar com aquela mulher que não gosta dela e já deixou isso bem claro. Eu não conseguiria ficar em uma situação assim, não.

iG: Você está casada há quanto tempo? E acha o casamento algo tão desafiador mesmo quanto todo mundo diz?
Maria Eduarda de Carvalho: Desde tudo, estou junto há oito anos. São seis anos de casada. É um desafio diário. É engraçado, porque eu não entendia muito quando era mais jovem e via a Nicette Bruno falando do casamento dela. Ela falava que você casa diariamente com a pessoa. Hoje, acho que não existe essa coisa do ‘esse deu certo’. Acho que a gente ‘vai dando certo’. Até mesmo os casais que acabam se separando, não quer dizer que eles não deram certo. Aquele tempo que ficaram juntos foi bom, né? O grande lance é você continuar querendo fazer dar certo. É um exercício diário, se você esquece ali, cai num lugar comum, é arriscado. Não acho que existe um amor da vida. O amor da vida se faz diariamente.

iG: Sobre Luiza, a filha de vocês, com essa loucura de gravação e ensaio de peça como você rebola para conseguir acompanhar a rotina dela?
Maria Eduarda de Carvalho: É difícil, é uma gincana alucinante. A gente não tem ideia do que é ter filho até ter de fato. É tudo junto, misturado, agora. É o maior amor do mundo, e o maior cansaço do mundo… É tudo junto (risos). Mas é fantástico e eu brigo muito por isso. Por exemplo, eu te perguntei do horário, porque quero muito buscá-la na escola. Como eu estou nessa rotina de gravar de dia e ensaiar de noite, se eu posso buscá-la eu vou mesmo que eu esteja cansada. Eu dou banho nela, a gente almoça juntas, cozinha.. Ou a gente fica deitada na cama inventando música. É difícil, você tem que encaixar, descobrir aquele tempo.

iG: Ela já entende o que é trabalho dos pais?
Maria Eduarda de Carvalho: Entende, mas claro que ela fica carente, tem dias que fica chateada, mas é maravilhoso. Eu recomendo muito para qualquer pessoa. Acho que a gente não tem ideia do que é a vida, do que é viver. É como se um mundo novo se descortinasse na sua frente. Você fala ‘ah, gente, ainda tem tudo isso e eu não sabia? Eu ia passar a vida inteira achando que era só aquilo?’ (risos).

iG: Vocês têm vontade de ter mais?
Maria Eduarda de Carvalho: Tenho muita vontade de ter mais, mas a minha profissão é muito cruel, muito ingrata, porque é muito inconstante. Você tem que aproveitar os momentos também. E eu gosto muito da minha profissão, nunca abriria a mão dela. Então, tenho que encontrar o timing do próximo.

iG: Ainda sobre a novela, segundos dados mesmo de Ibope e etc, não teve uma aceitação enorme do público. Supostamente passou alguns perrengues, crises, tal. Nos bastidores, como é que fica o clima? O que você acha que é preciso para uma novela ter êxito?
Maria Eduarda de Carvalho: Não sei, não me sinto nem preparada para falar o que é preciso. São muitos fatores que fazem ela cair no gosto e ser um "boom". O índice de audiência vem caindo gradativamente ao longo dos anos, e existem esses grandes fenômenos de audiência que eu também não sei explicar o que faz uma novela ter isso. Mas gravando, eu gostei muito desse time. É um time muito parceiro, que está junto, se dá força. A gente ri muito no camarim. Foi muito prazeroso independente de qualquer resultado de número de ibope. Eu fiquei muito feliz de conhecer essas pessoas e trabalhar com elas.

iG: Sobre "Atrás da Porta", me conta como essa peça chegou nas suas mãos.
Maria Eduarda de Carvalho: Esse texto é de um grande amigo meu de infância e do pai dele, o Guilherme Scarpa e o Fernando Scarpa. Eles são pessoas que fizeram parte da minha vida, da minha história, desde muito criança. Recentemente, eles tiveram um convite para fazer uma leitura na Casa da Gávea, e o Emílio Orciollo Netto leu como sendo o personagem Marcos, que o marido da Julia, minha personagem. Ele acabou se apaixonando pelo texto e , como já estava procurando alguma coisa para dirigir há muito tempo, sugeriu ao Guilherme montar a peça. Daí, o Emílio chamou o Bruno Padilha para o papel do Marcos, a Luiza Scarpa, irmã do Guilherme, e o Leandro Baumgratz completam o elenco.

iG: E foi perrengue para conciliar os ensaios com gravações? Porque vocês já estreiam dia 19, né? Um dia após o último capítulo da novela…
Maria Eduarda de Carvalho: A gente vai ter, no total, um mês e 10 dias de ensaio. É bem rápido, né? E sobre a agenda, ainda não foi, está sendo muito doido (risos). É um perrengue, sim, mas vale a pena, porque teatro é tão bom e eu não faço desde “Inbox”, que foi uma peça que eu produzi e montei com o Gregório (Duvivier) há quase três anos. Eu estava com muita saudade de fazer teatro mesmo.

iG: Como é a Julia?
Maria Eduarda de Carvalho: Pois é, eu sou de uma família de psicanalistas, né? Minha mãe é psicanalista, meu pai é psiquiatra, o pai do Guilherme é psicanalista... Então, eu cresci nesse universo da psicanálise, de Freud, das elaborações, e etc. E a Julia é uma mulher que acabou de começar a fazer análise e está enxergando um monte de coisas que talvez a incomodassem e ela não sabia muito bem dimensionar o que era. Ela, de repente, está se vendo com um mundo novo e precisa se posicionar de outra forma diante dessas coisas que ela está vendo e não via.

iG: Tem humor?
Maria Eduarda de Carvalho: Tem um humor muito ácido, que é bem característico do Guilherme e do Fernando. Eu diria que é uma comédia dramática, lembra muito esses embates do tipo ‘Quem Tem Medo de Virgínia Wolf’, tem uma coisa muito do Woody Allen, essa coisa psicanalítica. É divertida, mas é uma peça densa, porque fala da separação desse casal, do Marcos e da Julia.

iG: Nessa família toda de psicanalistas e etc, você faz terapia?
Maria Eduarda de Carvalho: Ah, eu comecei a fazer análise no útero, eu acho (risos). Há uns 32 anos, mais ou menos, eu faço análise. Estou brincando, mas eu faço há muito tempo. Já tive algumas experiências, já passei por alguns analistas… É uma coisa que faz muito sentido para mim. Eu acho que ajuda, e é uma visão de mundo. Você vê o mundo por determinado viés. É uma coisa que me agrada, faz sentido para mim.

Serviço
“Atrás da Porta”
Estreia: dia 19 de julho
Local: Teatro Gláucio Gill - Praça Cardeal Arcoverde, s/n, Copacabana, Rio de Janeiro


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