Dona de um programa na Fox, uma das apresentadoras mais carismáticas da TV fala da nova fase e relembra a decepção pela Gazeta: "Minhas coisas estão todas lá, não voltei para pegar"


É dia de gravação e a vovó mais querida do Brasil chega com antecedência aos estúdios da Fox Life em São Paulo. Uma hora antes da direção anunciar o famoso "gravando", Palmirinha Onofre já entra animada no estúdio, deseja bom dia a todos e pergunta sobre seu fiel escudeiro Huguinho.

Em um estúdio delicado e colorido, a produção ajeita os últimos detalhes, como talheres, recipientes e ingredientes que serão usados na gravação. Aos 82 anos, a apresentadora conversa com a equipe, confere a receita e recebe ajuda para ajeitar o microfone. Repassa o texto com a roteirista, ensaia brevemente por duas vezes com Huguinho e sugere algumas alterações.

Animada, faz piadas e brinca com um dos cinegrafistas: "para qual câmera eu olho? Estou dando um gelo em você, bonitão". Mais tarde volta a mexer com o mesmo profissional: "todo mundo aqui é jovem, menos você".

A gravação dura em torno de três horas, mas Palmirinha quase não erra o texto, e nem precisa regravar cenas. Enquanto abre a massa do pão que está preparando, mostra descontração e faz todos sorrirem nos bastidores com suas tiradas: "minha academia é sovar massa".

Logo após a gravação do programa, Palmirinha recebeu a reportagem do iG e conversou sobre diversos assuntos. 

Começo sofrido

Natural de Bauru, interior de São Paulo, Palmirinha trabalhava em uma metalúrgica e o salário mal dava para sustentar as três filhas. Até o uniforme da escola elas revezavam, já que estudavam em peíodos diferentes do dia. Quando todas passaram a estudar no mesmo horário, ela se viu obrigada a pedir ajuda a uma das madrinhas das meninas. O dinheiro veio, mas com a garantia de que fosse devolvido em 15 dias ou seriam cobrados juros. "Pensei: isso vai virar uma bola de neve e eu não vou conseguir pagar".

Foi quando Palmirinha foi para a rua vender sua primeira receita, o sonho, reinventado a partir de uma massa de pão doce, o panetone de sua família. No primeiro dia saiu mais cedo do trabalho e seguiu com os 30 sonhos em uma cesta de vime coberta por um pano de prato. Aproveitando que a rua onde morava tinha diversos salões de beleza, começou a oferecer o doce, e ali mesmo vendeu todos.

Saí da Gazeta por conta própria e é por isso que eles não me perdoam até hoje"

O empréstimo foi pago e a bem-sucedida venda dos sonhos fez Palmirinha aumentar o cardápio e oferecer outros doces, salgados e comidas congeladas. Ainda com verba limitada para as despesas domésticas, Palmirinha usava uma sandália de borracha que acabou a deixando na mão. E quem ajudou foi sua atual cabeleireira, que à época anotava os pedidos no salão em que vendia seus quitutes. Ela fez remendos e consertou a sandália da apresentadora. "Por isso que até hoje ela faz meu cabelo, eu não vou abandoná-la, ela me ajudava."

Com a rotina adaptada, ela começou a preparar cardápio de eventos e foi em uma festa de casamento em 1994 que teve a primeira oportunidade de começar na televisão. Um integrante da produção do programa "Note e Anote", apresentado por Ana Maria Braga  na Record, a convidou para fazer uma participação.

Mesmo com a agenda cheia, ela topou o convite. Questionou quantas vezes iria ao programa e a Ana Maria respondeu que se o público não gostasse dela, sairia no dia seguinte. Palmirinha ficou seis anos na Record e só saiu após Ana Maria seguir para a Globo: "então eu agradei o público", relembra orgulhosa.

Palmirinha e Huguinho, seu fiel escudeiro
FOX Life/ Maria Clara Diniz
Palmirinha e Huguinho, seu fiel escudeiro

A mágoa da TV Gazeta

Durante 11 anos, Palmirinha teve seu próprio programa na TV Gazeta, até que decidiu pedir demissão. "Saí por conta própria e é por isso que eles não me perdoam até hoje. Mas trabalhar lá foi muito bom para mim. Consegui realizar meu sonho de ter um cantinho para morar, porque eu tinha um salário muito bom. Trabalhava ali com o maior amor e carinho. Mas achei que se ficasse mais um pouco, sairia de lá morta, porque trabalhava demais".

Ao comunicar sua intenção de sair, Palmirinha ainda aceitou ficar mais dois meses, pedido da direção do programa para que pudessem encontrar um substituto. "Dei os dois meses e acharam que eu não ia sair porque aquilo era a minha vida. Quando fui me despedir do meu público no último dia, estava conversando com as minhas amiguinhas e comecei a chorar. Eles cortaram meu microfone. Saí de lá muito magoada. Minhas coisas estão todas lá: minhas louças, tudo. Não voltei para pegar".

Quando soube que Palmirinha estava fechando contrato com a Fox, a Gazeta entrou em contato com ela oferecendo um bom salário, mas ela recusou.

Antes de ser contratada pela Fox, ela chegou a ser procurada por outras emissoras, que queriam empregá-la sem Huguinho, personagem que a acompanha desde o início. "Falei que se fosse sozinha eu não iria, que queria ele, porque ele se doeu por mim. Ele jogou tudo fora e falou: 'olha, eu não entro na cozinha da Palmirinha com uma outra culinarista'".

O que eu ia fazer na política? Assinaria o ponto, pegaria meu dinheiro e enganaria o povo?

Tanto o intérprete do boneco, como a filha dela, Sandra, acabaram demitidos na época. Sempre muito humilde, ela arrumou uma solução para o problema: "vamos fazer um acordo? O que entrar de propaganda ou de merchandising, enfim, o que eu ganhar a gente racha entre os três. E foi o que aconteceu, estamos juntos até agora".

Palmirinha passou um tempo longe das câmeras, período que a fez pensar em nunca mais voltar à TV. A decepção com a Gazeta mexeu com a apresentadora, que só cedeu após muita insistência. "Eu não queria mais televisão, mas a Fox ficou me ligando várias vezes, falando comigo, querendo ter um contato comigo e achei que não era interessante, principalmente uma TV fechada. Mas hoje não me arrependo. Estou muito feliz".

Convite para a política

A vovó não foi assediada só pelas emissoras de TV, ela também foi convidada duas vezes para entrar para a política. E recusou na mesma hora. "O que eu iria fazer ali? Eu assinaria o ponto, pegaria meu dinheiro e enganaria o povo? Eu ia tirar o dinheiro do povo, que ganha tão suado?".

Seu negócio é mesmo cozinhar e satisfeita com seu programa, avisa que aposentadoria não está nos planos. "Vou ficar em casa fazendo o que? Estou cheia de saúde, enquanto isso eu vou mandando brasa", diverte-se. "A Palmirinha não morreu. A Palmirinha está vivinha! E vai ser difícil me matar. Mas se Deus me levar amanhã, acho que já cumpri tudo o que tinha que cumprir".

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