Ator de 22 anos vive o romântico Ferdinando na fábula das 18h da Globo e fala sobre carreira, objetivos, rótulos e poesia


Não se permita enganar pela pouca idade de Johnny Massaro . Aqui, o aceitável é só o encantamento. No alto dos seus 22 anos, o ator não aceita ficar estagnado no fácil lugar comum. Quem ele é na vida? Um carioca sagaz, filho de um taxista e de uma secretária, que saca do bolso sempre que precisa um caderninho (ou o celular) para anotar palavras que em minutos formam uma poesia. Quem ele é na TV? Um talentoso menino que conseguiu fugir em tempo recorde dos personagens nerds caricatos e hoje é o mocinho de “Pedacinho de Chão” , sob a batuta e a benção do diretor Luiz Fernando Carvalho .

Não que os nerds nunca mais cruzarão seu caminho. Longe disso. Mas se cruzarem, virão com novo tempero. É assim que Johnny guia seus passos na carreira. O ator, que surgiu em “Floribela” (Band), em 2005, e ganhou destaque em “Malhação” (Globo), de 2008 a 2010, tem outro tempo. Assim como Ferdinando, seu personagem na novela das 18h, Johnny é poeta, precisa de detalhes para construir e ver aflorar um fruto plantado. O ritmo dele casou perfeitamente com o de Luiz Fernando.

“Nós precisamos estar sempre descobrindo. Isso é uma coisa muito pedida pelo Luiz. E ele pede não só para os atores, mas para costureiras, maquiadores, para toda equipe. Todo mundo precisa ser um pouco criador. Nesse sentido, é isso que eu venho aprendendo, experimentando em ‘Pedacinho’. O que o Luiz traz é um novo olhar sobre o que é fazer TV. E eu, hoje, encaro a TV de outra maneira muito por causa deste processo”, falou ao iG com exclusividade.

Para compor o clima fabular de “Pedacinho”, Johnny trançou os cabelos com dreadlocks e usa, em cena, lentes de contato para deixar os olhos claros mais destacados. “Gosto muito do estado que o dread me coloca vida e em cena. Dá um plus, sabe?”, comentou. Na conversa, ele ainda fala sobre a relação de Ferdinando e Catarina ( Juliana Paes ), a atenção de Luiz Fernando no set e relembra das amizades que fez em “Malhação”. Confira abaixo:

iG: Seu amadurecimento como ator é bastante claro na TV, principalmente agora no ar em “Pedacinho de Chão”. Eu queria começar falando sobre o Ferdinando e depois a gente volta um pouco para entender o que te levou até ele. O que você descobriu com o Ferdinando até agora?
Johnny Massaro: Na verdade, eu tento me colocar em estado de constante descoberta. Não só como ator, mas como pessoa. Essas duas coisas, na verdade, estão muito ligadas. A gente se usa muito para o trabalho. Eu tento deixar esse estado latente, em alerta, e essa é uma grande descoberta. Nós precisamos estar sempre descobrindo. Isso é uma coisa muito pedida pelo nosso diretor, o Luiz Fernando Carvalho. E ele pede não só para os atores, mas para costureiras, maquiadores, para toda equipe. Todo mundo precisa ser um pouco criador. Nesse sentido, é isso que eu venho aprendendo, experimentando em “Pedacinho”. O que o Luiz traz é um novo olhar sobre o que é fazer TV. E eu, hoje, encaro a TV de outra maneira muito por causa deste processo.

iG: Falando exatamente sobre esse processo, o Ferdinando é um garoto que segue totalmente seus sonhos. Nos bastidores, nos seus estudos, qual foi a base que você pensou para criar esse personagem junto com o Luiz Fernando?
Johnny Massaro: Para te falar sobre isso, preciso antes falar sobre nossa preparação para a novela. Nunca antes na história das novelas houve uma preparação de tamanha grandeza e tempo, eu acredito. Foram três meses sem ligar a câmera. Isso, em uma indústria televisiva, significa muito dinheiro investido para um retorno que não é muito palpável. E apesar de a preparação não nos dar nenhum material físico, a diferença está no ar. Nós participamos, ativamente, de todo o processo de construção da novela, por todas as equipes. E durante esse processo, a gente vai entendendo muito o universo dos personagens. O Ferdinando, por exemplo, tinha uma relação com o pai que era de conflito no início da história. Ele representa, junto com a professora Juliana ( Bruna Linzmeyer ) e o Renato ( Bruno Fagundes ), o passo para frente, o futuro. Isso é uma barreira para o coronel Epa ( Osmar Prado ), que é super retrógrado. No caso do Ferdinando, que mexe com terra, ele consegue enxergar uma árvore pronta em uma semente. É o grande ciclo da vida. Aliás, conversando hoje com a Bruna, a gente não se dá conta de como isso é mágico, né?

Johnny Massaro está no ar na novela Pedacinho de Chão da Globo
Rael Barja
Johnny Massaro está no ar na novela Pedacinho de Chão da Globo


iG: E os dreads foram ideia de quem?
Johnny Massaro: Do Luiz. A lente azul também. Eu nunca tinha imaginado usar nem um, nem outro, mas gosto muito do resultado no vídeo. E também gosto muito do estado que o dread me coloca vida e em cena. Dá um plus, sabe? Quando eu coloquei, falei na hora: “nossa, que coisa, sei lá... selvagem” (risos). A gente fez um primeiro que ficou muito agressivo. Era aquele dread clássico mesmo, grosso. Demorou 10 horas e, quando acabou, o Luiz falou que não era isso que ele buscava. Eu achei também que não estava de acordo. A gente queria algo mais delicado, com mais cabelo aparecendo. Acabou que ficou também romântico, sensível. O Ferdinando é um poeta da terra, precisava ter essa pegada.

iG: E está dando muito trabalho?
Johnny Massaro: Nossa (risos). Está dando bastante trabalho. Demanda mais tempo, eu lavo de duas a três vezes por semana. Não posso lavar muito tarde senão não seca, e é ruim para o couro cabeludo… Uso shampoo anti-caspa… Um monte de detalhes (risos).

iG: A relação dele com a Catarina (Juliana Paes) é muito delicada, muito carinhosa também. Você acha que existe alguma coisa a mais pela madrasta?
Johnny Massaro: Quando eu falo desse assunto, eu gosto de, antes de qualquer coisa, frisar que o legal dessa história é a porta que se abre e não necessariamente vai ser fechada. O público que cria na cabeça. Eu acho que rola uma atração dele pela Catarina. Ele perde a mãe muito cedo, vê nela a figura materna que falta, mas, ao mesmo tempo, a vê como uma mulher atraente, jovem. Não sei dizer se vai se consumar, mas gosto bastante dessa camada. E eu me divirto muto com a Ju.

Por que é que esse não pode ser mocinho e esse pode? Entende? Isso me interessa muito.

iG: Antes de a novela estrear muito se falou sobre a inovação visual que ela apresenta. Agora, com ela no ar, você tem escutado muito das pessoas nas ruas ou tem visto retorno do público?
Johnny Massaro: Era engraçado que a gente ouvia muito duas opções das pessoas: ou essa novela vai dar muito errado ou muito certo (risos). Isso é tudo, né? Claro, é ousado, diferente, mas tem um passo além. E em nenhum momento passou pela minha cabeça que fosse dar errado. Não estou falando do sentido de audiência, mas de dar certo no sentido de estar sendo bom, o público abraçou a história. Eu fico comovido toda vez que saio na rua. Nunca passei por isso. Crianças falam comigo, e senhoras também, e sempre com um carinho muito grande. É uma trama delicada, envolve infância, mexe com o lúdico. É engraçado que me olham como se eu fosse parte de uma coisa que não existe. É o extra-real, sabe? (risos) Eu acho natural e bonito resgatar o olhar da criança e brincar com isso. Tem muito a ver com o trabalho do Luiz, que cria o subterrâneo das coisas. A gente recebe o texto, mas um milhão das coisas que vão para o ar não estão ali.

iG: O Luiz Fernando tem algum borogodó que faz todo mundo querer trabalhar com ele, né? O que você está achando, como é nos bastidores?
Johnny Massaro: Todos os diretores têm seus méritos. Todos com quem eu trabalhei foram excelentes, mas o Luiz tem essa coisa da preparação mesmo, que é importante para o trabalho. Eu acho essencial e espero mesmo que se torne comum na TV, assim como é comum no teatro, no cinema. Até para o ator não se repetir, para não ficar no mesmo lugar. Um diferencial cria um sentido de grupo muito grande, todo mundo quer que o trabalho vibre na mesma intensidade.

iG: Voltando um pouco na sua história, me fala sobre você. Você é carioca mesmo, tem 22 anos… Como caiu nessa vida artística e por quê?
Johnny Massaro: Eu costumo falar que não tive escolha. Algumas pessoas não entendem isso da maneira certa, mas quando digo que não tive escolha é porque parece que eu não poderia ter feito nada diferente do que foi. Não me obrigaram a nada (risos), mas olhando pra trás eu vejo que era pra ser mesmo. E foi e aconteceu. Eu comecei teatro com 12 ou 13 anos e fui ficando, ficando… Minha primeira novela foi na Bandeirantes, a “Floribela”, depois fiz dois anos de “Malhação”, e daí vieram todos os outros trabalhos.

iG: E seus pais fazem o quê? Ele sempre te apoiaram?
Johnny Massaro: Meu pai é taxista e minha mãe é secretária em um colégio. Ele sempre me ajudaram muito. Até porque, para quem começa cedo na carreira, sem os pais não dá para fazer nada. Eles precisam te acompanhar quando você é menor de idade e etc. Ninguém da minha família faz parte do universo artístico. E meus pais têm o Ensino Médio, mas não completaram o Superior. Mesmo assim, eles sempre me estimularam a estudar, claro, mas não me lembro de nenhum momento que tenham tentado me induzir a qualquer outra profissão. Eles sempre estiveram do meu lado.

iG: Você faz parte de uma geração de atores que saiu de “Malhação” que é muito promissora e em várias áreas, não só na atuação. O que você acha que essa sua galera tem como objetivo na carreira? O que os move?
Johnny Massaro: Eu nunca parei para analisar isso… A minha temporada de “Malhação” foi montada de urgência, porque a anterior estava muito mal de audiência e blá blá blá, e eu acho que o critério, na época, foi justamente esse. A temporada acabou juntando pessoas que tinham esse tipo de pegada. Engraçado eu estar lembrando disso agora, enquanto falo com você… O espaço de “Malhação” aqui no Projac é o mesmo que eu uso e estou hoje em “Pedacinho” (a entrevista foi feita por telefone). Eu me lembro que às quartas e quintas a gente tinha aulas (de atuação no Projac) e todo mundo, mesmo gravando todo dia, fazia muita questão de ir. A gente, espontaneamente, montou um espetáculo e apresentou exatamente aqui para a equipe da novela nos bastidores no final da temporada. Nenhuma turma tinha feito isso antes. Eu me lembro que todo mundo se emocionou muito. Eu não posso dizer exatamente o que nos move. Mas é um grupo muito bonito, uma amizade que continua, e são artistas que sempre querem coisas novas.

iG: Me fala da sua relação com a poesia. Primeiro de tudo, você escreve apenas poesias eróticas?
Johnny Massaro: Não, não… Eu falei isso em uma entrevista, mas entenderam errado. Eu, de fato, escrevo algumas coisas com essa pegada, mas no todo não é nesse sentido. No momento eu estou procurando alguma editora para publicar meu primeiro livro, “Primeira Pessoa”. Eu fui escrevendo, escrevendo e vi que já tinha quantidade suficiente para juntar e fazer livro. O título é porque é como se falasse de mim mesmo, são auto-relatos.

iG: Você me parece um ator sempre muito entregue. Por isso, alguma vez você já se sentiu talvez aprisionado por um lugar que o mercado te coloca? Por exemplo, aqui são os mocinhos e eles devem ser bonitos e etc… Aqui são os estranhos e eles são engraçados…
Johnny Massaro: Eu encaro de maneira muito natural, na verdade. É a maneria como as coisas funcionam. Mais novo eu já passei por uma fase de questionamento, de negação e agora é uma completa aceitação, no bom sentido. Questionamento são bem-vindos e são necessários. É muito fácil ser o jovem ou o rostinho bonito e viver dentro dessa superficialidade. Esses lugares, na verdade, me interessam muito pouco. Eu faço de tudo para sair um pouquinho desse lugar, e não depende só de mim, mas todo esforço que eu posso fazer, eu faço. Eu fiz muitos nerds desde o começo, por exemplo. Daí vem o Luiz, olha pra mim, um cara que não é padrão de mocinho, e me coloca ali. Ele me colocar nesse papel é justamente uma crítica a esse lugar. Por que é que esse não pode ser mocinho e esse pode? Entende? Isso me interessa muito. E quando ele faz isso, eu me sinto particularmente no lugar de questionar esse papel. Por que é que não posso passear por todos os lugares?

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