Prestes a estrear na série "O Caçador", atriz passa o pente fino na vida pessoal e na carreira e revela como faz para manter em equilíbrio tantos desejos e dúvidas

Se fosse gênero musical, seria rock. Do pesado. Ou então um jazz imprevisível. Acho que até encararia um bolero, dependendo do estado de espírito. Se fosse cor seria preto. Ou branco. Ou jeans. Foi rebelde (ou quis ser), foi lolita (ou ainda é) e se mostrou audaciosa ao repetir os passos da mãe, Gloria Pires , e se aventurar pela mesma carreira. Hoje, aos 31 anos, Cleo Pires é dona da própria voz. Incomparável. Parece estar com os dramas internos mais bem resolvidos. Enquanto a gente quebra a cabeça e banca a terapeuta, ela trata de avisar que quase tudo é só fachada.

"Faço muito esforço para conseguir colocar essas coisas em palavras e ordem, mas aqui dentro não é tudo tão organizado (risos)…. Às vezes me sinto mais calma, mas também aprendi que o processo é lento, nada linear e o barato é bem louco (risos). Minha vida não é perfeita, não é cartesiana, a minha distância mais curta entre um ponto e outro é uma curva e é isso que temos para hoje", diz em entrevista exclusiva ao iG .

Para alimentar um pouco mais essa inquietação em forma de mulher, chegou Kátia, da nova série da Globo, "O Caçador", que estreia dia 11 de abril. Cleo mergulhou no seu lado mais dark para construir a personagem, uma mulher intensa, que vive no limite da sanidade e entre dois amores, vividos por Cauã Reymond e Alejandro Claveaux .

"Sempre acontece uma espécie de 'soul searching' . Já tenho uma tendência a isso naturalmente com tudo à minha volta, gosto de usar a vida como aprendizado. A minha profissão é um grande espelho, é mais fácil identificar as coisas no espelho, né? Você vê meio de fora de alguma forma, por mais que numa personagem você também esteja dentro. É doido, mas é maravilhoso", falou.

No meio desse caldeirão de elementos que formam a atriz, nunca faltou o amor e a entrega, seja pela família grande - são sete irmãos, contando por parte de mãe e pai, o cantor Fábio Jr.  - , sua real base, ou por quem preenche seu coração. Hoje, ele atende pelo nome de Rômulo Arantes Neto . "Aprendo muito com a nossa convivência e observando ele também. Desde o início vi que tinha uma alma inquieta ali dentro que queria melhorar, evoluir, se descobrir, se aventurar nas questões humanas da vida…. Muito sensível, inteligente, doce, profundo e forte", contou sobre o namorado, com quem planeja dividir o mesmo teto.

Na entrevista abaixo, Cleo ainda fala sobre a importância do sexo em uma relação, como tenta manter o equilíbrio hoje em dia e sobre o processo de reaproximação com o pai. "Foi lento e doloroso. Ainda é. Mas o amo muito e a minha consciência é essa hoje em dia", revelou.

iG: Começando o papo por "O Caçador", arrisco dizer, pelo pouco que sabemos sobre a personagem, que Kátia chega para você com uma dosagem a mais de intensidade, de desafio e de escuridão. O que te incentivou a mergulhar no universo dela e o que você anda descobrindo nesse universo?
Cleo Pires: Muitas coisas podem ser o elemento motivador para a escolha de um personagem. Pode ser a identificação em algum aspecto ou um desejo de explorar certos universos, a vontade de contar uma história ou a oportunidade de trabalhar com certos profissionais ou o desafio de sair da zona de conforto. No meu caso tudo isso contou. As descobertas são muitas. Como atriz descobri novas formas de explorar e expressar minhas emoções. Quis desconstruir muita coisa que eu nem tinha me dado conta que estavam ali: defesas, hábitos, coisas tão antigas quanto a minha própria existência (risos)… Isso acabou também resvalando na minha vida pessoal. Sempre acontece uma espécie de "soul searching". Já tenho uma tendência a isso naturalmente com tudo à minha volta, gosto de usar a vida como aprendizado. A minha profissão é um grande espelho, é mais fácil identificar as coisas no espelho, né? Você vê meio de fora de alguma forma, por mais que numa personagem você também esteja dentro. É doido, mas é maravilhoso.

iG: Qual é a importância do sexo para Kátia? É tão importante quanto estar realizada emocionalmente?
Cleo Pires:  Acho que as duas coisas se misturam para ela, mas ela não se dá conta. Ela não elabora a esse ponto. Ela sente, faz e pronto. Não acho que ela pensa "preciso me realizar emocionalmente" ou "preciso me realizar sexualmente". Acho que ela sente muita dor emocional, e faz coisas pra sanar essa dor, e nessas atitudes está tudo muito misturado ali, todas as necessidades dela.

iG: A mesma pergunta para você: qual é a importância do sexo para você? É tão importante quanto estar realizada emocionalmente?
Cleo Pires: Não há nada melhor que o sexo com a emoção. Os dois vêm juntos hoje em dia para mim e isso tem sido uma grande descoberta. Já disse isso algumas vezes e muita gente entendeu errado: a energia sexual é a energia mais poderosa que existe, ao meu ver. É a energia da criação e compartilhar isso com alguém que eu amo mexe profundamente com a minha emoção. É o maior tesão que eu já senti.

iG: As cenas de sexo "adulto", como definiu Alvarenga (diretor da série) na coletiva de imprensa, estarão presentes. Como foi a parceria com Cauã e Alejandro?
Cleo Pires: Foi supertranquila. Nosso diálogo era muito aberto, com humor e respeito. Estávamos ali em função dos personagens e dispostos a dar o nosso melhor, em todos os níveis.

Cleo Pires e Alejandro Claveaux atuam juntos em 'O Caçador'
Divulgação
Cleo Pires e Alejandro Claveaux atuam juntos em 'O Caçador'

iG: Seu nome sempre andou de mãos dadas com adjetivos como sexy, sedutora, sex symbol. Você sente uma cobrança externa, ou se cobra, de alguma forma, para estar sempre com um corpo bacana para atender a esse título?
Cleo Pires: Não. Sensualidade e sexualidade para mim não têm a ver com um corpo, tem a ver com um clima da pessoa, um detalhe especial, um jeito, um conteúdo, sei lá, uma outra coisa. Eu nunca me preocupei em ter um corpo perfeito, sempre fui bem relax…. Claro que tive e tenho meus dias de insatisfação, mas isso nunca me incomodou a ponto de trabalhar duro para ter um corpão. Sempre tive umas gordurinhas, umas celulites, aí tinha épocas em que eu estava mais seca…. Nunca me segurei no corpo ou na beleza para ganhar nada, porque não são essas as coisas que me seduzem e eu realmente nunca me achei muito bonita. Acho lindo um corpo trabalhado, mas não é o que me seduz. Em contrapartida, digo que ultimamente tenho amado fazer exercício e por consequência cuidar do meu corpo (risos), mas não foi sempre assim. A convivência com o Rômulo me fez admirar a vida do esporte, a disciplina que o treino traz, a autoestima, os valores, a superação física…. E isso tem mexido muito comigo.

Cleo Pires com o namorado Rômulo Neto
AgNews
Cleo Pires com o namorado Rômulo Neto

iG: O Alvarenga comentou que todos temos um dark side. Normalmente deixamos esse lado guardado, escondido. Mas em "O Caçador" isso precisou ser aflorado no elenco. Ele citou a preocupação com sua entrega em cena. Como você lida com essa sua intensidade não só em cena, mas na vida? Foi sempre assim?
Cleo Pires: (risos) O Alvarenga teve muito carinho comigo, desenvolvemos uma relação de afeto e confiança, uma coisa meio paternal eu senti, mas lógico dadas as devidas proporções, pois trabalhamos pouco tempo, mas realmente foi intenso. Eu não acredito em bom OU mal, em luz OU escuridão…. Acho que nós somos tudo isso. Como atriz tenho a oportunidade de explorar mais abertamente essas emoções obscuras e às vezes perigosas, mas na vida, creio que se abafarmos nosso lado negativo, se fingirmos que ele não existe, não seremos inteiros e nem verdadeiros. É como empurrar sujeira para debaixo do tapete. A sala parece limpa, mas de repente o tapete começa a ficar todo estufado, dando defeito, cuspindo sujeira para tudo que é lado e você não sabe o porquê. Não estou dizendo que saio por aí fazendo loucuras porque tenho minhas negatividades e tenho que liberá-las, mas acho saudável e humano olhar para o meu lado escuro, sim. Aceitar que não sou perfeita e tentar entender e amar meus defeitos, minhas dificuldades e tentar fazer o melhor delas. Quero ser melhor e para isso tenho que identificar o que está ruim ainda, senão vou ficar estagnada. A minha flor preferida é a flor de lótus, porque ela vem da lama. Acho que todos somos flores de lótus. Gosto também da Kabbalah quando ela diz que não se revela luz na luz, só na escuridão. Quer dizer, vamos pegar nossas escuridões e revelar luz nelas.

iG: Como você dosa essa entrega para manter um equilíbrio?
Cleo Pires: Entendi que eu quero me entregar para a vida. Eu amo a minha profissão e tudo o que ela me proporciona de evolução pessoal, de sustento, de pessoas a quem eu tenho acesso, etc… Mas eu realmente não quero me tornar aquele clichê de atriz que só consegue se relacionar com os outros através de seus personagens. E essa linha é muito tênue. Quando você vê nada mais te preenche, só o mundo da arte, porque ali tudo seu é aceito, suas emoções mais escuras, suas questões…. E eu não quero isso…. Eu quero ter a coragem de expor a minha verdade e que a minha vida seja minha arte também. Quero estar inteira e feliz. Resumindo, estou buscando muito conscientemente esse equilíbrio.

iG: Você comentou que voltou a fazer terapia depois de anos. Por que decidiu voltar? Quais diferenças já notou depois do início da análise?
Cleo Pires: Voltei depois de muitos anos, na verdade. Eu fiz com uns 17 anos, e foi muito bom para mim. Mas, ao mesmo tempo, era tudo muito mental e eu não tinha inteligência emocional para assimilar muita coisa. Aí eu parei e fui em busca de outras coisas. Amadureci em alguns aspectos e tive vontade de voltar e estou vendo qual vai ser.

iG: Me corrija se eu estiver enganada, mas em uma breve observação, te vejo como uma mulher cheia de camadas, e hoje elas estão mais organizadas, mais encaixadas. É isso mesmo? Essa calma, se é que podemos chamar assim, veio com os 30 anos?
Cleo Pires: Acho que elas parecem mais organizadas, porque eu dou muitas entrevistas e tenho que achar uma forma de me explicar, porque como todo mundo, eu quero sim em algum nível ser compreendida e aceita. Então, faço muito esforço para conseguir colocar essas coisas em palavras e ordem, mas aqui dentro não é tudo tão organizado (risos)…. Às vezes me sinto mais calma, mas também aprendi que o processo é lento, nada linear e o barato é bem louco (risos). Minha vida não é perfeita, não é cartesiana, a minha distância mais curta entre um ponto e outro é uma curva e é isso que temos para hoje.

Cleo Pires
AgNews
Cleo Pires

iG: Você fala da sua separação de maneira muito natural e é visível seu carinho por João Vicente (de Castro). Como você vê hoje a instituição casamento? O que significa para você?
Cleo Pires: O nosso casamento era de amor e não de dogmas. Acabou, mas não tem como apagar esse carinho, entende? Eu falo de maneira natural porque é natural. É uma das poucas pessoas que me conhece muitíssimo bem e esse amor fraterno é recíproco. Acho que é isso que importa, não tenho nada muito a dizer sobre a instituição, só que as pessoas devem investir no amor.

iG: E sobre o Rômulo, como vocês se conheceram? O que te encantou nele?
Cleo Pires: Nos conhecemos através de dois amigos que achavam que a gente tinha a ver. Antes de mais nada me encanta a simples existência dele. Aprendo muito com a nossa convivência e observando ele também. Desde o início eu vi que tinha uma alma inquieta ali dentro que queria melhorar, evoluir, se descobrir, se aventurar nas questões humanas da vida…. muito sensível, inteligente, doce, profundo e forte.

iG: Qual sua maior tentação?
Cleo Pires:  Tenho uma tendência forte a cair na tentação de sentir raiva muito rapidamente. Fico arisca, ríspida e fria. É um saco.

iG: Sobre a carreira, você tinha um nome e sobrenome conhecidos antes mesmo de decidir caminhar pela mesma estrada de sua mãe. Foi mais difícil que você imaginava?
Cleo Pires: Sempre foi difícil. Eu sempre achei difícil ser famosa, achava difícil a minha mãe ser famosa, por mais que eu quando criança aproveitasse dessa popularidade de alguma forma. Era engraçado. Aí teve uma fase da minha vida que me senti aprisionada pela minha timidez e pelas minhas questões que eu não conseguia muito entrar num processo de resolução delas e também não queria deixá-las transparecer ao público. Então, resolvi que ia amar ser famosa, porque me doía muito não gostar da coisa toda, mas não durou muito (risos)…. Não dá muito para fugir de quem você é, né? Eu achava o máximo a Ivete Sangalo levando as coisas daquele jeito bem-humorado e agradecido, e achava que se eu fizesse isso a felicidade ia simplesmente bater à minha porta! (Risos) Menina, né? Aí entendi que eu ia ter que achar um jeito meu de lidar com isso. Foi difícil e ainda é difícil, mas eu foco na flor de lótus!

iG: Suas irmãs também querem construir uma carreira como atrizes, certo? O que acha sobre isso?
Cleo Pires: A Antônia está bem na música, na verdade. A Ana ainda não se decidiu. As duas são incrivelmente talentosas, tiram música de ouvido do piano, cantam lindamente. A Ana é uma atriz nata já deu para ver, e a Antônia faz músicas incríveis no computador dela. O Bento toca violão, tem uma banda de rock… Eu acho que a vida da arte é maravilhosa e emocionalmente recompensadora. Acho que todo mundo devia ser um pouco, faz bem, ajuda a se descobrir.

iG: Apesar de ter como base familiar sua mãe e Orlando, seu padrasto, você já chegou a comentar em entrevista que sua relação com Fábio Jr melhorou muito nos últimos anos. Como aconteceu esse refresco na relação entre pai e filha e como ele, hoje, é importante para sua vida?
Cleo Pires:  Acredito em reencarnação, então comecei a entender que também tinha uma responsabilidade na minha própria dor que ele havia me causado por ter sido ausente. Começou meio por aí. Acredito também que o que me incomoda e me dói eu tenho o direito e o dever de transformar. Foi lento e doloroso. Ainda é. Mas eu o amo muito e a minha consciência é essa hoje em dia, o resto vai caminhar naturalmente.

iG: Tem alguma frase que te define hoje?
Cleo Pires: É clichê, mas é verdade: o que não me mata me fortalece.

iG: Para terminar, você começou a rodar o filme “Boletim de Ocorrência”. Do que está mais gostando em viver uma policial justiceira?
Cleo Pires: Ela só vira justiceira do meio para o final. Esse roteiro é muito especial para mim. Eu praticamente implorei para o Tomás (Portela) para fazer uma ponta no filme, porque eu queria fazer ação e ninguém me escalava. Acabou que a Francis, minha personagem, virou a protagonista do filme, o que é muito raro ainda no cinema brasileiro. E o arco dela é demais. É justamente muito disso que a gente falou durante a entrevista. Ela entra para a polícia por motivos nada nobres, e finca o pé lá por orgulho, para mostrar que vai superar o bullying que estão fazendo com ela, mas ela se transforma nesse processo, se descobre, e faz algo muito positivo com tudo isso. Fora isso, o questionamento do filme me atrai muito, que é: estamos realmente preparados para uma polícia honesta como cobramos? Nós somos tão ficha limpa assim nas nossas vidas?

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