Com número reduzido de capítulos e identidade visual ímpar, nova novela é aposta em novo formato de produto para Globo

Era um encontro para apresentar a próxima novela das 18h da Globo, mas o clima mais parecia o de um lançamento de série ou minissérie. O elenco reduzido é o principal motivo dessa impressão: cerca de 20 nomes para contar a história de "Meu Pedacinho de Chão", a nova novela de Benedito Ruy Barbosa . "Nossa equipe toda, não só o elenco, é muito unida. Não existe diferença entre nós", disse o diretor Luiz Fernando Carvalho , o principal responsável por dar um toque íntimo, caseiro e colorido para a produção que estreia dia 7 de abril.

Benedito Ruy Barbosa, aos 83 anos, volta a escrever depois de 10 anos afastado
Thyago Andrade/Foto Rio News
Benedito Ruy Barbosa, aos 83 anos, volta a escrever depois de 10 anos afastado

E se não bastasse o ambiente envolvente, o encontro da imprensa com a equipe e elenco aconteceu, em parte, na cidade cenográfica da fictícia Vila de Santa Fé, o lugarzinho mágico que abriga todas as questões dessa quase fábula revisitada por Benedito. Vale dizer que a primeira versão da trama, exibida em 1971, tinha um forte cunho educativo, foi exibida durante a Ditadura e com incentivo do governo de São Paulo. Este não se trata de um remake, e sim de uma nova faceta da história, retratada com maestria por Luiz Fernando.

"Estou com 83 anos, já fiz 34 novelas. Na verdade, já seria hora de parar. Eu sei quanto custa dar um texto para mãos erradas. A gente tem que trocar o texto de mãos para tentar salvar uma obra no meio do caminho. Graças a Deus, isso só me aconteceu uma vez", relembrou Benedito.

O tal texto em questão foi de "Esperança", novela de 2002. Com problemas pessoais sérios, Benedito parou a novela na metade e entregou para Walcyr Carrasco terminar a história, ato que ainda rende reclamações e polêmicas. "Em um pequeno período de tempo, perdi minha mãe e duas irmãs. Bebia 10 latas de cerveja por dia e fumava quatro maços de cigarro. Tive que parar com tudo. Depois (em 2006), tive um AVC e fiquei 23 dias em coma. Quando acordei, lá estava o Luiz de novo. É um negócio de maluco", brincou o autor. "É a primeira vez na minha vida que escrevo todos os capítulos antes do início de uma trama. Ela está totalmente escrita e agora o problema é desse caboclo aí", disse.

A parceria de Benedito e Luiz Fernando de Carvalho já é de longa data e de sucesso. "Luiz fez comigo 'Renascer' (1993), que foi uma obra-prima da dramaturgia. Depois fizemos 'O Rei do Gado' (1996). Fizemos uma história fantástica na primeira fase", relembrou Benedito, que em "Pedacinho" trabalha em conjunto com a filha Edilene Barbosa , e o neto, Marcos Barbosa . Essa confiança no diretor deixa o autor em mares tranquilos quando o assunto é a inovação versus audiência.

"Audiência é um problema da emissora, não nosso. Mas não publica isso, não, porque vai me dar um problemão", disse Benedito, provocando risadas dos jornalistas. "Eles devem estar falando: 'ai, lá vem esses caras de novo'", completou Luiz Fernando. "Eu não faço diferença se é novela, seriado, minissérie, novela das 18h, das 21h… Para mim, a aproximação é a mesma. A minha responsabilidade, que pode ser chamada de missão, é poder entregar um produto de excelência", disse o diretor.

"Estamos em um ano de entretenimento, temos a Copa. Eu fiquei pensando em como iria entrar nesse ano. E vou formar um time de jogadores para brincar com essa forma lúdica. Sobre a audiência, tenho ela em algum canto, mas se eu pensar nisso, não gravo", completou.

Além do visual e da linguagem totalmente inovadores e coloridos, outro diferencial é que a novela tem um período mais curto. No lugar de 200 capítulos - a média das novelas da Globo - , "Pedacinho" conta com 105. "Começamos com uma frente de 15 capítulos já gravados, o que é muito bom. Sobre o custo por capítulo, é o normal de uma novela. Sempre acham que meus trabalhos têm algo a mais, mas é a mesma câmera, o mesmo cenário… O valor do meu trabalho é humano. É o humano que faz a mágica", afirmou o diretor.

O elenco elogiou muito o trabalho de Carvalho, que retribuiu destacando a vontade de fazer arte de cada um. "São artistas genuínos e isso faz toda a diferença, é fundamental, porque assim o artista se oferta para o personagem. Nesse trabalho, isso é uma característica de todo mundo, na frente e atrás das câmeras", contou. "Leio o texto e ele me afeta, e afeto todo mundo. Existe uma transmissão de energia e entusiasmo. É muito luminoso e entusiasmado, e também conduzido com o rigor de uma câmera que registra um olhar. Aquilo prioriza tanto a narrativa que o texto escoa e o processo industrial toma lugar. Será que não é possível fazer isso e manter o entusiasmo? Essa era minha questão."

O encontro terminou quase como uma resposta do elenco ao questionamento de Luiz Fernando de Carvalho. Todos compraram sua ideia, embarcaram para o mundo mágico de Santa Fé e desenvolveram, juntos, um amor pelo projeto. A homenagem final foi uma forma de agradecimento às palavras de Benedito. Juntos, em um palco, os atores cantaram "Chuá-Chuá", tradicional música do cancioneiro sertanejo, e emocionaram o autor.

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