“É a união do gosto popular com o comercial”, diz Leonor Corrêa, diretora do SBT, que comandou o “Festival Sertanejo”


É só o telespectador zapear os canais para notar que o sertanejo está em todas as emissoras. Até mesmo a MTV, que um dia já torceu o nariz para o gênero, tem recebido artistas deste mercado em sua programação . A Globo, por exemplo, vai rechear sua programação da música que nasceu nas cidades interioranas. Depois de exibir o " Sintonize" , gravado durante um festival sertanejo, ainda vai mostrar três artistas do ritmo no comando do "Sai do Chão!" , projeto musical que será exibido durante as férias. O especial de Natal do "Estrelas” será com Zezé Di Camargo e Luciano , Gusttavo Lima e Paula Fernandes .

A Record produziu um especial sobre Chitãozinho e Xororó , que vai ao ar em 22 de dezembro e o SBT transmitiu no meio do ano o "Festival Sertanejo" , programa que fez o público relembrar o "Sabadão Sertanejo" , atração que fez sucesso na década de 1990, época em que aconteceu o boom das duplas.

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Esses são apenas alguns exemplos que mostram que a TV reflete o gosto dos brasileiros nos rádios, revelado em uma pesquisa do Ibope. De acordo com os dados do estudo, o som mais ouvido pela população é o sertanejo. O ritmo conquistou os ouvidos de 58% do público, seguido pela MPB (47%), o samba/pagode (44%) e o forró (31%). A pesquisa foi realizada entre agosto de 2012 e agosto de 2013. Ainda de acordo com o instituto de pesquisa, 65% das músicas tocadas nas rádios desde janeiro de 2013 são do gênero sertanejo.

Entre as dez músicas mais tocadas em 2013 até agora, de acordo com a Crowley Broadcast Analysis do Brasil, quatro são sertanejas ("Vidro Fumê", de Bruno e Marrone (1º); "Te esperando", de Luan Santana (2º); "Jeito Carinhoso", Jads e Jadson (9º); e "Choro", Leonardo (10º). "Só dá eles. O sertanejo é ímã de ibope", aponta Arleyde Caldi , da Caldi Comunicação, empresa que cuida atualmente de oito artistas do gênero.

A assessora defende que o domínio do sertanejo na TV tem muito mais relação com o grande número de artistas do que com um novo boom, como aconteceu no passado, na época do "Amigos", grupo formado pelas duplas Leandro e Leonardo , Chitãozinho e Xororó e Zezé Di Camargo e Luciano. "Hoje existem mais duplas, mais solos. Isso fortalece o gênero. É muita gente de qualidade. O sertanejo se consagrou no meio urbano", aponta Arleyde.

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O produtor e consultor de marketing na área musical Rommel Marques afirma que a grande vantagem da música sertaneja diante do mercado são as mais de duas mil feiras ao redor do País. "A maioria tem shows musicais e o sertanejo sempre foi o segmento mais forte. Na medida em que vai diminuindo a distância, pela comunicação, o sertanejo começa a entrar com mais força", afirmou ele, que foi o diretor musical do "Festival Sertanejo".

Rommel não acredita que o grande número de sertanejos na TV tenha alguma relação com a chegada do mercado universitário. "Tem sertanejos muito bem estabelecidos há muitos anos no topo, como Zezé Di Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Leonardo, Victor e Leo, Daniel. São vários os artistas ligados à música sertaneja que estão aparecendo de uma maneira forte na TV há muitos anos. Não acredito que a gente possa falar que o sertanejo universitário provocou isso. Ele trouxe um rejuvenescimento.”

Jorge e Mateus gravam o programa 'Sai do chão!'
Divulgação/Globo
Jorge e Mateus gravam o programa 'Sai do chão!'

TV X Redes Sociais

Para Vildomar Batista , diretor da Record, o sertanejo na TV é sinônimo de audiência. “Hoje, o sertanejo está dentro da casa das pessoas do campo, mas também das universidades, das baladas. A TV acaba se aproximando desse conteúdo e transforma isso em ferramenta estratégica de audiência.”

Ele ainda acredita que não são todos os artistas dessa fase que seguirão no mercado nos próximos anos. “Toda onda tem um pico, depois retrocede e, depois, tem um grau de estabilidade. A nova música sertaneja, de alguma forma, acabou se banalizando. Quando você pega duplas como Victor e Leo, Zezé Di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Jorge e Mateus, são duplas que fazem música de muita qualidade e que agrada vários setores da sociedade. Mas algumas duplas acabaram adotando uma linha cômica ou voltada para sensualidade. Acredito que essa fase tem um futuro incerto”, aposta o diretor.

Quem também concorda que sertanejo é sinônimo certo de alta audiência é a diretora do SBT Leonor Corrêa , responsável por dirigir o “Festival Sertanejo” no canal. “Há um investimento muito grande nesse gênero musical porque ele vem associado a festas de rodeio, agropecuárias, grandes shows, marcas de cerveja e, isso, comercialmente, interessa. É a união do gosto popular com o comercial".

Assim como a televisão precisa do artista, ele também necessita da TV para divulgar seu trabalho. Mas por causa das redes sociais, a telinha já não é primordial para atingir os fãs. “Hoje, qualquer música que bomba na internet vira pauta para a TV”, diz Leonor.

Por existir um grande trabalho de escritórios e gravadoras em cima de redes sociais, alguns artistas optam por não aparecer tanto na TV, como a dupla Jorge e Mateus . “Você tem que mostrar conteúdo, dia a dia, música. A gente vive de música, não de aparecer em TV. Acho que se a gente não fizer todo ano um disco legal, não tratar bem as pessoas que vão ao nosso show, a gente pode estar todos os dias na TV, que isso não fará diferença nenhuma na nossa carreira”, disse Jorge em recentre entrevista ao iG.

Vildomar Batista concorda com o cantor. “A TV torna o artista conhecido do público. O rádio tem um importante caminho nessa trajetória. Os artistas não tocam mais de graça hoje nas rádios. Colocar um CD hoje nas rádios se tornou um negócio. Existe um comércio entre as gravadoras, artistas e assessoria. A TV torna o artista conhecido, enquanto a rádio toca música, mas acredito que o fato de um artista não fazer TV, não impede ele de fazer sucesso. Apenas de ser conhecido pela grande massa”.

Questionado se esse “comércio” também acontece nos programas de TV, Vildomar á categórico. “Trabalho na Record há 10 anos e aqui dentro esse procedimento não existe. Somos muito criteriosos ao trazer convidados para colocar na programação. Mas em 28 anos de TV, não só ouvi falar, como conheço pessoas que foram abordadas para fazer acordo comercial. Mas na Record, posso dizer que isso não existe.”

Victor e Leo já fizeram parte do time dos que evitam aparições na TV, mas a postura mudou. Tanto é que, só esse mês, a dupla estará no “Show da Virada” e no “Encontro” (Globo), no “Domingo da Gente” e no “Hoje em Dia” (Record), e ainda participa dos programas do Raul Gil e Ratinho (SBT). “O artista é um portador de mensagens, pela forma como se expressa, se mostra e comporta. A TV é um canal importante por onde, dependendo do tipo de programa a que o artista se propõe a participar, ele mostra tudo isso e passa sua mensagem”, afirmou Victor.

Para seu irmão e parceiro musical, sertanejo na TV não é um modismo. “Vemos claramente ao longo dos anos que as tendências de gêneros musicais variam muito, talvez em função da mudança de gerações ou com influência do próprio mercado. O sertanejo é um gênero que tem suas raízes entranhadas na cultura musical brasileira vinda do interior e, hoje, presente nas capitais também. Acredito que não tenha muita oscilação”, defende Leo.

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