Diretor do "Programa da Eliana", no SBT, reflete sobre as velhas tardes de domingo na TV. Enquanto o público foge para outras mídias, os programas tentam se adaptar e seguir na batalha pela preferência do telespectador


As tardes de domingo na TV são território de encontro da família brasileira há mais de 60 anos. Num domingo sim e no outro também, muitas famílias se reúnem diante da telinha depois do almoço em busca de diversão, emoção e um pouco de informação. Ávidos pela audiência desse grupo tão diversificado, formado por crianças, idosos, homens e mulheres, os canais oferecem aquase sempre a mesma fórmula mágica, e inclusiva, ao longo de décadas: os programas de auditório.

O formato é simples e tradicional, tem um pouco de circo, outra pitada de improviso, participação da plateia e é derivado das feiras populares, onde as pessoas se reuniam na rua em torno de um mestre de cerimônias que apresentava shows de mágicos, cantores, malabaristas. "É um gênero que já existia dentro da programação do rádio quando a televisão surgiu. É um formato velho e às vezes cansativo para quem assiste há muito tempo, mas existe uma renovação permanente do público, por isso tem durabilidade", explica o especialista em televisão Gabriel Priolli . A condensação de custos também é um ponto favorável ao modelo. “Um programa com quatro horas de duração sai mais barato do que quatro programas diferentes no mesmo período. Teve uma época em que o Silvio Santos ficava nove horas no ar ao vivo direto”, comenta Priolli.

Em time que se ganha...

No pacote dos programas de domingo, além do conteúdo semelhante, com pequenos realitys, games, entrevistas, pegadinhas, tombos e atrações no palco, o telespectador também encontra apresentadores que se perpetuam em seus postos, como Silvio Santos , Fausto Silva , Celso Portiolli e Eliana . A permanência desses apresentadores e a insistência do formato pode cansar o telespectador. "Às vezes, tenho a sensação de que tudo se repete há décadas e tenho um pouco de vontade de ver algo diferente", opina Elizabeth Corrêa, aposentada de 54 anos.

A telespectadora está certa: a impressão é essa, de que todo domingo é a mesma coisa. O "Domingão do Faustão" está no ar há mais de 23 anos e a história do "Programa Silvio Santos" se funde com a história da própria televisão. "A televisão vende o programa para o público e o público para os anunciantes. Se o que interessa é o Faustão continuar sendo líder de horário e isso acontece, o programa vai ser sempre a mesma coisa, porque é isso que dá dinheiro para a emissora”, diz ele, que usa a máxima "em time que está ganhando não se mexe" para dizer que qualquer mudança é arriscada. "A exceção é Chacrinha , que levou a tradição nordestina para o palco, radicalizou e teve sucesso. Mas seus clones nunca funcionaram."

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'Domingão do Faustão' está no ar há mais de 23 anos
Divulgação
'Domingão do Faustão' está no ar há mais de 23 anos

Rodrigo Faro

No entanto, o cenário atual ameaça essa estabilidade. “A TV perde público para a TV a cabo, as pessoas estão vendo TV conectadas na internet, no Youtube, ou ficam direto no computador. A elite está vendo séries, gênero que mais se expande atualmente. Esse é o momento de experimentar", decreta Priolli.

Rodrigo Faro, novato na 'batalha dos domingos'
Divulgação
Rodrigo Faro, novato na 'batalha dos domingos'

Recentemente, a TV Record se viu obrigada a inventar um novo apresentador para os domingos, um substituto para Gugu Liberato , que pediu demissão após quatro anos na emissora . Foi assim que tirou da manga o nome de Rodrigo Faro. A aposta se mostrou acertadíssima: ele se tornou o maior sucesso dos programas de auditório dos últimos anos. 

"Acho que meu diferencial é meu perfil sem frescura, gosto de me igualar ao meu público, abraçar, olhar no olho das pessoas. Isso faz o programa ser cada vez mais popular", explica Rodrigo ao iG , sem afastar as preocupações. "Sem dúvida, o futuro é a televisão ao vivo e multiplataforma para acompanhar o imediatismo da internet e a competição da TV a cabo. Isso já está incomodando bastante quem trabalha na televisão aberta", diz Faro.

Mas, feliz com o resultado de seu programa, Rodrigo explicou que também se surpreende com a aceitação. "Vivemos um momento espetacular na parte de audiência e na parte comercial. Todos os meus patrocinadores do sábado migraram comigo para o domingo e outros vieram. Nosso máximo de merchandising é 8, mas temos hoje 14 por programa e tem 6 empresas na fila querendo entrar", comemora.

Novato no que se convencionou chamar de “guerra dos domingos”, Faro sabe que enfrenta dois grandes desafios: de um lado, a briga com a concorrência, do outro, a fuga dos telespectadores. "Os quadros de todos os programas são muitos parecidos, todos bebem na mesma fonte, é dificil fazer coisas diferentes depois de 60 anos de televisão. Por mais que tentemos buscar coisas novas, é bastante complicado", diz Faro.

E se as notícias de bastidores divulgadas nesse sábado (6) estiverem certas, a mesma emissora de Faro tem uma nova carta na manga, a apresentadora Sabrina Sato , que teria sido convidada para assumir a partir de março os domingos da Record, deixando assim o humorístico "Pânico", onde está desde 2003, quando saiu do reality show "Big Brother Brasil". 

E o momento é de mudanças até na TV Globo. A nova aposta da casa é o humorístico "Divertics" , que estreia apresentando esquetes e improvisações no lugar do "Esquenta". Neste domingo (8), o "Domingão do Faustão" vai ao ar só às 19h, após o jogo de futebol.

Na busca pela inovação, Eliana comanda novo quadro, 'Rede da Fama'
Divulgação/SBT
Na busca pela inovação, Eliana comanda novo quadro, 'Rede da Fama'

Eliana: internet na TV

De olho nos interesses do"público conectado", o "Programa da Eliana", do SBT, inovou este ano. "Levamos ao ar dois quadros que misturam o hábito das pessoas na internet com programa de TV. Um deles é um projeto inédito no mundo, desenvolvido por nós em parceria com o Youtube e a Endemol, chamado 'Fenômenos do Youtube' e o outro é o 'Rede da Fama', onde montamos uma rede social do artista no palco do programa. São dois projetos que considero bastante inovadores e criativos e que eu e a Eliana temos muito orgulho de levar ao ar", comentou  Ariel Jacobowitz , diretor da atração, ao iG .

"A TV vive de se reinventar. O dia em que o profissional de TV não souber fazer isso, está fora do mercado. Nossa pulsação deve ser essa busca pelo diferente, pela novidade. Os programas de auditório são perfeitos para exercitar a criatividade porque cabe tudo dentro deles", defende Ariel. Priolli concorda. "Recentes pesquisas indicam que 60% dos telespectadores assistem à TV tuitando, postando no Facebook. É uma vontade de participar do programa e o programa de auditório é interativo por concepção, é um gênero caloroso, e conhecer o público é fundamental para tentar acertar na audiência", indica Priolli.

Celso Portiolli com o elenco de 'Chiquitas': conhecer o público é fundamental
Divulgação
Celso Portiolli com o elenco de 'Chiquitas': conhecer o público é fundamental

Celso Portiolli

Ao iG , Celso Portiolli contou que as pesquisas influenciam na programação do "Domingo Legal", que tem em seu público maioria de crianças e mulheres. Sabendo disso, no domingo (1), a direção do programa preferiu adiar a participação de Bárbara Evans e segurar no palco os atores mirins da "Patrulha Salvadora" e da novela "Chiquititas".

"Eles são fenômenos. Tenho por eles um enorme carinho e acho que a empatia e o carisma deles transparecem para o público, por isso eles são sucesso", diz Celso. "O público adora programa de auditório e eu também. Sinto a energia das “colegas de trabalho” que acordam cedo, às vezes vêm de longe, para juntos apresentarmos o programa. Não sou nada sem elas", continua o apresentador.

Zona de conforto

Por enquanto, nada indica que o gênero deve mudar. "Ao longo dos anos, os programas de auditório vão tendo alguns ajustes de fórmula para ter os elementos de novidade de que a televisão precisa. Mas, do mesmo jeito que a televisão precisa da novidade, também precisa da tradição, da zona de conforto, e por isso vai veicular aquilo que o público já está acostumado a ver. Por isso, vejo vida longa para os programas de auditório", conclui Priolli.






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