Doze anos após a vitória do primeiro reality show brasileiro, Elaine de Melo relembra os dias de sucesso e depressão e sonha em conversar com a Xuxa sobre abuso sexual

André Giorgi
"Todo mundo que sai de um reality show deve aproveitar: ganhe dinheiro e depois vá viver a sua vida", diz Elaine

Desde a terça-feira (29), 16 participantes já conhecidos do público estão confinados em “A Fazenda” em busca de um prêmio de R$ 2 milhões e ainda mais fama. Há 12 anos, a cabeleireira paulistana Elaine Cristina Cosmo de Melo venceu o preconceito, os desafios nas dunas cearenses e levou o prêmio de R$ 300 mil e um carro zero do “No Limite”, da Rede Globo. Assim, ela tornou-se a primeira vencedora de reality show brasileiro e viu a vida virar de cabeça para baixo da noite para o dia, durante seis meses. Garante que até hoje as pessoas a reconhecem na rua e dão parabéns.

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Elaine, que atualmente trabalha como corretora de imóveis, diz que curtiu todo o lado bom e ruim do sucesso instantâneo. Ganhou roupas, paparicos e dinheiro com campanhas publicitárias. Mas teve que aguentar helicóptero sobrevoando sua casa, destrato de algumas pessoas do meio artístico e assessora golpista. Chegou até a estudar teatro para continuar a nadar na maré da fama, fez palestras e escreveu um livro de auto-ajuda. Mas a reviravolta em sua vida foi o estopim de uma grande depressão - quando chegou a pesar 160 kg - e decidiu frear a trilha do sucesso. “Acho que essa fama veio no momento errado. Eu tinha 36 anos, duas filhas, um marido companheiro. Tive que fazer uma escolha. Eu teria que abrir mão de muita coisa que eu acredito para tentar a carreira artística .”

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“EU TINHA 36 ANOS, DUAS FILHAS, UM MARIDO COMPANHEIRO. TERIA QUE ABRIR MÃO DE MUITA COISA PARA TENTAR A CARREIRA ARTÍSTICA"

Mesmo afastada do meio, Elaine ainda faz algumas pontas, sempre no papel de ex-No Limite. Há duas semanas, foi ao Rio de Janeiro para gravar uma participação no humorístico “Casseta & Planeta Vai Fundo”. Elaine diz que quando a convidam, ela aceita, mas não procura ninguém da televisão. Conta, no entanto, que tem vontade de entrar em contato com a Xuxa desde que a apresentadora deu uma polêmica entrevista para o “Fantástico” . “Eu chorei muito com a Xuxa, queria um contato dela. Eu também passei por abuso, sei o que é. Eu tinha uns quatro, cinco anos e meu avô me tocava, me bolinava, me beijava. Achava que era carinho e um dia minha mãe pegou. E era o pai dela”, desabafa. Confira o bate-papo:

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A então cabeleireira entre os finalistas da primeira edição de
Divulgação
A então cabeleireira entre os finalistas da primeira edição de "No Limite"

iG: Por que entrou em depressão após o auge da fama?
Elaine de Melo: Essa depressão veio lá de trás, aos 22 anos perdi o meu pai num acidente de carro e um ano e meio meu irmão foi baleado. Eu sempre segurei a minha família. Acho que foi o estopim foi quando eu saí do programa. A decepção com o ser humano, como o ser humano valoriza mais o dinheiro do que a própria vida das pessoas. Nessa depressão eu fui ao fundo, cheguei a pesar 160kg. A depressão começou seis, sete meses depois do programa, quando baixou a procura da mídia, antes eram 12, 15 horas de dedicação à mídia, helicóptero sobrevoando a minha casa, repórter na porta. Eu podia ter surtado bem mais.

iG: O que te tirou da depressão?
Elaine de Melo: Minha família.

iG: O que mudou na vida de uma cabeleireira e mãe de família que passou a ser uma pessoa nacionalmente conhecida?
Elaine de Melo: Ganhar coisas, fazer isso, fazer aquilo, é muito bom ser paparicada. Sempre fui muito lutadora, muito guerreira, trabalho desde os meus 13 anos. Aquilo parecia uma surtada momentânea de seis meses até começar a se tornar abusivo e eu comecei a colocar limites nas coisas.

“CHOREI MUITO COM A XUXA, QUERIA UM CONTATO DELA. EU TAMBÉM PASSEI POR ABUSO, SEI O QUE É"

iG: O que era abusivo?
Elaine de Melo: Uma mulher veio para ser a minha assessora, queria que eu fizesse evento aqui, evento ali e sem ver um centavo por nada disso, ela estava pegando todo o dinheiro. Fui bem tratada e fui destratada por pessoas do meio, por artistas. Teve gente que chegou a me destratar pela fama instantânea. Prefiro não dizer quem é, mas é alguém que acho que não lida bem com a fama. De tudo para mim foi um aprendizado: o que é o ser humano real, o que é fantasia e o que é realidade, o que é o amor verdadeiro. Quem são as pessoas que sempre vão estar do seu lado com ou sem dinheiro.

André Giorgi
"Fui bem tratada e fui destratada por pessoas do meio, por artistas. Teve gente que me chegou a destratar pela fama instantânea" Prefiro não dizer quem é, mas é alguém que acho que não lida bem com a fama"

iG: Não gostaria de ter aproveitado por mais tempo a fama repentina?
Elaine de Melo: Se eu achasse que isso teria tido algum efeito em mim, eu poderia ter ido mais atrás. Mas acho que essa fama veio no momento errado. Eu tinha 36 anos, duas filhas, um marido companheiro. Tive que fazer uma escolha. Eu tinha que abrir mão de muita coisa que eu acredito tentar a carreira artística . Eu não consegui conciliar. Fiquei com medo de me afastar demais delas (minhas filhas), eu não estava pronta para isso. Não lamento por nada do que aconteceu. Foi legal, aproveitei um ano. Acho que é isso que todo mundo que sai de um reality show deve aproveitar: ganhe dinheiro e depois vá viver a sua vida.

iG: As pessoas ainda te reconhecem hoje em dia?
Elaine de Melo: É impressionante, mas reconhecem. Elas vêm me dar parabéns.

iG: O que faria de diferente se tivesse o conhecimento que tem hoje, sabendo como funciona a vida pós-reality?
Elaine de Melo: Talvez eu fizesse diferente lá dentro e não depois de sair. Tentaria ao máximo agir da forma mais natural possível, não tentaria inventar um personagem como as pessoas fazem.

“FOI UM APRENDIZADO: O QUE É FANTASIA E O QUE É REALIDADE, O QUE É AMOR VERDADEIRO, QUEM SÃO AS PESSOAS QUE SEMPRE VÃO ESTAR DO SEU LADO COM OU SEM DINHEIRO" DIZ SOBRE O REALITY

iG: O que mudou na sua vida financeiramente após o prêmio? Antes  você morava no mesmo terreno que sua mãe...
Elaine de Melo: Eu sempre tive a minha casa, comprei meu primeiro apartamento aos 18 anos. Fui morar na casa da minha mãe por causa da minha avó. Depois do prêmio, comprei dois apartamentos no mesmo lugar, um para investir, que minha irmã ia me pagando aos poucos, o que foi a minha sorte porque depois de um ano entrei em depressão profunda. Também comprei um estacionamento que não deu certo.

iG: Você acompanha outros reality shows, como “BBB” e “A Fazenda”?
Elaine de Melo : Não ando acompanhando muito porque se tornou uma coisa muito repetitiva, os perfis das pessoas são iguais, a gostosa, o negro... Tinha que pegar pessoas normais, do povo, como eles já fizeram. A maioria das pessoas que entra tem valores muito pobres, um ou dois tem valores melhores. Acho uma graça o exemplo da Grazi (Massafera) que foi lá e depois lutou para ser atriz. A Juliana Alves também.

iG: Aceitaria convite para participar de um outro reality show?
Elaine de Melo: Agora com quase 48 anos, não sei. Mas acho que até toparia ir para confinamento.

iG: O que faria com o prêmio de R$ 2 milhões?
Elaine de Melo: Continuaria vivendo como vivo hoje. Talvez compraria imóveis, uma carro para a minha filha mais velha que entrou na USP e daria um dinherinho, uns R$ 5 mil, 10 mil para ela fazer um mochilão pela Europa com o namorado.

Agradecimento: Fran’s Café Vila São Francisco (São Paulo – SP)

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