Na ocasião, ator reafirmou seu amor à vida: "Não tenho medo da morte. Só não quero ir agora"

O ator e chef Rodolfo Bottino morreu aos 52 anos neste domingo (11)
Isabela Kassow
O ator e chef Rodolfo Bottino morreu aos 52 anos neste domingo (11)

Rodolfo Bottino
pediu para se sentar na mesa da calçada, na tumultuada Rua Cosme Velho, em frente ao restaurante Assis, onde dava aulas de culinária toda terça-feira. Seria ali, entre cigarros, cafés expressos e muitas risadas que o ator daria sua última entrevista. "Vamos conversar sobre tudo", propôs ele.

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Aos 52 anos, o ator e chef de cozinha morreu em Salvador, na manhã deste domingo (11), vítima de uma embolia durante um exame para a realização de uma cirurgia no quadril. Atualmente ele estava envolvido com a finalização de um livro de ficção, no qual o personagem central era um cozinheiro que matava suas vítimas com uma receita misteriosa.

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A última entrevista

Três meses antes. Era um final de tarde agradável, poucos ventos. Dia 6 de setembro, 18 horas. Em um papo que durou uma hora e cinquenta minutos, o ator falou de sua relação com a Aids (que tornou pública em 2009), sobre as loucuras que aprontou nas décadas passadas e da imagem de galã que, nos anos 1980, o fez ser um dos atores mais requisitados da TV Globo. Disse também, feliz, que havia gravado o quadro do programa "Estrelas", da Angélica, que iria ao ar no final de semana seguinte.

O papo era para ter ocorrido quinze dias antes, em decorrência do lançamento do filme "O Homem do Futuro". No longa de Claudio Torres , Bottino faz uma participação. Mas o encontro foi adiado por causa de uma crise renal que o levou a se internar por uma semana com fortes dores abdominais. Bottino não sabia, mas ali naquele bate-papo, estaria compartilhando – de forma definitiva - sua lição de vida com seu público. "Deus me deu um 'gift', uma dádiva. Não encarei a vida com mau humor, nem as coisas ruins", disse.

Ao decidir falar abertamente sobre a luta que travara contra a Aids, Bottino se tornou, involuntariamente, conselheiro sobre a doença. Disse que recebeu inúmeras cartas e emails de todo o país. Soube interpretar, como bem pedia o papel de sua própria vida, o guerreiro que nao desiste facilmente. Venceu várias batalhas. Como a do câncer de pulmão, em 2006. Falando pausadamente, contido nos gestos mas com raciocínio ligeiro, Bottino se mostrava, aos poucos, um homem otimista. "Não tenho memória para a dor, é como se meu cérebro bloqueasse certas coisas", disse.

Perguntado se temia a morte, que tentou visitá-lo algumas vezes, ele riu. Como quem ri da vida. "Não tenho medo de morrer, nunca tive. Só não quero morrer agora. Está bom aqui. Acredito em Deus, sou católico, mas não vejo o que vivi como um carma. É o que vivi, só isso. Não quero ser exemplo para ninguém. Odeio ser chamado de coitadinho. Passo longe de ser um coitadinho", disse, acendendo o terceiro e último cigarro da entrevista.

Após duas xícaras de café bem forte e um copo de água, ele se levantou e se dirigiu à cozinha do restaurante, onde sete alunos já o aguardavam para a aula de gastronomia daquela noite.

Rodolfo Bottino se especializou como chef após carreira como ator da Globo
Isabela Kassow
Rodolfo Bottino se especializou como chef após carreira como ator da Globo


Como eram as suas aulas de gastronomia

As aulas tinham cerca de uma hora e quinze minutos de duração. Sempre às terças. Pagava-se R$120 e, ao término de cada sessão gastronômica, todos sentavam-se à mesa para a degustação dos pratos. A turma era de seis a dez pessoas. Acompanhavam-no na cozinha duas assistentes de fogão e uma de limpeza.

O repórter do iG aprendeu a fazer três pratos: um ceviche com purê de batata-doce, um peito de frango no gergelim com maçãs e morangos flambados. Todos deliciosos. Logo na chegada à aula, Bottino costumava cumprimentar a todos, um a um. Depois lavava as mãos e colocava o avental rumo às panelas.

Formado no curso do Le Cordon Bleu, na França, costumava chamar a atenção de quem batia papo. Não queria dispersão. Servia coca-cola ou vinho enquanto explicava sobre a origem do limão siciliano, entre outros ingredientes. Se falasse algo que merecia ser anotado, se enfurecia com quem não estava atento ao bloco de anotações.

Se para conversar Bottino se dispunha de todo o tempo do mundo, já para as fotos era um tormento fazê-lo ficar parado. Parecia hiperativo. "Olhar para a câmera? Sorrindo ou sério? Chega, chega de fotos", dizia ele, num misto de diretor e dirigido. Depois que a entrevista foi publicada, ele ainda ligou, gentil, para agradecer e também comentar a repercussão. "Vários amigos me ligaram", disse. E ainda perguntou ao repórter se havia preparado o ceviche em casa. "Faça logo e depois conte para a turma se deu certo. E não esqueça do limão siciliano", repetiu ele.

Recentemente o ator voltou a ligar para o repórter. Animado com um livro de ficção que estava escrevendo, contou que em breve iria voltar à televisão, ainda sem emissora definida, para apresentar um programa de "gastronomia chique voltada para o povo". Como sempre, estava vivendo cheio de gás. Sem tempo para a angústia. E quis saber, mais uma vez: "Ainda não preparou o ceviche? Está esperando o quê?"

Rodolfo Bottino em uma das imagens de sua última entrevista
Isabela Kassow
Rodolfo Bottino em uma das imagens de sua última entrevista

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