O diretor fala ao iG sobre a fama de durão, a experiência no cinema com “Assalto ao Banco Central” e diz que sua luta contra o câncer “é apenas uma batalha”

Marcos Paulo dirige seu primeiro filme no cinema,
George Magaraia
Marcos Paulo dirige seu primeiro filme no cinema, "Assalto ao Banco Central"
Marcos Paulo , 60 anos, imprime a personalidade forte – principal marca de sua carreira como ator e diretor de núcleo da TV Globo – em tudo que faz. Tudo é tudo mesmo, inclusive na hora de dar entrevistas: “Se a ideia for fazer uma matéria sobre câncer é melhor nem marcar”. Cansado do uníssono da imprensa nas últimas semanas, após a revelação de que estava tratando um câncer de esôfago , ele não se recusa a falar sobre o assunto, mas faz questão de mudar o disco. “Não dá para viver a vida em função disso”, afirma ele.

Pai de Vanessa, do relacionamento com a modelo italiana Tina Serina, e de Mariana e Giulia, dos casamentos com as atrizes Renata Sorrah e Flávia Alessandra , respectivamente, o diretor atribui a fama de durão às dificuldades do dia a dia na televisão, mas se defende: “Eu já fui um cara pior”. Sentado no sofá de seu apartamento em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, ele explica: “Trabalho com muita gente. E mais sério do que isso: trabalho com muito ego. Então preciso saber o que quero e botar pé firme senão acabo sendo engolido. Um diretor não pode ser engolido”.

Marcos Paulo contabiliza quase uma vida à frente da televisão – “ela (a TV) nasceu em 1950, eu nasci em 1951 e comecei a trabalhar na TV Tupi com cinco anos de idade” – mas em vez de se acomodar, agora decidiu se arriscar no cinema. Há poucos dias fez sua estreia como diretor do longa “Assalto ao Banco Central” . O filme, que conta a história do maior roubo a banco do século, chegou à marca de 1 milhão de espectadores, mesmo tendo estreado ao lado de um blockbuster, o último da série de Harry Potter .

“Não consigo ficar estagnado. Em 1978 percebi que a minha vida ia caminhar para o galãzinho bonzinho e eu não sabia por quanto tempo isso ainda ia ficar. Falei para o Boni: ‘Não vou ficar a minha vida inteira fazendo isso aí. Quero fazer um curso de direção’. Fui-me embora para Nova York e passei um ano estudando. Foi um risco”, relembra Marcos, que afirma ter decidido fazer cinema para “se reinventar”.

Entre as diferenças do trabalho na TV e no cinema, Marcos ressalta o fator humano como uma das principais. “No cinema a equipe se une para trabalhar por cinco ou até oito semanas, e depois se dispersa. Numa novela aquelas pessoas vão conviver por quase um ano. Então, às vezes, abro mão de uma atriz ou um ator que seria ideal para um personagem em função do caráter e do comportamento dessa pessoa. Uma pessoa tira a paz do elenco e para conseguir recriar essa harmonia depois é muito complicado”.

Filho do novelista Vicente Sesso,o diretor estreou na TV como ator aos cinco anos
George Magaraia
Filho do novelista Vicente Sesso,o diretor estreou na TV como ator aos cinco anos

“Bunda na janela”

Apesar do sucesso de público, “Assalto ao Banco Central” lhe rendeu algumas duras críticas. “Quando você bota a bunda na janela é para isso mesmo. Todo mundo que trabalha com arte sabe que vai ter crítica positiva e negativa”, afirma ele. Marcos garante que não teve a verba e o tempo que gostaria para rodar o longa. Com um orçamento de R$ 7 milhões – metade do valor empregado em “Tropa de Elite 2” – o diretor confessa que faria muita coisa diferente se pudesse.

“Se tivesse tempo as cenas de ação seriam muito mais bem feitas. Sei que sei fazer muito melhor do que aquilo”. O diretor pontua que ainda está aprendendo e dispara contra as críticas às cenas de ação de “Assalto”. “Ficam comparando com as de um filme americano. Não dá para fazer essa comparação. Um americano faz um filme desses em dois meses. Tive dois dias para fazer uma perseguição”, diz Marcos, que garante não ter optado por uma equipe estrangeira para auxiliá-lo por falta de verba.

Não foram as únicas dificuldades enfrentadas, mas nem a quebra de uma câmera desanimou o diretor. O acidente aconteceu durante a filmagem da perseguição de um caminhão-cegonha que comportava oito carros. “Estávamos com três câmeras sendo que uma a gente perdeu. Era um equipamento antigo que ficava dentro de uma caixa, na frente do caminhão. Na primeira batida a câmera foi embora”.

Sobre o
George Magaraia
Sobre o "Assalto": "Sei que sei fazer muito melhor"
Críticas à “censura”

Diferente do que acontece com o trabalho na televisão, Marcos enumera uma série de interferências no roteiro assinado por Renê Belmonte. “Mexemos juntos e isso é normal. Quando sentamos para montar o filme ele ainda foi mexido”, lembra ele.

Marcos garante que a classificação indicativa do filme não influenciou os cortes de cenas de sexo, como a sequência em que Eriberto Leão se relacionava com duas mulheres. “Nosso filme ia ser 16 anos e conseguimos 14. O que cortamos foi por causa de tempo”. Entretanto, ele afirma que a classificação indicativa é um peso. “Dizer que a censura acabou é uma bobagem. Só mudou de nome: chama classificação etária. Na televisão estão enchendo o saco com isso”.

Na estreia do longa no Rio, ele conta que deixou de levar a filha de 11 anos, Giulia, e viu um pai entrando com uma criança. “Então não sei que critério é esse. Ela estava louca para ver, mas não pôde porque eu, como diretor do filme, não posso no dia da estreia colocar uma criança de 11 anos lá dentro. Aí estou todo errado”. Mas afirma que pretende deixar que a caçula assista a “Assalto”. “Acho que vou mostrar o filme para ela... Hoje você liga a televisão e não tem mais como esconder. Se ela assistir a ‘O Astro’ ainda vê mais (do que o filme mostra)”.

Por conta do tratamento contra o câncer ele emagreceu 10 kg
George Magaraia
Por conta do tratamento contra o câncer ele emagreceu 10 kg

Fama de conquistador

Atualmente Marcos está às voltas com seu próximo filme, “Sequestrados”, com roteiro de José Eduardo Belmonte e Jota Procópio. O argumento também terá a assinatura de sua mulher, a atriz e produtora Antônia Fontenelle, com quem está há cinco anos.

Famoso pelas conquistas amorosas de mulheres lindas, o diretor se diz vaidoso e afirma estar começando a sentir o peso da idade. “Não tive crise, mas dá para sentir a cada 10 anos que o corpo está mudando. O momento em que mais percebi foi agora, com 60. Talvez porque esteja mais próximo dos 80”, diz ele, esboçando um sorriso.

Questionado se o assédio feminino continua forte mesmo estando casado, despista. “Não sei como anda isso. Tenho ficado muito em casa”. O charme e a boa forma em nada fazem lembrar a luta que Marcos está travando desde abril, quando fez um check-up completo e identificou um tumor . Desde então emagreceu 10 kg. Segundo ele, “tinha que ter um lado positivo” na batalha que está enfrentando. “Adorei! Quando comecei a vestir as roupinhas que não usava mais fiquei bem felizinho”, conta às gargalhadas.

“Tive sorte de ter uma equipe médica muito boa. Então não consegui juntar esse momento à morte.“
George Magaraia
“Tive sorte de ter uma equipe médica muito boa. Então não consegui juntar esse momento à morte.“

“É só mais uma batalha”

Com otimismo ele fala sobre as agruras do tratamento a que precisou se submeter e os maus bocados pelos quais passou ao finalizar “Assalto” no Chile após seis semanas de químio e radioterapia. “Foi a pior semana que tive”. Sem abatimento, justifica de forma prática o fato de tornar sua doença assunto de domínio público.

“Descobri o câncer no começo porque faço exames regularmente e gostaria de incentivar que as pessoas que têm condições fizessem o mesmo. Hoje, se você fica sabendo rápido, tem até 100% de chance de cura”, enfatiza. Ele nega que tenha “medo da morte” como foi alardeado em diversas publicações. “Tive sorte de ter uma equipe médica muito boa e positiva. Então não consegui juntar esse momento à morte.“

O diretor garante que a doença serviu para unir ainda mais a família. Ele optou por reunir as filhas num almoço para contar a todas. “Foi muito natural, não consegui fazer drama em cima disso. Como não dei muito peso, acho que também não pesou muito nas pessoas”, explica. “ A Antônia foi a mais assustada”, conclui, bem-humorado.

Marcos tomou a decisão de emitir um comunicado à imprensa após conversar com o diretor da Central Globo de Comunicação, Luis Erlanger . “Resolvi que não ia ficar me escondendo porque isso (o câncer) não é uma vergonha. Me conscientizei de que sou um ser humano, estou vivo, e sou passivo de ter qualquer doença. É só mais uma batalha . E não vai ser essa que vai me derrubar”.

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