A atriz, que está na nova novela das seis da TV Globo, se considera casada, conta que superou o rótulo de filha do autor e diz que, para ela, criança não é Barbie

Júlia Almeida está no ar como a Lorena da novela das seis
Selmy Yassuda
Júlia Almeida está no ar como a Lorena da novela das seis "A Vida da Gente"
Com pouco mais de uma hora de atraso, Júlia Almeida , 28 anos, chega ao Sheraton Rio Hotel & Resort, na zona sul da capital fluminense. Acompanhada do namorado, o stylist britânico Sebastian Bailey – os dois estão juntos há sete meses – e usando enormes óculos escuros, que ela pede para não tirar na hora de posar, a atriz traz consigo uma opção de look para as fotos e parece agitada, mas a fama que a moça carrega de “difícil” não se confirma.

Sentada no degrau de um bangalô do resort, entre calorosas gargalhadas, a atriz responde a qualquer tipo de pergunta – e sem medo. Ela mesma antecipa o que considera assuntos inevitáveis, como falar sobre o rótulo de filha do autor de novelas Manoel Carlos e a relação com as marcas de nascença que carrega no corpo. Feito isso, Júlia subitamente desaperta o botão do automático. Tira os óculos, diz que sabe da fama de metida e explica: “Até prefiro que achem isso. Não gosto de ser confundida com puxa-saco”.

Bem-humorada, ela conta que é fã da cantora Cher , seus melhores amigos são gays e brinca: “Eu sou gay desde pequena”. Questionada se já teve alguma experiência homossexual, fica um instante em silêncio, solta uma gargalhada e responde com franqueza: “Já tive muitas experiências na minha vida. Eu já vivi bastante”.

Morando em Nova York, Júlia está no Rio a trabalho. A atriz está na nova novela das seis, “ A Vida da Gente ”, de Lícia Manzo e será Lorena, babá de Thiago, um menino que é ignorado pelos pais e com quem desenvolve fortes laços. Em paralelo, Júlia lança em novembro sua revista eletrônica, a The Mark Mag, em parceria com o namorado. Ela vê no projeto, que define como uma revista de curiosidades, uma oportunidade de poder trabalhar aonde quer que esteja e uma forma de revelar novos talentos. “Sebastian disse uma frase ótima: vamos celebrar os bons de uma maneira diferente. Quero descobrir gente nova, mas também pegar os que já estão aí e falar coisas diferentes”, diz ela. A seguir a entrevista com a atriz.

iG: Fez laboratório para a personagem?
Júlia Almeida:
Fiz um laboratório no Hospital Copa D´or conversando com enfermeiras, na pediatria. Vou fazer também com o ator que vai interpretar o Thiago para ganhar uma certa intimidade com criança porque eu não sou muito...

Júlia namora o stylist Sebastian Bailey há sete meses. Os dois estão morando juntos
Selmy Yassuda
Júlia namora o stylist Sebastian Bailey há sete meses. Os dois estão morando juntos
iG: Não tem instinto maternal aflorado?
Júlia Almeida:
Eu não tenho. Gosto de criança porque não sou nenhum monstro, mas eu não tenho intimidade. Não sonho em ter cinco filhos.

iG: Mas quer ter filho?
Júlia Almeida:
Lá, lá, lá na frente, depois de tudo.... (faz uma careta). Depois de tudo concretizado, tudo feito, porque eu não quero deixar de fazer nada. Tenho pavor e me dá um certo frio na espinha quando escuto: “Aí olhei para ele - ou para ela - e vi que a partir daquele momento a minha vida não era só minha”. Me dá um pavor aquilo! “Eu tinha que viver para ele”. Me dá um pânico. “Que a partir de agora eu tinha aquela pessoa que dependia de mim”. Gente eu não consigo dar conta da minha cachorra, Lola, coitada! Eu olho para a cachorra e falo: “Não posso ter um filho, não consigo cuidar de uma cachorra que pesa três quilos”. Eu só dou brinquedo. Quando dá piti dou um osso. Ela é linda e tal. Mas as pessoas tem que pensar que não é uma Barbie. Vai crescer, vai ficar adolescente. Aí falam que a gente é fria. Não é, estamos pensando porque vai ter que se doar. E não, eu não posso me doar (risos).

Gosto de criança porque não sou nenhum monstro, mas eu não tenho intimidade. Não sonho em ter cinco filhos.”

iG: Sua personagem é uma babá que desenvolve uma relação muito forte com uma criança que sofre com a falta de atenção dos pais. Já experimentou alguma coisa parecida?
Júlia Almeida:
Minha mãe sempre foi muito presente e até hoje é. Mas ainda tenho uma babá, a Cris, que continua trabalhando na casa dos meus pais. Ela me criou junto com eles. Foi para lá muito nova, era adolescente. Eu era muito ligada a Cris, mas não deixei de ser ligada a minha mãe e ao meu pai. Era uma espécie de irmã mais velha, não uma substituta. Mais um complemento. Ela acabou sendo um ser especialíssimo na minha vida.

iG: E o seu pai? Também é presente?
Júlia Almeida:
Muito. Sou workaholic assumida e isso começou porque desde pequena ia para o escritório do meu pai, em casa, e ficava vendo, ouvindo o barulho da máquina de escrever. Ele gosta muito de escrever a mão - não as novelas, claro. Ele mesmo fazia um cafofozinho com almofadas no escritório e eu ficava lá até dormir embalada pelo barulho da máquina.

iG: Ele está com 78 anos. Como é ter um pai com uma diferença de idade grande?
Júlia Almeida:
Ele não se choca com nada. Tem uma cabeça bastante jovem, mais do que a minha mãe. As únicas coisas que o irritam são o blackberry - sou viciadíssima-, e porque levo trabalho para todos os lugares. Diria que é um dos meus melhores amigos. Converso com ele de igual para igual, saímos para jantar, peço dicas. É presente o tempo todo como pai mesmo e, no trabalho, sempre foi isso que o Brasil inteiro acompanhou.

iG: Você fala do rótulo de “filha do Manoel Carlos”?
Júlia Almeida:
Essa coisa me incomodou muito no começo de “filha do Manoel Carlos, filha do Manoel Carlos” e não me incomoda mais. Quando comecei a perceber que já tinha uma campanha - maneira de dizer – isso começou a me irritar. Então percebi que ia ter uma irritação em relação ao meu pai. Falei: “Não vou deixar que isso me atinja porque meu pai está muito acima disso”. Meu pai é meu pai. Não posso ter uma irritação porque meu pai é tão maravilhoso para mim. Para quê? Então quem quiser se irritar com isso que se irrite. Que posso fazer? É o meu pedigree (risos).

iG: Isso te marcou ou virou essa página completamente?
Júlia Almeida:
Passou completamente. Acho que é uma coisa que atrapalha um pouco quando a gente é adolescente. Eu comecei muito nova e a adolescência é a pior fase do mundo. Me chateou um pouco nessa época, mas não sou de ficar assim por muito tempo. Tenho amigos – poucos -, mas verdadeiros do meu lado, tenho uma família muito sólida e de verdade.

Em novembro ela lança a revista eletrônica The Mark Magazine em parceria com o namorado
Selmy Yassuda
Em novembro ela lança a revista eletrônica The Mark Magazine em parceria com o namorado
iG: Você já disse que virou mulher na primeira vez em que foi morar em Nova York. Acha que esse afastamento te ajudou?
Júlia Almeida:
Sim. Nova York me recebeu de braços abertos. Digo que não é Estados Unidos. É um mundo numa ilha. E quando falo que me descobri lá é porque realmente é uma cidade que aceita todo mundo. Se você é rico, se você é pobre, se você é filha de... (faz uma pausa). Tem lugar para todo mundo.

iG: Foi daí que surgiu a ideia da revista?
Júlia Almeida:
Digo que moro lá e trabalho aqui. Fiz a minha carreira aqui, mas gosto de manter a minha vida de lá porque é onde me nutro. A história de fazer a revista tem a ver porque tudo que eu vi, conheci, e vejo ainda, quero poder mostrar. Às vezes vejo amigos que só vão para fazer compras, mas moro lá e sei que tem coisas de arte maravilhosas. São pequenos tesouros e achados. Assim como no próprio Rio de Janeiro, que tem a possibilidade de ser uma cidade tão rica e, às vezes, sinto que é só uma cidade bonita.

Vivenciei essa situação diversas vezes e já estou escolada. Tenho um radar. Você aprende a ter um radar e sacar quem se aproxima por interesse.”

iG: Para você o que falta?
Júlia Almeida:
As pessoas falam: “Ah, você não gosta do Rio de Janeiro?”. Gosto, mas penso que poderia ser mais. Converso com amigos de fora e alguns acham que o Rio é apenas bunda, carnaval, cerveja e futebol. A ideia da revista é a minha forma de linkar o Rio de Janeiro não só com Nova York, mas com o mundo. Depois queremos falar para as pessoas mandarem coisas porque a ideia é promover gente nova em diversas áreas. Estou cansada de voltar para o Brasil e ver sempre as mesmas pessoas. Inclusive eu e meu pai. Não aguento mais ver meu pai (risos).

iG: Já fez teste para alguma personagem?
Júlia Almeida:
Teve um muito especial que foi para “Presença de Anita” (minissérie de 2001 escrita por Manoel Carlos). Foi um teste escondido. Liguei para a pessoa responsável e falei que queria fazer para a protagonista. Ele disse: “Júlia seu pai vai me matar”. Porque ele não queria deixar que eu fizesse. Mas eu fui e fiz o teste para a Anita. O Ricardo Waddington (diretor) disse: “Não acredito que você está aqui”. Falei: “Eu tenho o perfil e quero fazer”. Fiz dois testes e fui passando. Mas foi a Mel Lisboa que fez, maravilhosamente bem. Eles queriam mesmo uma pessoa completamente desconhecida, descobrir uma Anita, mas foi muito importante para mim ter feito e ter peitado.

iG: Já sentiu que as pessoas se aproximam de você por interesse?
Júlia Almeida:
Demais. Já sofri muito com isso. Vivenciei essa situação diversas vezes e já estou escolada. Tenho um radar. Você aprende a ter um radar e sacar quem se aproxima por interesse. Às vezes me confundem com ser mais metida, e eu até prefiro que achem isso, porque tenho problema com puxa-saco. Não gosto de ser confundida com puxa-saco.

Júlia Almeida:
Selmy Yassuda
Júlia Almeida: "Já sofri muito. Você aprende a ter um radar e sacar quem se aproxima por interesse".
iG: De uns anos para cá você parece mais mulher. O que mudou?
Júlia Almeida:
Acho que tem sempre uma fase em que a gente se encaixa. Encontra o nosso universo, o nosso grupo, e quando isso acontece ficamos mais seguras. E acho que as pessoas percebem isso. Fui crescendo e todo mundo no Brasil acompanhou. Não vivi isso sozinha. Todo mundo tem problemas apesar de não andar com eles estampados na testa, então pensei que ou eu resolvia ou passava o resto da vida deprimida. Então resolvi simplesmente seguir minha vida adiante e ser feliz. Sobre o meu sinal, tenho que lidar com ele. Não é uma coisa que me incomode mais. Sempre vai fazer parte de mim e tive que aprender a amar. Sou eu.

No Brasil lembro mais que tenho as marcas, porque as pessoas olham mais. Fica uma curiosidade. Mas no resto do mundo passa batido. Sou eu, é o meu corpo e eu me amo.”

iG: Você já deve ter ouvido que inventam todo tipo de teoria sobre as marcas.
Júlia Almeida:
Inventam. Mas morando fora aconteceu de gente me pedir para tirar foto para copiar e fazer tatuagem, tem gente que nem pergunta, tem gente que acha lindo e briga comigo porque eu tento tirar. E olha que já parei de fazer as cirurgias porque eu só queria que chegasse num ponto que pudesse maquiar para ficar mais discreto no vídeo por causa do trabalho. No Brasil lembro mais que tenho as marcas, porque as pessoas olham mais. Fica uma curiosidade. Mas no resto do mundo passa batido. Sou eu, é o meu corpo e eu me amo.

iG: Você já teve vários namorados. É namoradeira?
Júlia Almeida:
Eu tive relacionamentos longos e sérios muito nova. Depois resolvi ficar sozinha experimentando a vida e aí veio o Sebastian que me encantou e me apaixonei completamente. Acho que cresci muito para usar palavras como paixão, mas é isso. Eu não gosto de dar rótulos. Porque o mais forte é que foi uma pessoa que veio e me fez querer dividir a vida. Estamos morando juntos.

iG: Se considera casada?
Júlia Almeida:
(Da uma longa gargalhada e uma pausa) Eu me considero closed for business. Me considero uma mulher 100% dele. É. Casada. Pode ser o que for o rótulo, me considero 100% Sebastian. Ainda não falamos sobre isso, mas não olho para mais ninguém a não ser ele.

iG: Você é muito fã da Cher. Da onde veio essa devoção?
Júlia Almeida:
Desde pequena. Eu sou gay desde pequena (risos). Sou muito gay, adoro os gays e ninguém mais gay do que a Cher. Ela é a musa. Eu a acho alegre, feliz, bonita, adoro a Cher. Nem sei na vida real como de fato é, mas ela transmite isso, que é o que os gays transmitem.

iG: Tem muito amigo gay?
Júlia Almeida:
Muito, muito. Chego com uma entourage. Eu adoro os gays, acho eles inteligentes, comigo sempre foram fiéis como amigos, são sensíveis, adoro.

iG: Já teve uma experiência gay?
Júlia Almeida:
(silêncio seguido de longa gargalhada) Já tive muitas experiências na minha vida. Eu já vivi bastante.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.