O apresentador de “O Aprendiz” conversou com iG Gente sobre como vencer o reality, a volta de Roberto Justus para a Record e seu estilo de vida

João Doria Jr.
Beto Lima
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Estar com João Doria Jr. causa certo desconforto. A impressão que se tem é a de estar roubando o precioso tempo do bem-sucedido empresário. Ele, que também é jornalista, publicitário e professor, trabalha desde os 13 anos e atualmente chega a ficar 18 horas por dia no escritório.

Mas isso, na verdade, não passa de uma sensação do interlocutor. Mesmo sendo um dos homens mais ocupados do País, Doria se dedica integralmente a quem está recebendo no momento. Não faz pausas para atender o celular ou para responder emails.

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Faz parte do show: sempre sorridente e extremamente atencioso, revela com sua fala articulada uma energia incomum para o trabalho, para a vida. Por trás da aparente doçura, existe alguém com retidão de conduta -- e que sabe exatamente o que quer. “Não, é poético demais para mim”, responde com firmeza quando o fotógrafo solicita determinada pose. Nos encontros de empresários que promove por meio da Lide – grupo de líderes empresariais -, João Doria coordena todos os poderosos do Brasil com um apito. Os compromissos são literalmente cronometrados.

Hoje, o dono do Grupo Doria Associados vive com sua família em uma mansão de 7.000 metros quadrados, avaliada em R$ 50 milhões. Mas o início de sua vida foi sofrido. Segundo ele, seu pai perdeu tudo no golpe militar de 1964. “Oitenta por cento do que ganhava eu dava para a minha mãe e 20% era o que me sobrava para poder ir ao futebol aos domingos”, recorda-se sobre seus primeiros salários.

Como um verdadeiro homem da comunicação, é ele quem está por trás de um recorde histórico na vida de “O Aprendiz”: foram 153 mil inscrições, um número superior aos que prestaram vestibular na Fuvest este ano. Para vencer o reality, o apresentador deu dicas preciosas aos candidatos a empreendedores que entram na disputa para faturar R$ 1,5 milhão. Nesta edição, o vencedor se torna empregador e não mais empregado. Em conversa com iG Gente , João Doria falou também sobre seus 20 anos de televisão e sua relação com Roberto Justus, que está de volta à Record.

iG: O que mudou em relação à temporada anterior de “O Aprendiz”?
João Doria Jr. : A característica do programa permanece a mesma, o que muda é o objetivo. O alvo agora é cultivar o empreendedorismo, valorizar o espírito empreendedor e descobrir através do vencedor desta nova etapa aquele que não vai ser mais empregado, vai ser empregador e dono de seu próprio negócio.

João Doria Jr.
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iG: Como era sua vida antes de estar à frente do reality show?
João Doria Jr.: Não mudou nada porque faço televisão há 20 anos. Nessas duas décadas eu sempre convivi harmoniosamente com a minha atividade empresarial e a minha atividade como apresentador de televisão.

iG: Mas você ficou mais conhecido do grande público. Como lida com isso?
João Doria Jr.: O patamar de abrangência de fato mudou. “O Aprendiz” colocou a minha imagem perante um universo de público que eu não atingia anteriormente. O meu público sempre foi muito A e um pouco de B. Agora ele é muito B e muito C, mas eu gosto. Eu me dou bem quando vou a um shopping center, a cinemas, as pessoas me pedem para tirar fotografia, assinar um autógrafo, isso não me cria nenhum embaraço, me deixa feliz.

Foi um período dificílimo porque perdemos quase que tudo: amigos, casa, automóvel. Saí da escola privada e fui estudar em escola pública. O estágio era um passo para o emprego. Eu o agarrei como se fosse a última oportunidade da minha vida

iG: As pessoas te param na rua para pedir dicas obre carreira?
João Doria Jr.: As pessoas me pedem dicas por email. Sempre que eu posso ajudar, eu faço, indicando principalmente uma referência de literatura quando as pessoas querem aprimorar uma característica ou encontrar alguma resposta, principalmente no plano profissional.

iG: E pedindo trabalho, já houve esse tipo de abordagem?
João Doria Jr.: Isso sempre aconteceu, não depende nem do programa, faz parte. A bem da verdade é que nos últimos dois anos, diminuiu muito, sensivelmente. Prova de que a economia brasileira está madura, está numa fase empregadora. Caíram muito os pedidos e solicitações, que até dois anos eram relativamente intensos, portanto, antes mesmo de o “Aprendiz”, diminuíram sensivelmente.

iG: Como você era como estagiário?
João Doria Jr.: Foi um período muito difícil da minha vida, eu tinha 13 anos de idade e precisava muito de emprego. Nós tínhamos voltado do exílio - eu e meu irmão mais novo, com dois anos de idade e minha mãe -, meu pai continuava exilado como deputado federal cassado pelo golpe militar de 1964. Foi um período dificílimo porque perdemos quase que tudo: amigos, casa, automóvel. Saí da escola privada e fui estudar em escola pública. O estágio era um passo para o emprego. Eu o agarrei como se fosse a última oportunidade da minha vida. E deu certo, essa minha determinação permitiu que em dois meses eu pudesse ter acesso a uma vaga nessa agência de publicidade, ter a carteira assinada, esse foi o meu primeiro emprego. Ainda que modesto do ponto de vista do que eu fazia, afinal tinha 13 anos, mas aquilo permitiu o salário, o sanduíche que eu tinha na hora do almoço, o suco de laranja e o passe da CMTC. Para mim aquilo valia muito.

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Gosto muito de televisão, de programas de entretenimento, de jornalismo, documentários e futebol. Não sou 'heavy user' de televisão porque trabalho muito, mas como eu fico aqui no escritório até muito tarde, a televisão é a minha companhia

iG: Você precisava ajudar em casa?
João Doria Jr.: Eu podia ajudar um pouquinho a minha mãe, continuar meus estudos na escola pública à noite, tinha a dignidade de trabalhar, que era uma coisa que eu queria muito. Até porque eu precisava. Oitenta por cento  do que ganhava eu dava para a minha mãe e 20% era o que me sobrava para poder ir ao futebol aos domingos, que eu gostava, comia um sanduíche. Muitas vezes eu ia e voltava a pé para o estádio. Aquele dinheiro que sobrava dava para isso, para comprar um par de tênis, uma coisa desse tipo. Nunca esqueço esse estágio e o meu primeiro emprego nessa agência de publicidade que ainda existe e chama-se Ogilvy, e naquele tempo se chamava Standard. Foi muito marcante na minha vida.

iG: O que você assiste na TV? Quem você admira nessa área?
João Doria Jr.: Muitas pessoas, temo cometer alguma imprudência ao citar uns em detrimento de outros. Gosto muito de televisão, de programas de entretenimento, de jornalismo, documentários e futebol. Não sou 'heavy user' de televisão porque trabalho muito, mas como eu fico aqui no escritório até muito tarde, a televisão é a minha companhia. Deixo a televisão ligada e com isso, acompanho.

iG: Quais mudanças você teve que fazer para se adaptar ao novo cargo, como apresentador do “O Aprendiz”?
João Doria Jr.: Foi literalmente muito aprendizado, uma aula de televisão. É diferente apresentar um reality de um programa de entrevistas. Agora, além de experiência em televisão, tenho experiência específica em reality e isso me ajuda a ser melhor a corrigir eventuais falhas e a ter um desempenho mais eficiente e, ao mesmo, interagir melhor com o produto reality.

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Roberto Justus tem experiência, é um profissional que é apaixonado por televisão. Ele tomou inclusive uma decisão de vida de se dedicar integralmente à televisão, ele gosta da Record e a Record gosta dele

iG: O que você trouxe do seu repertório para esta fórmula?
João Doria Jr.: Eu mesmo! Foi um ponto que eu coloquei para a Record, eles tiveram a gentileza de me convidar. Eu disse que se eles estavam convidando o João Doria Jr. exatamente como o João é, com suas características de bom e de ruim, eu aceitaria o convite. Se eles imaginassem convidar alguém para cumprir um papel diferente daquele que eu cumpro no meu cotidiano, não seria a pessoa adequada porque não sei representar. Eu sou autêntico, sou tão sincero nas minhas manifestações que eu jamais saberia interpretar.

iG: C omo é a sua relação com Roberto Justus?
João Doria Jr.: Tenho uma relação muito boa com o Roberto, somos amigos há mais de 20 anos. O fato de estarmos neste momento em televisão e agora circunstancialmente no mesmo canal só nos aproxima ainda mais. A esposa dele é amiga da minha esposa, temos uma relação muito boa. Somos diferentes, as pessoas sabem disso, mas comungamos dos mesmos princípios de vida, de existência, ainda que sejamos diferentes. Mas nos respeitamos e nos gostamos muito.

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iG: Como enxerga a volta dele à Record?
João Doria Jr.: Acho a volta do Roberto à Record muito positiva, tanto para ele quanto para a emissora. Roberto tem experiência, é um profissional apaixonado por televisão. Ele tomou inclusive uma decisão de vida de se dedicar integralmente à televisão, ele gosta da Record e a Record gosta dele. Acho um bom reforço para a Record. Isso é bom para todos: bom para os anunciantes, bom para os profissionais de televisão, bom para os fornecedores de televisão. O mercado aprecia quando há uma competição legítima, saudável, o mercado como um todo gosta.

iG: Como vai ser 2012?
João Doria Jr.: Do ponto de vista da Record, nós nem chegamos a conversar sobre 2012. Nem faria sentido, nós ainda temos o contrato de 2011 para cumprir. Depois que terminar o ‘Aprendiz”, vamos conversar.

Pode me custar 15, 16, 18 horas de trabalho num dia, que isso não me incomoda. As poucas horas que eu tenho livres eu dedico à minha família. Tenho um casamento só, não sou colecionador de casamentos

iG: Mas você tem o desejo de renovar com a Record?
João Doria Jr.: Tenho o desejo de ficar próximo da Record, gosto muito deles, assim como a Band, onde estou. É um relação muito séria, muito profissional. Vai depender um pouco de saber quais são as perspectivas do próprio “Aprendiz”, como eles enxergam este produto e a sua continuidade. Não tenho ansiedade com televisão, sou uma pessoa muito tranquila, muito ajustada e não coloco a ansiedade à frente da racionalidade. Ajo na televisão como ajo nos meus negócios, com profundo equilíbrio, com bom senso, sem queimar etapas, nem antecipar processos, tudo ao seu tempo.

iG: O que você faz quando não está trabalhando?
João Doria Jr.: Eu trabalho! Tenho uma carga de trabalho grande porque sou apaixonado por aquilo que eu faço. E faço por gostar, pelo entusiasmo, não pelo dinheiro. Se tenho motivação, abraço aquela causa. Pode me custar 15, 16, 18 horas de trabalho num dia, que isso não me incomoda. As poucas horas que eu tenho livres, dedico à minha família. Tenho um casamento só, não sou colecionador de casamentos. Não critico quem toma esta opção, mas não fiz esta escolha. Gosto de esporte, pratico, ainda que com muita limitação, e gosto muito do Santos Futebol Clube. Gosto de assistir aos jogos do Santos, e quando possível, ir ao estádio.

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Dentre todas as entrevistas com personalidades, qual foi a mais marcante?
João Doria Jr.: Todas foram marcantes e de cada uma eu extraí uma boa lição. Isso me amadureceu muito. A vantagem de se fazer um programa de entrevistas é que se aprende a cada programa, em cada um se extrai uma nova lição. Os personagens que se entrevista têm mérito para serem entrevistados e trazem sempre uma boa contribuição para você e para o público que assiste. Mas se eu tivesse que destacar um, seria o Ayrton Senna. A entrevista que eu fiz com o Ayrton foi em um momento de profunda felicidade dele, em Angra dos Reis, ele tinha acabado de comprar a casa que ainda hoje é da família Senna. Ele amava o mar, amava Angra. Fiz lá a entrevista e dois meses depois ele morreu. Foi muito marcante porque ali ele colocou pela primeira vez com clareza o sonho dele de criar uma instituição, que depois veio a ser o Instituto Ayrton Senna, dedicado à educação e formação das crianças. A última grande entrevista que ele concedeu a uma emissora televisão foi essa.

O empreendedor precisa ter uma profunda fé em si próprio, e uma fé maior também. Isso vai ajuda-lo a vencer algumas intempéries e alguns momentos em que ele pensa em desistir

iG : Como ganhar “O Aprendiz”? O que você espera de um bom empreendedor?
João Doria Jr.: Espero de um candidato a empreendedor primeiro que ele seja autêntico, verdadeiro, que não minta, que tenha a autenticidade como um de seus valores. Dois: perseverança. Nenhum empreendedor vence se não perseverar. Três: que saiba trabalhar em equipe. Ele precisa compartilhar e, para compartilhar, precisa melhorar sua taxa de compreensão e de tolerância para poder entender as pessoas que estão ao seu lado, as suas diferenças, as suas características pessoais, ainda que você não concorde com elas. Quarto: procure sempre uma boa ideia e essa boa ideia pode ajudar a ser um empreendedor de sucesso. Procure, portanto, inovar, porque se imaginar fazer apenas aquilo que muitos já fazem, ele vai ter mais dificuldade. É preciso ter uma dose de coragem para inovar ao lado do bom senso e equilíbrio, saber construir esta ideia e torná-la real. O quinto aspecto é humildade, o empreendedor sem humildade já começa errando. Ainda que ele tenha algum êxito, em algum momento ele vai falhar e vai falhar de maneira acentuada por falta de humildade. Acho eu esses cinco pontos são importantes na vida de um empreendedor, e eu acrescentaria um que é de ordem de valor, ou seja, espiritual, que é ter fé.

iG: Que tipo de fé?
João Doria Jr.: É preciso ter muita fé, muita confiança naquilo que vai fazer, porque você vai enfrentar um mundo diferente do que o tranquilo mundo de receber o contra-cheque todo final de mês, quando se é um bom funcionário, um bom executivo, um bom profissional, mas que prefere estar bem acomodado nessa situação a ter o desafio de enfrentar uma vida diferente. Portanto, o empreendedor precisa ter uma profunda fé em si próprio, e uma fé maior também. Isso vai ajudá-lo a vencer algumas intempéries e alguns momentos em que ele pensa em desistir.

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