Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Herson Capri vive seu maior sucesso na TV e diz como o câncer mudou sua vida

Em entrevista ao iG, o ator que interpreta o vilão Horácio Cortez em “Insensato Coração” faz um balanço de sua trajetória

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

George Magaraia
Herson se distrai com uma garça, que surge no meio da foto

A garça da foto não estava nos planos. Veio se aproximando como quem sabe que vai ser fotografada. “Que bom que ela está disposta a uma foto. Vamos aproveitar então”, brinca Herson Capri, na frente do teatro Nelson Rodrigues, centro do Rio. Alguns cliques depois, a ave já não está mais em cena. Herson convida a reportagem do iG para ir ao seu camarim. O ator, que vive atualmente o empresário Horácio Cortez em “Insensato Coração”, também está em cartaz com a peça “Conversando com mamãe”, ao lado de Beatriz Segall.

Chama a atenção o visual “clean” do espaço. Nenhuma foto sobre a bancada, nenhum adereço além de um cristal dado por sua cunhada, a atriz Monica Martelli. “Não tenho ego algum. Já namorei uma atriz que tinha um mural de cortiça repleto de fotos só dela. Achava tão engraçado isso”, comenta o ator, já colocando os pés para o alto. À vontade, tal como a garça lá de fora, ele se solta durante o bate-papo de quase uma hora.

Além de sua relação com a dupla jornada de trabalho, Herson fala de sua transformação após se curar de um câncer no pulmão, há dez anos. “Todo ano preciso fazer uma série de exames. É uma mão de obra danada! Cada vez que vou fazer os exames existe uma certa tensão. Pode rolar alguma coisa. Até hoje não rolou, mas pode rolar”, diz ele, aos 59 anos.

George Magaraia
Herson Capri, 59 anos

iG: Saberia contabilizar se tem mais vilões do que mocinhos na sua carreira?
HERSON CAPRI:
Talvez tenha feito mais antagonistas do que mocinhos, que é aquele cara que atrapalha o romance principal. Mas no geral, acho que fiz menos vilões. Teve uma hora que estanquei. Falei ‘chega, não faço mais vilões’. Partiu de mim esta vontade, porque estava me sentindo repetitivo após cinco ou seis papéis consecutivos. Meu arquivo de vilanias já estava no fim.

iG: Qual foi a maior vilania que você já cometeu?
HERSON CAPRI
: Caramba! Eu, pessoalmente? Se tiver alguma, não vou me entregar assim... (risos). Deixa eu pensar... Talvez passar em sinal fechado. Vou me proteger, não falo mais do que isso!

Saiba quais são os rituais de Herson antes de entrar em cena

iG: Curiosamente, as pessoas torcem para que o seu personagem em “Insensato Coração” fique com a Natalie (Deborah Secco). Por que ele não é execrado, se é um mau caráter?
HERSON CAPRI:
Verdade, não estou recebendo desaforos. É provavelmente o momento mais gratificante da minha vida profissional. É um sujeito de caráter execrável e, ao mesmo tempo, as pessoas têm relação de reconhecimento pelo meu papel. Já fiz outros canalhas que, por causa da ficção, me chamavam de assassino no meio da rua. Acho que tem a ver com a química do casal.

George Magaraia
Vivo meu melhor momento profissional
iG: Em breve, Cortez repetirá o gesto que Reginaldo Faria fez em 1988 em “Vale Tudo”, dando uma banana antes de fugir do Brasil. O que muda da ‘banana” de 1988 para a atual?
HERSON CAPRI:
O Brasil é outro, né. Os criminosos do colarinho branco estão sendo presos, a imprensa denuncia com mais força. Há outra consciência. A arte imita e se complementa com a vida. Esta cena é uma evolução. Naquela novela, Reginaldo dá uma banana, foge e se dá bem. Hoje, meu personagem dá uma banana mas vai preso em seguida.

iG: Em 1999, você descobriu que estava com câncer. Como lidou com este drama?
HERSON CAPRI:
Quando tive o câncer, ainda havia aquele estigma de que quem tem a doença vai morrer. Então me convenci disso, me preparei para morrer. Comecei a preparar a família, conversando com todos. Meu filho ficou traumatizado. Com o câncer de pulmão, tinha só 10% de chance de sobrevida. Ainda hoje é um dos que mais matam. Este destino não deu certo para mim. O câncer estava muito próximo para colar em outras partes e acabar em metástase, mas me salvei.

iG: Doze anos depois, o que mudou na sua vida?
HERSON CAPRI
: Mudou tudo. Minha visão da profissão, da relação a dois, apesar de sempre ter tido uma relação muito boa com a Susana ( Garcia, sua mulher). Nossa relação foi ficando mais forte ainda. Sempre fui afetuoso com a família e com os filhos, dedicado com minha mulher, sempre fiel, em todos os aspectos, e isso se aprofundou ainda mais. A tolerância com tudo e todos aumentou significativamente. Onde não tinha passou a ter.

Confira detalhes de "Conversando com minha mãe"

iG: Tornou-se mais religioso?
HERSON CAPRI:
Não. Aprendi a buscar onde estava minha religiosidade. Consegui ver minha contradição. Sempre fui ateu, de família ateia até hoje. Ao mesmo tempo, estudei em colégio de freiras. Acordava todo dia às cinco da manhã para acompanhar a missa. Era uma tortura.

iG: Como lida com esta contradição?
HERSON CAPRI:
Tive o contato com a religião, mas com espírito aguçadamente crítico com relação a todas elas. Continuo ateu, mas faço muito de vez em quando um contato íntimo, que não sei dizer com quem é. Digo que é um contato imediato de terceiro grau. Rezo às vezes, agradeço por algo muito bom ou peço para que algo ruim não aconteça.

George Magaraia
O Brasil mudou. Hoje meu personagem dá uma banana mas vai preso em seguida

iG: Acredita em vida após a morte?
HERSON CAPRI:
Nenhum pouco, nada. Rezo em cima do meu contato contraditório. Quando aconteceu a questão da doença, passei a aceitar esta minha contradição.

iG: Falando em religião, você descobriu a doença ao interpretar Jesus.
HERSON CAPRI:
Ia fazer Jesus Cristo, em Nova Jerusalém, uma semana direto, oito mil pessoas por dia... Uma loucura. Queria ficar mais magro para interpretar o papel, daí o médico me recomendou uma lipoaspiração. No pré-operatório, os exames indicaram o câncer. Acabei fazendo Jesus sem a lipo.

iG: Que cuidados você ainda hoje precisa ter devido à doença?
HERSON CAPRI:
Quem já teve câncer precisa ter um cuidado especial para toda a vida. Fazer exames todos os anos. Faço tomografia do corpo inteiro: óssea, de crânio, pulmão, tórax, abdome... É uma mão de obra danada! Cada vez que vou fazer os exames existe uma certa tensão. Pode rolar alguma coisa. Até hoje não rolou, mas pode rolar.

iG: É difícil lidar com esta apreensão constante?
HERSON CAPRI:
Não é o tipo de medo que me acompanha tanto. Não é uma coisa obsessiva, é racional. Eu vou lá e penso ‘pode ter uma coisinha’. Se pegar no começo, vou tratar e as chances de cura são altas. Hoje em dia está tudo tão avançado, né? O problema é não fazer exame. Aí vale fazer o merchandising da saúde. O Brasil ainda é subdesenvolvido na saúde pública, e não fazem campanha pela prevenção. É importante que se faça exames periódicos.

iG: Te preocupa o fato de envelhecer?
HERSON CAPRI:
Calma que faltam seis anos para chegar à terceira idade (risos). Ainda tenho pretensão de achar que tenho resquícios de 48 anos! Mas estaria mentindo se respondesse que não preocupa, claro que sim. Por isso me mantenho com cuidados. Vou à academia com regularidade. Faço musculação, ginástica de solo, corro... O vinho, que era diário, agora é só duas vezes por semana. E procuro me manter sempre bem humorado.

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG